Um grande ponto de interrogação, dor, revolta e o desejo de justiça. Após setenta dias, é isso o que ficou para familiares e amigos das vítimas do acidente com o avião da Gol Linhas Aéreas, que fazia o vôo 1907, e que caiu após uma colisão com o avião Legacy de propriedade da empresa americana Excel-Aire. Os 154 ocupantes do avião da Gol morreram. A falta de informações concretas sobre o que realmente aconteceu na tarde do dia 29 de setembro causa muita angústia. Tudo o que sabem vem por meio de reportagens veiculadas pela imprensa. E diante de revelações feitas nesta semana em uma revista de circulação nacional, uma das famílias vai entrar com um processo contra a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).  

Eliane Fontoura, mãe de André Fontoura, que morreu no acidente – ela mora em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba -, ficou indignada ao ler as declarações do presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, à revista IstoÉ desta semana. Na reportagem, ele fala que a Aeronáutica e a Anac já sabiam que não havia sobreviventes duas horas depois do acidente. No entanto, durante 48 horas o avião da Gol teve o status de desaparecido. A confirmação só veio no dia 1.º de outubro.

Pereira ainda revela que duas horas após a colisão, quando as turbinas ainda estavam aquecidas, cinco homens do esquadrão de elite da Aeronáutica desceram até o local do acidente e ficaram guardando os corpos para que os animais da selva amazônica não os comessem. ?Esconderam das famílias por 48 horas por causa das eleições (realizadas no dia 1.º de outubro)! Esconderam tudo. Nos fizeram de idiotas por 48 horas. E entregaram o meu filho podre, dez dias após o acidente. Isso não dá para aceitar. Eu exijo respeito porque mataram o meu filho dentro do avião da Gol aos 31 anos de idade. O governo brasileiro deve uma satisfação para a gente. Foi uma afronta a todas as famílias. Não desculpo o governo por ter entregado o meu filho podre?, conta Eliana, indignada. Por isso, ela vai entrar com um processo contra a Anac. A família Fontoura foi a primeira a ingressar com uma ação contra a ExcelAire nos Estados Unidos.

Rosane Prates Amorin Gutjahr, viúva de Rolf Ferdinando Gutjahr, uma das vítimas paranaenses do acidente, foi quem entrou com um pedido de liminar na Justiça Federal para que os pilotos americanos do Legacy permanecessem no Brasil até o final das investigações. Anteontem, a Justiça considerou que não havia necessidade para isso e os pilotos foram liberados. ?A decisão foi péssima. Eles mataram 154 pessoas e vão voltar para os Estados Unidos?, afirma.

Para Rosane, era essencial que os pilotos ficassem no Brasil. Ela faz a comparação com um acidente de automóveis. ?Se um carro está na contramão e bate em alguém, de quem é a culpa? Dos buracos, do Detran, da Polícia Rodoviária ou do motorista? É do motorista. No acidente da Gol, o fato de o controlador ter ou não visto não diminui a responsabilidade dos pilotos americanos?, comenta.

Tanto Rosane quanto Eliane não têm dúvidas: os culpados pelo acidente são os pilotos americanos Joseph Lepore e Jan Paladino. ?Após uma semana, um perito dos Estados Unidos, a pedido do nosso advogado, Leonardo Amarente, veio aqui e nos explicou tudo o que havia acontecido. Ele já sabia e tinha certeza que o transponder estava desligado. Se o acidente tivesse acontecido nos Estados Unidos, ocasionado por pilotos brasileiros, eles já estariam presos e talvez no corredor da morte. Eles não seguiram a carta de vôo, então são culpados?, avalia Eliane.

Rosane deixa no ar outras perguntas, que até agora não tiveram respostas. ?Onde estão os exames feitos nos pilotos americanos logo após o pouso na base aérea de Cachimbo? Por que não foi feita uma perícia interna no Legacy quando o mesmo pousou em Cachimbo?  Pelo que dizem alguns técnicos, o tipo de avarias no Legacy indica que ele não deveria estar voando em linha reta. Já foi verificado que o piloto da Gol acionou o trem de pouso e colocou força no manche. Quando isto aconteceu? Pode ter buraco negro na cobertura de radar, mas os aviões não cruzam os oceanos apenas com a carta de vôo e a comunicação por rádio? Existem muitas divergências?, relata.

Desvio de notícias com cunho puramente político

Para Eliane Fontoura e Rosana Gutjahr, o caos que acontece nos aeroportos não tem qualquer tipo de relacionamento com o acidente do vôo 1907. A divulgação de notícias sobre os problemas e atrasos de pousos e decolagens acabou afastando o acidente da mídia. ?A crise na Aeronáutica não tem nada a ver com o acidente. Misturaram tudo. A população está achando que os culpados são os controladores, o que não é verdade?, afirma Eliane.

Rosane acredita que o direcionamento de parte da mídia para a culpa dos controladores e do governo federal tem um cunho político. ?A base do problema é o não-seguimento do plano de vôo. Pronto. O resto foi conseqüência. Mas a origem do problema é esta. A crise aérea desviou totalmente o foco das investigações. A falta de informações traz angústia e nós só estamos pedindo bom senso e justiça?, argumenta.

Gol

O primeiro atendimento da Gol Linhas Aéreas para os familiares e amigos das vítimas foi excepcional, de acordo com Eliane Fontoura. ?A comissão de frente da Gol nos atendeu com muita atenção. Mas nós só conhecemos a Gol do balcão?, afirma Eliane. Ela ainda teve um problema sobre o plano de saúde prometido pela empresa. O benefício foi concedido para ela e para o seu ex-marido, pai de André, mas depois foi retirado sem qualquer aviso.

Rosana conta que a Gol ligou para ela apenas cinco vezes desde o dia do acidente. ?A primeira foi para ver o cemitério onde queria enterrar o meu marido; depois foi sobre o plano de saúde com duração de um ano; em terceiro, era para tratar sobre o seguro obrigatório, de R$ 14 mil, que ainda não depositaram; na quarta ligação, a Gol queria uma reunião para tratar de indenização, o que eu não quis fazer agora; e a última vez para informar sobre a devolução dos pertences. Qualquer outro tipo de informação eu tive que correr muito atrás?, declara.

No entanto, Rosana ressalta que isso não é o relevante e que não vai mudar nada sobre o que já aconteceu. Para ela, o foco das famílias agora é o de lutar para que os responsáveis pelo acidente sejam punidos.

A assessoria de imprensa da Gol Linhas Aéreas informou que a companhia permanece com o compromisso de assistência total e comunicação direta com todas as famílias. Sobre o plano de saúde de Eliane Fontoura, a empresa diz que assuntos desse tipo (benefícios e indenizações) são tratados diretamente com a família, sendo um tema reservado e que não será divulgado para a imprensa.

Espera sem definição e poucas informações

Lígia Martoni e Joyce Carvalho

O presidente da Associação dos Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907, Jorge André Cavalcante, que perdeu um sobrinho no acidente, conta que a maior preocupação das famílias é com relação à falta de clareza das informações que recebem. Passados dois meses da tragédia, ainda não é possível apontar responsabilidades ou participar diretamente das apurações. Tamanha falta de respostas aumenta ainda mais a insegurança das famílias. ?E nos consta que as investigações vão demorar ainda mais oito meses?, lamenta.

Além do tempo de espera, as famílias se preocupam também com o rumo a ser tomado no que concerne à punição dos responsáveis. ?Sabemos que os controladores têm culpa, mas o foco está sendo colocado somente sobre eles. E quanto aos pilotos do Legacy? Eles também são responsáveis, pois não seguiram as orientações e procedimentos que deveriam?, afirma o familiar, temendo que os americanos não sejam penalizados.

De acordo com Jorge, que contratou um experiente advogado na área de Direito Aeronáutico, diversos erros são apontados aos pilotos da aeronave que saiu praticamente ilesa à tragédia. ?O piloto tem um mapa que mostra a rota e quais freqüências deve usar. Se recebeu o número errado, por que não usou o mapa para verificar a freqüência correta do lugar que sobrevoava? Sabemos que o transponder tinha um defeito de fabricação, mas por que ele não verificou o funcionamento??, indaga. Jorge André também não se conforma com o fato de os pilotos não terem questionado o plano de vôo recebido se o mesmo não estava de acordo com as instruções vindas da torre de controle. Para o presidente da associação, a falta de comentários sobre a responsabilidade dos americanos faz parte de um jogo de interesses financeiros articulado pelas seguradoras. Estão querendo jogar a responsabilidade para o governo brasileiro porque, assim, o caso termina com indenizações pagas em forma de precatórios e a perder de vista. ?Vai sobrar para o lado mais fraco, o lado dos controladores?, acredita.

De acordo com Jorge André, a associação ainda tenta colocar um perito de confiança dos familiares para acompanhar as investigações sobre o acidente. Nos Estados Unidos, a primeira audiência sobre a ação impetrada em Nova York acontece no próximo dia 18. ?Não podemos ficar esperando mais oito meses. As famílias continuam sofrendo. As pessoas continuam sendo enganadas por advogados, por falsas promessas.?