Empreendedorismo

Fruto da palmeira, “açaí da Mata Atlântica” vira bala, geleia e biocosméticos no Paraná

Açai da palmeira-juçara é "ouro" no litoral do Paraná. Foto: Rayani Oliveira / Divulgação

Uma fruta nativa do Litoral do Paraná está sendo usada por pequenos empreendedores da bioeconomia local para gerar renda e sustentabilidade na Grande Reserva Mata Atlântica. Produzido pela palmeira juçara, o fruto possui alto teor nutritivo e serve para produtos variados, como suco, geleia, balas, pães, bolos, bolachas, molhos, sorvetes, óleos, artesanatos, drinks e biocosméticos.

Esses itens são destaque na 7ª Festa da Juçara, que acontece em Matinhos nesta sexta-feira (05/06) e sábado (06/06). Conhecida como o ‘açaí da Mata Atlântica’ pela semelhança com o fruto amazônico, a juçara une comunidades tradicionais e fortalece os Sistemas Agroflorestais (SAFs).

Apesar do nome popular, a juçara tem quatro vezes mais antocianinas que o açaí, sendo rica em potássio, ferro e zinco. Ela ajuda a melhorar a circulação sanguínea e protege contra o acúmulo de placas de gordura, além de retardar sinais de envelhecimento, como a perda de memória, da coordenação motora e da visão.

A cadeia produtiva da juçara é uma alternativa de renda para pequenos produtores que ajudam a manter em pé a espécie Euterpe edulis, ameaçada de extinção após décadas de corte ilegal para extração do palmito.

O trabalho conjunto entre cooperativas, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) une conscientização, preservação ambiental e empreendedorismo. Um quilo de polpa de juçara rende até R$ 40, enquanto o corte ilegal da palmeira rende apenas R$ 10 e exige oito anos de recuperação para planta, fundamental nos SAFs.

“Queremos ser ponte entre empreendedores do Litoral para impulsionar essa cadeia produtiva, que tem superpotencial, não só como fonte de geração de renda que estimula a bioeconomia no território, mas também como alternativa de conservação para essa espécie de palmeira”, diz o engenheiro agroflorestal Rodrigo Condé, da SPVS.

A organização mantém, por meio do Programa Biodiversidade Litoral do Paraná (BLP), uma cozinha comunitária em Antonina, onde empreendedores locais selecionam, higienizam e extraem a polpa da palmeira. O processo também acontece na Cooperativa dos Pequenos Produtores Rurais e Artesanais de Antonina (Cooperaspran), que tem potencial para produzir 10 mil quilos de polpa de juçara em uma única safra – que vai de março a maio.

Tradicional bala de banana do litoral tem sabor juçara

A presidente da Cooperaspran, Luciana Silva, conta que apesar de estarem equipados e legalizados para a produção, é preciso encontrar grandes compradores, já que há dificuldade para estocar o produto congelado.

Neste ano, a cooperativa vendeu 200 quilos de polpa de juçara para a empresa Bananina, de Antonina, que desde abril de 2026 usa o “açaí da Mata Atlântica” como ingrediente especial na tradicional bala de banana. A polpa adquirida será congelada para produzir balas o ano todo.

“Não é apenas uma oportunidade de negócio inovador, mas uma estratégia essencial para promover sustentabilidade ambiental e inclusão social, porque para muitas famílias de agricultores essa cadeia produtiva abre portas para uma renda digna, além do desenvolvimento econômico local”, diz a diretora da Bananina, Maristela Mendes.

Maristela explica que a venda acontece apenas na loja física, já que a produção artesanal dificulta a distribuição em grandes quantidades, porém, é justamente isso que torna a juçara uma iguaria bastante procurada. “É natural, sem corantes, sem essências e sem conservantes.”

Nos Sítios Brigitte, em Morretes, a juçara também passou a integrar, em 2025, a produção de geleias, polpas congeladas e produtos orgânicos que são vendidos para toda região de Curitiba e Litoral.

“Tem um alto valor agregado, é mais cara que as outras, mas quem conhece compra. A venda é fácil. Depois da safra, quem tem é ouro. Nosso gargalo ainda é conseguir o fruto, mas este ano tivemos parceiros da comunidade e produzimos bem”, observa a sócia e engenheira agrônoma Ana Carolina Leitão, lembrando que 100 quilos da fruta rendem 50 quilos de polpa.

‘Bandeira’ da Mata Atlântica

Valdenise Veloso, da Cooperativa dos Produtores Agroecológicos da Região da Serra do Mar e do Litoral do Paraná (Colipa), ressalta o papel das mulheres na produção da juçara. Fora a colheita, que é feita por homens, o restante do processo é realizado por mulheres, incluindo gestão e vendas. “A presença feminina é bem grande nas cooperativas e unidades produtivas daqui. As famílias produtoras e as agroindústrias são regidas basicamente por mulheres.”

“O que se produz, vende. Não fica nada”, afirma Valdenise, apontando o valor agregado da espécie, que é uma das poucas que produz nesta época do ano. “Para nós, a juçara tem importância nutricional, social e ambiental. É uma espécie de ‘bandeira’ da Mata Atlântica.”

Biocosméticos e extrativismo sustentável

Em busca de inovação, a cientista da natureza Hannah Alzamora criou biocosméticos tendo a juçara como matéria-prima. São xampus e condicionadores sólidos, desodorantes, sabonetes, séruns e tônicos faciais que usam a cor e potência da fruta como composição.

“A Jurema Natural é um negócio de impacto da Mata Atlântica. Trabalhamos com biodiversidade e a juçara tem essa nossa identidade. É uma linha de cosméticos naturais, com ingredientes locais, auxiliando no extrativismo sustentável e ajudando a manter a floresta em pé”, diz.

Hannah explica que a juçara tem princípios ativos que ajudam em tratamentos antissinais, antienvelhecimento e antioxidantes. “Estas pesquisas vão validar esses componentes, manipulados e desenvolvidos aqui no Litoral do Paraná, mas já temos estudos sobre a juçara como princípio ativo para os cuidados com a pele”.

Instituto Juçara

Entre os parceiros para o fomento do empreendedorismo local está o Instituto Juçara, que oferece oficinas e capacitações sobre coleta, beneficiamento e aproveitamento culinário da fruta, além da distribuição de mudas, incentivando o plantio em propriedades rurais, sistemas agroflorestais e áreas de restauração da Grande Reserva Mata Atlântica – maior área contínua do bioma no mundo, com quase três milhões de hectares conservados entre Santa Catarina, Paraná e São Paulo.

“A cadeia produtiva da juçara está em fase de estruturação, mas com avanços importantes. Temos matéria-prima, conhecimento, agricultores interessados e demanda crescente. Só precisamos conectar melhor produção, processamento e mercado, para que a juçara alcance a dimensão que merece”, avalia Gustavo Najar, do Instituto Juçara.

Najar reforça que a fruta representa oportunidade de unir conservação ambiental, geração de renda e valorização da cultura local. “É uma alternativa capaz de fortalecer a agricultura familiar e mostrar que a floresta em pé pode ser economicamente viável para quem vive dela.”

Lei Juçara

No Paraná, a lei 22.959/2025 oficializou recentemente o uso da juçara como produto agroecológico capaz de suprir necessidades nutricionais, ecológicas, econômicas, sociais e culturais, contribuindo para a restituição da espécie no bioma. Ela destaca o potencial de consumo regular do fruto e a aplicação em diferentes mercados.

O texto, de autoria dos deputados estaduais Goura (PDT) e Professor Lemos (PT), prevê assistência, capacitação, extensão rural, apoio à industrialização e certificação de origem e qualidade, autorizando compras institucionais, como a inserção da juçara na merenda escolar, e prevendo a implantação de agroindústrias, polos produtores e centros de referência.

Festa da Juçara acontece neste fim de semana no Litoral do Paraná

Organizada pelo Instituto Juçara, com apoio do Núcleo de Estudos em Agroecologia (NEA Juçara) da UFPR Litoral, a 7ª Festa da Juçara acontece em Matinhos nos dias 5 e 6 de junho, para celebrar a safra da fruta no litoral paranaense. O evento prevê feira de produtos, com degustação, oficinas, rodas de conversa e apresentações culturais.

Serviço:
Festa da Juçara
Quando: 5 e 6 de junho
Horário: sexta – das 14h às 16h / sábado – das 9h às 17h
Local: UFPR Litoral – Rua Jaguariaíva, 512, Caiobá/Matinhos (PR)

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