A disputa por vagas em Colégios Cívico-Militares (CCMs) no Paraná se intensificou. Hoje, são 20.402 pedidos de transferência em espera — quase o dobro do registrado em 2025, quando havia cerca de 11 mil.
De acordo com a Secretaria Estadual de Educação (Seed), as instituições que hoje integram o programa CCM são escolas que apresentavam, em sua maioria, avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) igual ou inferior a quatro pontos, em uma escala que varia de zero a 10.
Ainda de acordo com a secretaria, atualmente, essas mesmas instituições possuem índices iguais ou superiores aos da média da rede estadual de educação, que foi de 4,7 pontos no último levantamento divulgado pelo índice, considerando o Ensino Médio. Na grande maioria, essas mesmas instituições possuíam menos da metade do número de estudantes que atendem hoje, utilizando o mesmo espaço físico.
Nos Colégios Cívico Militares, militares estaduais inativos atuam como monitores, prestando apoio à gestão escolar e às ações pedagógicas. Seu papel é contribuir para a organização, a disciplina e o fortalecimento do clima escolar. A direção da escola, bem como as atividades curriculares, são de responsabilidade da Seed.
Dos programas policiais na TV à fila por vagas
Pais com filhos matriculados no Colégio Estadual Cívico Militar Etelvina Cordeiro Ribas, no bairro Pinheirinho, regional Bairro Novo, confirmam a melhora na escola desde sua adesão ao modelo CCM, em 2021 – o que pode ter sido fator para sua fila de espera, de 207 estudantes para o Fundamental e o Médio.
O período de adoção do modelo CCM coincide com a entrada de uma nova diretoria no colégio, com projetos para o envolvimento da comunidade na recuperação da escola. O diretor promoveu campanhas de doação para a escola e ações para a arrecadação de recursos, por meio da Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF), o que rendeu uma melhor estrutura e o engajamento da comunidade.
“Moro no Sítio Cercado há muitos anos, tenho um filho de 20 anos e uma filha de 16 anos. Nunca pensei em matricular um filho meu aqui, porque era uma escola muito violenta e temida na região. Mas quando foi adotado o modelo CCM, eu quis conhecer e, assim que conversei com a direção, quis matricular minha filha mais nova. A escola é muito organizada e limpa. Há outras CCMs próximas, mas que não despertaram tanto interesse. Eu entendo que é uma questão de identificação com o trabalho da direção do colégio, principalmente”, disse Ana Carla Galvão de Lima, mãe de Anna Clara, matriculada no nono ano.
O diretor do CCM, José Carlos Real Koehler lembra que além do desafio educacional, havia um árduo trabalho de reputação a ser desenvolvido. A escola era conhecida na região por ter aparecido em um programa policial da TV que denunciou a presença de traficantes dentro da escola.
Atualmente com 989 alunos registrados por matrículas regulares, o Etelvina Cordeiro Ribas é considerado referência em frequência escolar, segundo Koehler. “É uma combinação de fatores que leva à procura maior por um colégio, mas acredito que a gestão seja um dos mais relevantes”, avalia ao ponderar que embora exista um manual que estabelece um padrão para os colégios estaduais, cada unidade ganha contornos próprios de acordo com a forma como é conduzida e com a comunidade onde está inserida.
Sobre a participação militar para a mudança de perfil da escola, o diretor afirma que foi decisiva para afastar quem não queria compromisso com o aprendizado. “Ao se tornar um Cívico Militar, o Etelvina viu uma debandada de pessoas que não estavam na escola para estudar, mas para vandalizar ou vender drogas. Mais tarde, com o amadurecimento do modelo, conquistamos mais segurança local, acredito que até mesmo com uma possível queda no índice de assaltos na região, beneficiando toda a comunidade. Já perdemos alunos para o tráfico. Hoje ganhamos alunos na faculdade. Isso é motivo de imenso orgulho.”
As Escolas Cívico-Miliares funcionam mesmo?
O psicólogo, professor e mestre em educação, Marcos Meier, acredita que o modelo resolveu rapidamente o problema de algumas escolas públicas, com alunos que prejudicavam o rendimento de turmas inteiras.
“Os pais começaram a pedir que estes estudantes fossem expulsos, o que é algo quase inviável em colégios públicos. Com os CCMs e mais rigor nas regras, a aprendizagem voltou a ter seu espaço. Entendo que é por isso que as famílias têm demonstrado maior interesse neste tipo de escola”, avaliou.
Para o especialista, o avanço na disciplina e no ambiente de aprendizagem não elimina um debate central sobre os efeitos do modelo na formação dos alunos. “Do ponto de vista educacional, a gente precisa ter alunos com maior autonomia e criatividade. À primeira vista, esse modelo parece ir um pouco contra e há uma percepção de possível obediência do aluno, em vez de desenvolvimento de autonomia. Mas precisamos entender se isso é real, porque, na maioria das vezes, é em locais onde há regras respeitadas que a criatividade aparece”, ponderou.
>>> Veja a lista de todos os Colégios Cívico-Militares do Paraná
O pesquisador e professor do Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba, Pedro Jorge Alves, pesquisou Colégios Cívico-Militares em Goiás e chegou a estatísticas que reforçam as percepções de Meier. Co-autor da publicação “Estudo sobre os impactos do modelo Cívico-Militar nas escolas públicas do estado de Goiás”, Alves entende que os CCMs atendem a uma demanda por aprendizado com continuidade e segurança de forma eficiente, mas acredita que ainda existam pontos a serem melhorados.
“Eu vejo esse aumento da procura pelos CCMs como reflexo de uma necessidade das famílias por escolas mais organizadas e seguras. No estudo que realizamos sobre os Colégios Cívico Militares de Goiás, as evidências encontradas indicam uma redução na percepção de violência no ambiente escolar, além de melhora em indicadores de desempenho e de permanência dos alunos. Então, quando as famílias buscam um ambiente mais estruturado, com mais segurança e melhores condições de aprendizagem, é natural que esse modelo desperte interesse.”
Para ele, o desafio do modelo está em criar mecanismos que garantam a saúde emocional dos estudantes como prioridade. “Vejo espaço para aperfeiçoamentos importantes no modelo, como a definição mais clara das regras de seleção dos alunos, a revisão de regras excessivamente rígidas no cotidiano escolar e a criação de mecanismos de monitoramento socioemocional. É importante que o programa seja capaz de acompanhar não só disciplina e desempenho, mas também o bem-estar dos estudantes.”

Filas das Escolas Cívico-Militares são um recorte da realidade, diz representante da APP
Para a presidente da Associação dos Professores do Paraná (APP) Sindicato, Walkiria Mazeto, as filas de espera na rede estadual de ensino não estão vinculadas apenas ao modelo CCM.
“Sempre houve filas de espera em colégios estaduais, mesmo nos regulares, e isso não é uma exclusividade dos Colégios Cívico-Militares. Tomo como exemplo o Colégio Estadual do Paraná (CEP), que ao longo dos anos, para atender à grande demanda por vagas, precisou criar um processo de seleção. A fila de espera no Cívico-Militar não destoa do que é o normal para as escolas em evidência da rede estadual de ensino”, frisou.
Neste ano, 1.041 alunos se inscreveram para o processo seletivo do Colégio Estadual do Paraná, apenas para o Ensino Médio. Somando os candidatos a vagas no Fundamental e no Médio Profissionalizante, foram 1.598 vagas.
A Seed confirmou que há também solicitações de transferência entre colégios estaduais de ensino regular. Atualmente, são cerca de 20 mil pedidos.



