Tribuna Entrevista

Deputado mais votado no Paraná, Paulo Melo fala sobre renovação política e prioridades do mandato

Fotografia em plano médio de um homem sorridente caminhando em um evento político ao ar livre em dia ensolarado. Em primeiro plano, ligeiramente deslocado para a esquerda, um homem de pele clara e cabelos castanhos curtos sorri enquanto caminha, enquadrado do peito para cima. Ele veste uma camisa polo preta onde estão afixados dois adesivos de campanha eleitoral circulares de tom verde no peito, além de um adesivo retangular na altura do abdômen com o nome "PAULO MELO". No plano intermediário e ao fundo, observam-se outras pessoas circulando no evento, além de bandeiras de propaganda eleitoral à esquerda. Ao fundo, destaca-se a arquitetura moderna de um edifício com fachada de vidro revestida por uma estrutura metálica de vigas entrecruzadas em tom claro sob luz natural intensa.
Paulo Melo é de Curitiba. Foto: Reprodução/Redes sociais.

Eleito com 192.409 votos, Paulo Melo (PL), de 34 anos, foi o deputado estadual mais votado do Paraná. Com forte presença nas redes sociais e ao lado de nomes conhecidos da direita, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Ana Campagnolo (PL-SC), ele estreia na Assembleia Legislativa do Estado (Alep) em janeiro de 2027.

Defensor de pautas conservadoras, Melo promete focar sua atuação em áreas como segurança pública e infraestrutura. Fora da política, ele é empresário e fundador do Instituto Luzeiro, organização voltada à formação política e cultural em Curitiba.

Confira, a seguir, a entrevista do novo deputado concedida à Tribuna do Paraná:

Tribuna do Paraná: O senhor recebeu 192.409 votos para deputado estadual. Esperava ser o deputado eleito com mais votos no Paraná?

Paulo Melo: “Não, calculávamos uma média de 40 a 50 mil votos. Eu estava orando no domingo cedo com a minha família e rezávamos por esse número para conseguir entrar. Foi uma surpresa muito positiva. A gente via que a rede social engajava bem e que o pessoal gostava do que a gente defendia, mas não esperávamos uma votação dessa dimensão.”

Tribuna do Paraná: O senhor já foi candidato a vereador de Curitiba em 2024 e a deputado estadual em 2022. O que o senhor acredita que foi o diferencial nesta campanha para alcançar uma vitória tão expressiva?

Paulo Melo: “Primeiro, atribuo a Deus, que faz infinitamente mais do que pedimos ou imaginamos. Em segundo lugar, ao trabalho de base. Muitos enxergam apenas o resultado da eleição, mas a trajetória de formação nos conectou às pessoas, ao Nikolas Ferreira, à Ana Campagnolo e a diversas lideranças de direita que identificaram propósito no nosso trabalho.

Levamos para o ambiente digital o diálogo que já fazíamos em palestras presenciais, garantindo a visibilidade necessária para que o público compreendesse quem é o Paulo Melo e quais pautas eu defendo.

Ter sido o candidato mais votado sinaliza que o paranaense rejeita a velha política. O eleitor do estado é conservador e busca representantes alinhados aos seus valores. Esse resultado é um recado para a política tradicional, demonstrando que é possível fazer uma campanha limpa e com escasso uso de recursos públicos. Fenômenos como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Guilherme Kilter mostram que a população busca autenticidade nessa nova representação.

Teremos uma batalha enorme, porque ainda ficou um quadro grande desses políticos antigos, que teremos que dialogar e construir juntos, mas o recado da população é bem claro. Não só pela minha eleição, mas por toda a eleição da bancada do PL e do Novo. A maioria é uma renovação. A população não quer mais esse Paraná de acordos, com troca de cargos e que trava o nosso Estado.”

Tribuna do Paraná: Com base na prestação de contas do senhor no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a maior despesa da campanha, de R$ 43 mil, foi com impulsionamento de conteúdo. As redes sociais foram a principal estratégia?

Paulo Melo: “Sim, cerca de 80% da nossa estratégia esteve focada no ambiente digital para expandir nosso alcance. Não contamos com estrutura de lideranças contratadas, foi um movimento orgânico. Na reta final, voluntários se mobilizaram para distribuir nosso material de forma espontânea. Alcançamos os municípios dessa maneira: com pessoas que se identificaram com a proposta pela internet e se tornaram apoiadoras.

Eu falo sempre assim, tenho um projeto de grupo, não é um projeto pessoal, então quero atingir as pessoas pensando no longo prazo. Acho que a esquerda pensou o Brasil para 30 anos e fizeram esse estrago. A direita também tem que pensar o Brasil para 30 anos, levantar novos jovens para ocupar o cargo de vereadores, prefeitos e atender todos os municípios.

Acredito que o deputado realmente deve ser municipalista, visitando todos e não uma região só, até porque a nossa votação mostrou que eu não sou um deputado de uma cidade só, sou um deputado que vai atender o Paraná inteiro.”

Tribuna do Paraná: Agora falando um pouco sobre a sua entrada na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Quais serão os seus projetos de lei prioritários no mandato e como pretende transformar as bandeiras da sua campanha em ações concretas para o estado?

Paulo Melo: “A principal pauta é a defesa da família e das crianças, temos alguns projetos para apresentar nesse sentido. Queremos proteger a família também da interferência estatal, porque, para mim, quando o governo concentra poder excessivo, ele se torna tirano para as famílias. Defendo que a autoridade principal sobre os filhos cabe aos pais, e acredito que, nos últimos anos, o governo tem invadido essa competência.

Queremos atuar contra a ideologia nas escolas. Acredito que o Paraná precisa de um guardião da família. O Paraná é um estado bom, e às vezes as pessoas perguntam: ‘mas por que defender isso no Paraná, que já é bom?’ Se não tivermos alguém que proteja esses valores intencionalmente e saiba desarmar projetos disfarçados, a situação pode piorar em um futuro próximo.

Vemos o exemplo de Nova York, que era um bom estado e piorou, ou da Europa, que começou com princípios cristãos e hoje enfrenta uma piora. Então, tem que haver essa proteção. Nesse sentido, me inspiro muito no trabalho da Ana Campagnolo em Santa Catarina.

Além de apresentar projetos para defender essa pauta, quero desarmar projetos ruins que venham disfarçados como uma modernidade ou algo que parece legal e descolado, mas que vai atingir diretamente as nossas crianças. A esquerda não apresenta o monstro com cara de monstro, ela dá um ar de sustentabilidade, de inovação e aí inserido no projeto vem um monte de coisa que ataca os principais valores que eu acredito serem fundamentais para a nossa sociedade. Acho que o nosso estado só é forte porque tem esses princípios e valores.”

Tribuna do Paraná: O senhor pode dar um exemplo de projeto que teria atacado os valores que o senhor acredita?

Paulo Melo: “Um exemplo é o PL 6194/2025. Ele se apresenta como um projeto contra a misoginia na internet, e ninguém é a favor de ataques a mulheres. Mas o texto original definia como mulher toda pessoa que se identifica com o gênero feminino e criava uma política nacional de educação para a igualdade de gênero, com formação de professores e materiais didáticos. Esse trecho só saiu quando o projeto passou pela Comissão de Educação, em julho deste ano.”

Tribuna do Paraná: Olhando hoje para o Paraná, quais são os principais desafios que o senhor enxerga no Estado?

Paulo Melo: “A segurança pública. Hoje, entre os três estados do Sul, o nosso registra os índices mais altos de violência. Acredito que, até pelo fato de o Sergio Moro já ter enfrentado o crime organizado, temos o desafio conjunto de colocar o Paraná no topo da segurança pública do país. O paranaense arrecada o suficiente para isso e não deve se contentar com a terceira posição na região Sul.

Outra parte que eu vejo é infraestrutura, o Estado avançou muito nos últimos 8 anos, todo paranaense reconhece isso, tanto que o governador [Ratinho Junior] tem uma aceitação enorme. Mas temos que olhar os contratos de duplicações do nosso Estado.

É inadmissível a gente ter o triângulo logístico do Paraná quase todo simplificado ainda. Precisamos brigar por isso. Não adianta aparecer o deputado depois de 30 anos, depois que já levaram todo o nosso dinheiro e não duplicaram, para brigar por essa pauta. Então eu acho que temos que ser o fiscal do povo todos os anos para sair essas estradas.

A falta de duplicação custa vidas paranaenses nas estradas e encarece o transporte da nossa safra e da nossa indústria. É um absurdo o frete do interior até o Porto de Paranaguá ser mais caro do que o trecho marítimo do porto até a China. Isso é sinal que a nossa infraestrutura é ruim. Temos que pensar em rodovia e ferrovia. Ferrovia não é algo simples que sai rápido do papel. Os políticos tradicionais não gostam de pensar nisso porque não dá para tirar foto para a próxima campanha.

Temos desafios estruturais no Paraná. Além da minha pauta moral e ideológica que defendo, quero destravar o Estado, já que muitas vezes a política tradicional não quer que destrave. Porque quando não destrava, fica dependente só de emenda e de políticos tradicionais, eles conseguem manter o coronelismo nas suas regiões. Agora, se a gente consegue trazer desenvolvimento, o povo tem mais liberdade.

É preciso encerrar a prática de governar coagindo prefeitos e vereadores em troca de apoio. A gestão deve ser voltada ao povo, atendendo a todos os municípios para construir um Paraná diferente.”

Tribuna do Paraná: Como o senhor acredita que será o diálogo com a oposição?

Paulo Melo: “Teremos um diálogo, porque acredito que todo mundo está governando para o paranaense. Mas é difícil ver alguma composição no sentido de ideias, porque as ideias que eles têm destruíram o país e é um modelo totalmente contrário de mundo do que eu acredito, mas sempre vai ter respeito. Só é difícil acreditar que tem algo bom para construir junto, porque tudo o que eles constroem, destrói o nosso país. São 30 anos governando e acredito que não tem um saldo positivo.

Até a pauta social que eles juram defender é construída de uma maneira totalmente equivocada, criaram o Brasil do assistencialismo. Isso não traz dignidade para as pessoas. Então vamos conversar com todos para construir um Paraná forte, mas eu vejo que há dificuldade de construir alguma ponte com quem destruiu o nosso país.”

Tribuna do Paraná: De que forma a sua fé e os seus valores morais orientam suas decisões públicas? Como o senhor enxerga a relação entre convicções pessoais e os projetos de Estado?

Paulo Melo: “Todo o meu mandato vai se basear nos meus princípios e valores da minha convicção moral, porque antes de eu ser político, eu sou cristão. As pessoas às vezes fazem uma confusão muito grande com o Estado ser laico. O Estado é laico, não é laicista, então se 192 mil pessoas confiaram em mim, é porque elas acreditam nos princípios e valores e eu não vou abrir mão deles. Não vou me curvar por conveniência e isso é um ponto fundamental. Tudo o que eu for votar na Assembleia Legislativa será com essa convicção, independente se algum lado gosta ou não.”

Tribuna do Paraná: De que forma a paternidade e a sua família influenciam a sua trajetória política?

Paulo Melo: “Sou casado há dez anos e pai de dois filhos, de dois e seis anos. O compromisso assumido no início da trajetória torna-se ainda mais pessoal por causa deles. É lamentável constatar que muitas famílias alimentam o desejo de enviar seus filhos para fora do país por descrença no futuro do Brasil. Não quero aceitar a perspectiva de transferir meus filhos para o exterior por falha do nosso país.

O Brasil e o Paraná dispõem de amplas riquezas e recursos. Não podemos nos resignar com a promessa perpétua de um “país do futuro” que nunca se concretiza. Meus pais ouviram essa premissa, eu a ouvi na minha juventude, e nosso objetivo é construir esse resultado no presente. Como pai, a responsabilidade se amplia ao reconhecer que esse trabalho beneficia não apenas meus filhos, mas toda a sociedade que conviverá com eles.”

Tribuna do Paraná: Eleito deputado estadual agora iniciará uma vida pública. Mas antes disso, quem é o Paulo Melo?

Paulo Melo: “Sou uma pessoa trabalhadora que se indignou com a maneira como o Brasil estava sendo conduzido. Comecei a me envolver com política em 2014, quando a Dilma era presidente. Na época, pensei que pessoas de bem tinham que entrar na política, porque o rumo que o país estava tomando não era legal. Ocorriam ataques a valores e princípios que para mim eram caros, então comecei a me envolver e construí uma trajetória.

Mas eu entrei na política e também me decepcionei. Vi que usavam os jovens que chegavam ali apenas para projetos pessoais. Então, há cerca de 12 anos, fundei um instituto de formação política [Instituto Luzeiro]. No começo não tínhamos nem CNPJ, começamos a organizar palestras, clube de leitura e eventos para formar as pessoas, porque eu via que os jovens chegavam aos partidos, eram usados, se decepcionavam e iam embora. Criei esse instituto como uma plataforma para organizarmos uma juventude consciente.

Com o instituto, conheci o Nikolas Ferreira e o trouxemos para Curitiba quando ele ainda era vereador. Me aproximei e virei amigo do pessoal da Ana Campagnolo, que faz um trabalho de base muito legal em Santa Catarina e que a gente tinha o sonho de replicar aqui no Paraná. Então começamos a construir essa base dando palestras em igrejas e escolas, além de organizar eventos maiores com essas lideranças nacionais.”

Tribuna do Paraná: O Instituto Luzeiro continua ativo?

Paulo Melo: “Sim. Temos o clube de leitura, que conta com a participação mensal de um professor que foi aluno do Olavo de Carvalho. Acredito muito na formação das pessoas para que tenham senso crítico para mudar o nosso país. Também continuamos organizando de um a dois eventos grandes por ano. Em julho mesmo, estavam presentes o Nikolas Ferreira e a Ana Campagnolo. Já lançamos o livro do Marcel Van Hattem e fizemos o primeiro Congresso Conservador de Curitiba.”

Tribuna do Paraná: O foco do Luzeiro são os jovens?

Paulo Melo: “Deus tem enviado, em sua maioria, jovens, mas não é um instituto voltado exclusivamente para eles. Creio que, como tem surgido uma nova geração na política, muito por conta do trabalho que o Nikolas tem feito, acabam chegando mais jovens. Mas é um instituto de formação política: há pessoas que vêm apenas para os eventos grandes e há quem participe mensalmente do Clube de Leitura.

O Instituto não tem fins lucrativos. O que é arrecadado serve para trazer um professor ou para pagar um lanche para todo mundo junto. É algo simples, mas acreditamos muito na política de base, em transformar o indivíduo para que ele influencie em sua microrregião, seja na panificadora, na escola do filho, no trabalho ou nas atitudes do dia a dia.”

Tribuna do Paraná: Como o senhor pretende atuar além do eixo Curitiba e Região Metropolitana?

Paulo Melo: “A ideia é rodar o Paraná. Tenho a obrigação de ficar alguns dias na Alep, mas nos outros dias quero ser um gabinete que roda constantemente atendendo os municípios. Até porque volta naquele trabalho que eu comecei, trabalho de base. Aquilo que a gente já fez aqui em Curitiba sem estrutura, a gente quer fazer por todo Paraná: levar cultura e formação. Tem gente muito talentosa que quer entrar na política, mas quando chega lá se frustra com as pessoas que tem lá.

O Nikolas tem um coração muito discipulador, eu sempre falo, e da mesma maneira que ele fez comigo, de ser uma plataforma para eu chegar forte na campanha, eu quero ser para outras pessoas, para movimentar o Paraná e ter um quadro novo daqui a 2 anos até 12 anos. Na campanha a gente tinha um lema junto com o Guilherme Kilter que era ‘somos um time só’. Estamos fazendo um time só aqui para o Paraná, um time forte e conservador dessa nova geração.”

Tribuna do Paraná: Embora seja recente para uma análise definitiva, como o senhor projeta o cenário político para os próximos anos a partir deste pleito?

Paulo Melo: “Pretendemos crescer ainda mais, honrar todos esses votos e fazer um grupo enorme. Dá para entrar em todos os municípios e encontrar pessoas boas em todos eles. O Paraná está carente de novas lideranças, então, a ideia é crescer. Não esperava um número tão grande de votos, mas se o povo deu esse desafio, mais pessoas podem conhecer. Tem muita gente que ainda não me conhece, quero que essas pessoas conheçam o nosso trabalho.

O desafio é não ser só o cara combativo da rede social, é ser o cara que entrega nos municípios para que as pessoas tenham confiança nos políticos que estão surgindo agora. Tem muitas pessoas que ficam amarradas à velha política, achando que só eles vão entregar recurso e melhoria nas cidades. Temos que mostrar que é possível com uma nova política também trazer melhoria real no dia a dia das pessoas.”

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