O Iguassu Valley é uma rede que conecta 54 municípios do Oeste do Paraná em torno de uma mesma pauta: transformar a região em um polo de tecnologia e inovação. A iniciativa funciona como um ecossistema que une empresas, grandes cooperativas do agronegócio, universidades, startups, governos e entidades de apoio para incentivar novos negócios e gerar soluções tecnológicas dentro do próprio Estado.
Fazem parte da rede 324 startups, nove empresas âncoras (organizações de grande porte que impulsionam a economia de uma região ou lideram uma cadeia produtiva), dez instituições de fomento (órgãos financeiros focados em injetar recursos para estimular o desenvolvimento de uma região ou setor), 25 instituições de ensino e 21 habitats de inovação (espaços físicos ou virtuais criados para reunir talentos, tecnologias, empresas e investimentos). O objetivo comum de todas essas frentes é desenvolver projetos que impulsionem a inovação na região.
A articulação do Iguassu Valley começou a ganhar força a partir de uma provocação feita durante uma reunião da Associação Comercial e Industrial de Cascavel (ACIC): enquanto um quilo de soja custava cerca de R$ 1 e um “quilo de ônibus” girava em torno de R$ 70, um “quilo de iPhone” ultrapassava os R$ 20 mil. Ou seja, a intenção das lideranças regionais era agregar ao campo o valor da tecnologia.
O movimento começou a ser desenhado no início dos anos 2000 com um pequeno núcleo de informática na ACIC que lutava para se manter ativo. Na época, o diagnóstico era de que o movimento perdia fôlego sempre que a discussão ficava restrita a empresas de TI. Uma nova perspectiva para o projeto surgiu em 2012, quando empresários e lideranças — entre eles Siro Canabarro e Vicente Ribeiro, fundadores do Iguassu Valley e atuantes na área de tecnologia — voltaram dos Estados Unidos convencidos de que a tecnologia deveria ser encarada como uma ferramenta para todas as atividades econômicas.
Nesse período, o grupo concluiu que, para crescer, precisava ir além do meio tecnológico e abrir espaço aos demais setores produtivos e integrar outras associações comerciais do Oeste, como as de Foz do Iguaçu, Toledo, Marechal Cândido Rondon e Medianeira.
“Quando aquele pequeno grupo se reuniu pela primeira vez, sabíamos do potencial do Oeste, mas não dava para prever que teríamos atualmente uma escala desse tamanho de participantes. Olhando para trás, essa caminhada nos ensinou sobre o poder da união, mostrando que inovação não se faz sozinha”, relembram Canabarro e Ribeiro.
A força da articulação comunitária
Integrar startups, instituições de ensino e grandes cooperativas agropecuárias sob uma mesma pauta exigiu um esforço contínuo de escuta. Para os fundadores, o maior desafio não era a tecnologia, mas a governança. A regra adotada foi evitar que um único setor assumisse o controle do movimento, garantindo que novas entidades fossem chamadas para a mesa a cada etapa.
Em 2014, foi criado o Programa Oeste em Desenvolvimento (POD), e o movimento do Iguassu Valley passou a atuar formalmente como a Câmara Técnica de Inovação e Conectividade dentro da estrutura de governança do POD, reunindo poder público, universidades, iniciativa privada e sociedade civil.
Para o presidente do POD, Alci Rotta Junior, alcançar o objetivo do projeto passa pela capacidade de conectar os ativos que o Oeste já construiu e transformar a força produtiva também em conhecimento e tecnologia.
“Temos potencialidades e ativos extraordinários na região. O desafio agora é conectar todos esses atores, investir em educação e preparar nossas empresas para continuarem sendo referência na produção de proteínas, mas também protagonistas em conhecimento, inovação e tecnologia. O Iguassu Valley tem um papel fundamental nesse movimento”, afirma.
Segundo Osvaldo César Brotto, consultor do Sebrae e representante regional, a entidade aproveita os “braços” do ecossistema. “O Sebrae considera que toda a nossa ação aqui na região se multiplica através do Iguassu Valley. Não temos mãos nem braços para realizar toda ação necessária de inovação com os empreendedores e ambientes de inovação sozinhos. Utilizamo-nos dessa estrutura para atingir o maior número possível de pessoas com resultados mais próximos e melhores para todo mundo.”
Para Brotto, o diferencial do ecossistema está na cultura local de associativismo e cooperativismo, que permite que vários grupos atuem no objetivo de desenvolver ferramentas tecnológicas na região. “Poucas regiões no Brasil têm essa possibilidade de vários municípios se unirem em prol de um objetivo comum. Quando você reúne mais de 50 municípios voltados à inovação, você vê eventos como o Summit, o Link e o Show Rural transformando a nossa região em uma das mais inovadoras do Brasil.”
O Summit Iguassu Valley reúne empresas, investidores, estudantes e pesquisadores em busca de parcerias e negócios. Em 2025, mais de 3 mil pessoas participaram de uma programação com palestras, painéis, workshops, rodadas de negócios e apresentação de startups. Entre os destaques da edição estiveram discussões sobre biotecnologia, genômica, inteligência artificial, agronegócio, cultura de inovação e futuro do trabalho.
Integração ao agronegócio
A integração do agronegócio à pauta tecnológica ocorreu de forma natural. Como o Oeste paranaense já atuava na produção de grãos e proteína animal, o passo seguinte foi aplicar a computação, inteligência artificial, drones e sensores de IoT (dispositivos eletrônicos que coletam dados do ambiente e os transmitam pela internet para sistemas de controle) diretamente nas lavouras e na criação de aves, suínos e peixes.
Na prática, as soluções desenvolvidas no ecossistema se convertem em economia no bolso do produtor e na eficiência das cooperativas, reduzindo o desperdício de insumos e controlando o ambiente produtivo em tempo real.
“Antes, uma startup de Cascavel, Toledo ou Foz tinha que buscar recursos nas capitais. Hoje, esse recurso vem direto para o interior, fazendo com que as empresas locais cresçam mais rápido e contratem mais”, explicam as lideranças do movimento.
“O segundo ponto é a retenção de talentos. O interior sempre formou excelentes engenheiros, agrônomos e desenvolvedores, mas eles se mudavam por falta de mercado. Agora que temos empresas de tecnologia robustas se instalando aqui, esses profissionais ficam. Deixamos de ser apenas o lugar que planta e colhe para ser o lugar que cria a inteligência que faz o mundo inteiro plantar e colher melhor.”
Quem utiliza essa rede para crescer é Melina Oliveira Melito, fundadora da startup Saibis e coordenadora do Iguassu Valley em Cascavel. A empresa atua como um marketplace que conecta pesquisadores e acadêmicos a especialistas que oferecem suporte metodológico e de gestão para o desenvolvimento de pesquisas científicas.
“O Summit, por exemplo, me auxiliou de várias formas. Já participei com estande e gerei muitas conexões com o público universitário e acadêmico que frequenta o evento, como os estudantes da UTFPR”, conta Melina. “Hoje, o evento é um ponto fundamental de encontro para realizar conexões com clientes, parceiros, outros empreendedores e investidores para atrair recursos.”
