Uma incubadora de startups de Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná, está preparando uma sede que promete fugir bastante do estereótipo de escritório de tecnologia. A ideia é criar um espaço inspirado no conceito das grandes empresas de inovação, com academia, restaurante, refeitório próprio, heliponto e até um “berçário” para pets. O projeto é da Lions Startups, que quer transformar a cidade dos Campos Gerais em um polo capaz de formar empresas de alto crescimento.
A comparação que a própria Lions faz é com o ambiente das grandes empresas de tecnologia, como o Google. Não pela dimensão, evidentemente, mas pela proposta de criar um local em que trabalho, tecnologia, formação e convivência estejam integrados. A nova estrutura será construída na sede própria da empresa, no bairro Uvaranas.
“Queremos uma estrutura de trabalho bem diferenciada, que as pessoas sintam-se bem e à vontade aqui”, explica André Paixão, CEO da Lions Startups.
E há um detalhe que resume bem a proposta. Se antigamente as empresas pensavam em creches para filhos dos funcionários, a Lions já pensa também em um espaço para os animais de estimação. A lógica é acompanhar a mudança no comportamento de profissionais que muitas vezes têm pets e encontram justamente neles um obstáculo para voltar ao trabalho presencial.
Mas o prédio é apenas a parte mais chamativa de um projeto que pretende funcionar de uma maneira diferente das incubadoras tradicionais.
Não é só um coworking
Na avaliação de Paixão, muitos hubs de inovação acabam funcionando, na prática, como espaços de coworking: a startup passa por uma seleção, ganha uma mesa, infraestrutura e endereço, mas segue responsável praticamente sozinha pelo desenvolvimento do negócio.
Na Lions, a proposta é outra. Antes de entrar, a empresa passa por análises jurídica, financeira e tecnológica. Se for aprovada, recebe uma estrutura que inclui espaço físico, equipamentos, infraestrutura tecnológica, mentoria, governança, formação de profissionais e conexão com investidores. Em troca, a Lions fica com 10% da participação societária da startup. “É um capital indireto. A gente literalmente aposta na ideia e no negócio”, resume o CEO.
A lógica é fazer com que a incubadora também tenha interesse no sucesso da empresa. Em vez de simplesmente cobrar aluguel pelo espaço, o modelo aposta que algumas das startups vão crescer o suficiente para gerar retorno e permitir novos investimentos no próprio ecossistema.
Hoje, a Lions tem 12 startups em estruturação e afirma já ter movimentado cerca de R$ 10 milhões. A empresa está perto de completar dois anos de operação e prevê que o modelo comece a caminhar de forma mais autônoma a partir do fim de 2027.

De onde vão sair os profissionais?
Outra frente importante é a formação de mão de obra. A Lions criou o Lions Dev, programa gratuito e presencial de formação em tecnologia, com laboratório próprio, aulas em três turnos, lanche e assistência psicológica.
Segundo Paixão, mais de 300 pessoas já foram formadas. Parte acabou absorvida pelas próprias startups do ecossistema. Um dos casos citados pelo executivo é o de um aluno que trabalhava pintando prédios quando descobriu o curso. Depois da formação, conseguiu uma oportunidade em uma das empresas ligadas à Lions e hoje trabalha na área de tecnologia.
A estratégia responde a um problema conhecido pelas empresas de inovação: encontrar profissionais qualificados. Em vez de esperar pelo mercado, a Lions decidiu formar parte dos talentos que pretende utilizar.

Lions Startups: de laboratório de ideias a empresas
O portfólio da Lions é diversificado. A incubadora trabalha com uma lógica de “multitese”, sem se limitar a um único setor.
Entre os negócios estão a Vida Exames, rede de franquias de análises clínicas que já comercializou mais de 140 unidades; a Agilizza, plataforma que conecta consumidores a prestadores de serviços; e a Sauvvi Tech, voltada ao acesso a serviços de saúde para quem não tem planos de saúde.
A Vida Exames é um dos principais exemplos do modelo. A empresa nasceu dentro do ecossistema da Lions e vem avançando na expansão por franquias. A própria Lions divulgou recentemente que a rede tinha cerca de 140 franquias comercializadas e que, até o fim de 2026, o valor da Vida Exames chegue a R$ 100 milhões.
A ideia é que as startups não saiam simplesmente da incubadora quando atingem determinado estágio. A Lions quer acompanhar a estruturação, ajudar na governança, preparar as empresas para captar recursos e conectá-las a investidores-anjos.
Isso inclui até mesmo organizar acordos entre sócios, processos e estrutura jurídica, pontos que, segundo Paixão, podem se tornar obstáculos quando chega a hora de buscar investidores.
Por que Ponta Grossa?
A escolha dos Campos Gerais também faz parte da estratégia. A cidade tem proximidade com a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o que facilita o acesso a talentos, além da cidade estar recebendo novos investimentos industriais e empresariais. Há diversas grandes indústrias e empresas se instalando na cidade, que tem se tornado atrativa para investidores.
A Lions já mantém uma base em São Paulo voltada principalmente a networking e pretende ampliar também a agenda de conexões em Curitiba. A sede operacional, porém, permanece em Ponta Grossa.
A incubadora tem como fundador e patrocinador Oséias Gomes de Moraes, dono da Odonto Excellence. No negócio de inovação, a aposta da Lions é de longo prazo: criar uma estrutura que não apenas abrigue startups, mas ajude a formar empresas capazes de crescer, captar investimentos e, quem sabe, chegar ao seleto grupo dos chamados unicórnios, startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão.

