Governo do Paraná

Futura secretária da Fazenda do Paraná enfrentou dívida bilionária e críticas a benefícios fiscais no RS

Fotografia em plano médio de uma reunião de trabalho em ambiente interno corporativo ou institucional, com três pessoas posicionadas ao redor de uma mesa. Em primeiro plano e à direita, um homem de costas e com barba aparece desfocado, enquanto o governador Eduardo Leite, sentado e vestindo camisa azul-clara, gesticula com as mãos abertas enquanto fala durante a reunião, exibindo um relógio de pulso escuro. No plano intermediário e à esquerda, uma mulher de óculos, cabelos escuros cacheados, blusa preta e blazer bege está sentada, olhando atentamente para o interlocutor com expressão séria. Ao fundo, o ambiente interno exibe divisórias e móveis de escritório em tons de madeira e bege, iluminados por luz natural suave difusa que entra pelas janelas.
Ela será a primeira mulher a comandar a pasta no Paraná. Foto: Mauricio Tonetto.

Primeira secretária anunciada por Sergio Moro (PL), Pricilla Maria Santana comandava a Secretaria da Fazenda do Rio Grande do Sul desde janeiro de 2023. À frente da pasta, conduziu as finanças estaduais em um período marcado por dificuldades fiscais, pelas enchentes de 2024 e por negociações com a União para aliviar a dívida pública.

Os resultados divulgados pelo governo gaúcho incluem crescimento nominal da arrecadação, salários dos servidores pagos em dia e saldo orçamentário positivo em 2026. Esses indicadores, porém, não significam necessariamente que o estado tenha resolvido seus problemas fiscais. 

A gestão também recebeu críticas pelo volume de benefícios tributários concedidos a empresas, pelos descontos oferecidos a devedores e pela dependência de medidas extraordinárias para manter o caixa.

Um dos principais indicadores positivos apareceu no segundo quadrimestre de 2026. Segundo o Relatório de Transparência Fiscal da Secretaria da Fazenda, o Rio Grande do Sul acumulou superávit orçamentário de R$ 7,7 bilhões entre janeiro e agosto. Na prática, o resultado indica que as receitas contabilizadas no período superaram as despesas consideradas no cálculo. 

Para avaliar a saúde financeira do estado, no entanto, é necessário observar também a origem desses recursos e a capacidade de manter o equilíbrio nos anos seguintes. Parte do resultado foi influenciada por receitas extraordinárias, novas operações de crédito e pelo alívio temporário provocado pela suspensão do pagamento da dívida com a União, que chegou a R$ 9,8 bilhões até agosto. 

O resultado primário, indicador que desconsidera receitas e despesas financeiras e ajuda a avaliar o equilíbrio entre arrecadação e gastos públicos, foi bem menor: R$ 125 milhões positivos. O valor foi registrado mesmo após o pagamento de R$ 5 bilhões em restos a pagar de exercícios anteriores, despesas de outros anos que ainda estavam pendentes.

Em comparação com o Paraná, por exemplo, a situação fiscal da dívida pública com a União é oposta. Enquanto o Rio Grande do Sul possui um dos maiores endividamentos do país, o Paraná destaca-se como credor líquido, registrando uma das melhores saúdes fiscais do Brasil.

Arrecadação e respostas econômicas às enchentes

Na arrecadação de impostos no RS, o ICMS também apresentou crescimento nominal. Em 2025, a receita com o tributo chegou a quase R$ 54 bilhões, alta de 6% em relação ao ano anterior, segundo dados apresentados pelo governo gaúcho. No Paraná, o volume financeiro dos impostos foi semelhante. 

No estado gaúcho, parte do avanço foi impulsionada pelos programas Refaz Reconstrução I e II, criados para facilitar a regularização de débitos após as calamidades climáticas. Entre janeiro e setembro de 2026, a arrecadação somou R$ 40,98 bilhões, em comparação com os R$ 39,79 bilhões no mesmo período de 2025.

Outro ponto do estado foi a resposta financeira às enchentes de 2024. A gestão adotou mecanismos para acompanhar as perdas de arrecadação e programas de recuperação tributária para apoiar a retomada econômica. 

Segundo balanço da administração estadual, as perdas efetivas de receita ficaram em torno de 12%, abaixo da queda de 40% inicialmente projetada. A diferença indica que a redução da arrecadação foi menor do que a estimada no cenário inicial, embora não elimine os impactos econômicos e fiscais da tragédia.

A pasta também destacou o fim dos saques ao Sistema Integrado de Administração Caixa (Siac), conhecido como Caixa Único, e a manutenção dos salários dos servidores em dia. Entre os resultados apresentados estão ainda a quitação de precatórios, dívidas decorrentes de decisões judiciais, e o repasse de recursos para saúde e educação acima dos mínimos constitucionais. 

Apesar desses indicadores, a política de incentivos tributários esteve entre os principais pontos de contestação. Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado pelo Sintrajufe-RS, apontou que as renúncias fiscais concedidas a empresas chegaram a R$ 17,2 bilhões em 2023, o equivalente a 25,2% da receita total do estado naquele ano. Renúncia fiscal é o valor que o governo deixa de arrecadar ao conceder benefícios, como isenções ou reduções de impostos.

Os números alimentaram questionamentos sobre a transparência dos benefícios e sobre os resultados econômicos e sociais gerados pelas isenções. Para a oposição no RS, os recursos que deixam de entrar nos cofres públicos poderiam ampliar a capacidade de investimento em serviços essenciais.

Os programas de renegociação de dívidas também foram alvo de questionamentos. As críticas se concentraram nos descontos concedidos sobre juros e multas, estimados em cerca de R$ 5,8 bilhões em determinadas iniciativas de regularização fiscal. 

Para a oposição política e parlamentares de esquerda, os abatimentos podem reduzir o potencial de arrecadação e beneficiar empresas que não cumpriram suas obrigações tributárias no prazo. Em contrapartida, a Fazenda apresentou os programas como instrumentos para recuperar créditos e estimular a regularização de débitos.

Endividamento do estado

O endividamento estadual e a dependência de medidas extraordinárias para sustentar o caixa permaneceram no centro do debate no RS. A Lei Orçamentária Anual de 2026 foi aprovada com previsão de déficit orçamentário de R$ 3,8 bilhões e resultado primário negativo de R$ 5,5 bilhões. A projeção para 2027 indica déficit de R$ 4,8 bilhões, o que significa que as despesas previstas devem superar a arrecadação.

Na Assembleia Legislativa, parlamentares apontaram que as estimativas orçamentárias do Executivo poderiam subestimar receitas e que o resultado final poderia ser melhor do que o previsto. A divergência entre Executivo e Legislativo evidencia a dificuldade de projetar as contas estaduais em um cenário de reconstrução, renegociação de dívidas e receitas sujeitas a variações econômicas.

Além dos resultados estaduais, Pricilla ganhou espaço nas discussões nacionais sobre a reorganização do sistema tributário. Em agosto de 2026, assumiu a segunda vice-presidência do Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), responsável por funções centrais na implementação do novo modelo tributário. A experiência deve ser usada para a adaptação do Paraná às mudanças no sistema de impostos.

Siga a Tribuna no Google, e acompanhe as últimas notícias do estado do Paraná!
Seguir no Google