A indústria de transformação de plástico no Paraná opera sob pressão em razão da alta nos custos das resinas termoplásticas — como polietileno e polipropileno, principais matérias-primas de praticamente todos os produtos plásticos. Essa elevação ocorre em meio à escalada do conflito no Oriente Médio e coloca o setor em alerta no estado, com altas que, em alguns casos, já se aproximam ou superam de 80% até 100% no custo. 

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Foram realizados quatro reajustes recentes — dois em março e dois em abril —, com previsão de uma nova alta entre 10% e 15% em maio. Os efeitos já são sentidos na produção, com aumento expressivo de custos, atrasos nas entregas e risco de desabastecimento, cenário que já atinge a maior parte do setor no estado. 

De acordo com o Sindicato da Indústria de Material Plástico do Estado do Paraná (Simpep), 62% das empresas já enfrentam dificuldades no acesso à matéria-prima, principalmente em razão da irregularidade nas entregas — reflexo da restrição da oferta global de insumos, agravada pela guerra. A Região Metropolitana de Curitiba, Norte (Londrina) e Oeste (Cascavel) concentram 80% das indústrias de transformação, conforme a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). 

Impactos regionais

Em Cascavel, o diretor da Eliza Plásticos, Eisler Bernar Zanella, relata que o impacto foi imediato. A empresa, fundada em 1999, atende cerca de 90% dos frigoríficos do Brasil com redes e lacres para carnes e linguiça, o que amplia a sensibilidade aos custos das resinas, além de atuar em outros segmentos.

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“O primeiro aumento, em 15 de março, foi de cerca de 80%. Depois, houve outro de 108%, e tivemos mais um reajuste de 33% recentemente”, explica o diretor.
A empresa já sente os reflexos no mercado e o problema deixou de ser apenas o preço. Parte do impacto está na oferta dos insumos. “O volume de vendas caiu 22% em apenas um mês, mesmo com aumento no faturamento. Mas agora, o problema não é só o custo, mas sim o acesso. Vai ser uma disputa por matéria-prima”, afirma. 

Ele explica que a Braskem, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, reduziu em cerca de 40% o volume de entregas, enquanto as importações foram canceladas. “Dos quatro contêineres contratados (52 toneladas cada), apenas um será entregue. A previsão é de que a normalização ocorra em cerca de quatro meses”, afirma. 

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O grupo, que reúne três indústrias no Oeste e emprega cerca de 230 trabalhadores, já avalia medidas mais duras. “Primeiro fazemos estoque, depois férias coletivas e, se crise persistir por mais tempo, pode haver redução de equipe”, conclui o diretor. 
Outro fator de pressão é o transporte. O frete subiu 14%, impulsionado pela alta do diesel e pela retomada dos pedágios no Paraná, que voltaram a ser cobrados após mais de dois anos suspensos, elevando novamente o custo logístico das empresas.

Impactos na Grande Curitiba

Na Região Metropolitana de Curitiba, a crise já atinge setores dependentes do plástico. Em São José dos Pinhais, a Cini Bebidas — considerada a fábrica de refrigerantes mais antiga do Brasil — enfrenta aumento expressivo nos custos, especialmente na cadeia de embalagens.

Segundo o diretor executivo, Maurício Vendruscolo, a empresa se antecipou aos primeiros sinais da crise, ainda em fevereiro. “Ampliamos a capacidade de armazenagem e formamos um estoque para cerca de seis meses”, afirma. Agora, a empresa renegociou as compras para além desse período e avalia alternativas para reduzir a dependência de insumos mais críticos em substituição a resina plástica. 

Com o agravamento do cenário em abril e os preços das resinas já ultrapassando 100% de alta, a empresa intensificou as negociações com fornecedores para conter os reajustes. “Agora já não conseguimos os preços anteriores, por isso buscamos transparência para evitar repasses acima do real aumento de custos”, explica. 

Até o momento, a indústria de bebidas repassou cerca de 5% a 10% da composição desse aumento (resina + diesel) ao consumidor final, em um movimento de reposição de preços diante da elevação de custos, enquanto absorve o restante. 

Com uma operação que entrega cerca de 1,2 milhão de fardos de bebidas por mês, a Cini tem um consumo extremamente elevado de plástico, especialmente em itens como garrafas (PET), tampas e rótulos, o que amplia de forma significativa os efeitos da alta das resinas sobre o produto final. “No setor de bebidas, o impacto das resinas é ainda mais sensível. A embalagem plástica representa entre 80% e 90% do custo”, destaca.

Sobre a redução da oferta pelas petroquímicas, ele afirma que as entregas estão entre 80% e 90% do volume habitual. “Ninguém ficou sem material, mas há restrição, e o risco aumenta a partir de maio”, diz Vendruscolo.  

Setor opera sob pressão no Paraná

Os impactos do conflito no Oriente Médio são cada vez mais visíveis na rotina das indústrias. No Paraná, empresas registram atrasos médios de 15 a 20 dias nas entregas, segundo levantamento do Simpep com base em dados da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), enquanto a produção física do setor recuou 4,2% no último período.

A dificuldade no abastecimento também altera a dinâmica do mercado. Com oferta irregular de resina, empresas passam a disputar matéria-prima e a reorganizar a produção, priorizando clientes estratégicos ou reduzindo volumes. 

Além disso, o setor enfrenta limitações estruturais. Segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), cerca de 33% da resina consumida no estado é importada, o que aumenta a exposição a oscilações externas e dificulta a previsibilidade de custos.

A pressão recai principalmente sobre pequenas e médias empresas. “São as que mais sofrem, porque não têm fôlego financeiro para absorver aumentos prolongados. Se o cenário não se estabilizar até o final de 2026, o risco é alto. Estimamos que 10% das empresas menores podem entrar em regime de recuperação ou até encerrarem suas atividades”, afirma Arlei Gláucio Martins, presidente do Simpep. 

Ainda segundo o Simpep, os segmentos industriais plásticos mais afetados no Paraná são os de embalagens de baixo valor agregado e utilidades domésticas, que têm menor capacidade de absorver aumentos. Hoje, de acordo com a entidade, o repasse médio de aumento repassado ao consumidor gira em torno de 12%, bem abaixo da alta da matéria-prima — cenário que varia conforme o segmento. 

O Paraná concentra 1.057 indústrias do segmento plástico, responsáveis por 30.691 empregos diretos, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep). Em 2023, o setor movimentou R$ 8,9 bilhões, o equivalente a 6% do mercado nacional. A indústria do plástico representa 2,8% do total de estabelecimentos da indústria de transformação do estado. Sobre a crise do ‘plástico’, a Fiep monitora o nível de emprego e já sinaliza um “platô” de contratações no setor. 

Norte do Paraná ainda sem impactos diretos

Na região Norte do estado, o cenário ainda é de estabilidade. O Sindicato da Indústria de Material Plástico do Norte do Paraná (Simplas-NP) informa que, até o momento, não há registros de paralisações ou atrasos nas entregas.

O presidente da entidade, Luiz Fernando Fontana, afirma que as empresas acompanham o mercado com atenção. “Não temos relatos diretos de impacto, mas o cenário exige monitoramento constante. No entanto, os preços das resinas já registram variações entre 64% e 80%, e segmentos como o de embalagens flexíveis enfrentam dificuldades para repassar esses custos, o que mantém as margens pressionadas”, afirma Fontana.

Pico de preços deve ocorrer em maio

De acordo com as entidades ouvidas, os preços do polietileno e do polipropileno devem atingir o pico em maio de 2026. No curto prazo, a expectativa é de escassez e baixa disponibilidade de estoques. Já no segundo semestre, o mercado pode passar por uma acomodação, embora os impactos ainda devam persistir.

No longo prazo, a crise dos insumos pode provocar mudanças estruturais na cadeia global, com a diversificação de fornecedores e menor dependência do Oriente Médio, atualmente responsável por cerca de 43% do comércio global de polietileno.

Procurada pela Tribuna do Paraná, a Braskem informou que, neste momento, não irá se manifestar sobre o tema.