Uma denúncia apresentada às autoridades colocou sob questionamento procedimentos relacionados a três leilões do Porto de Paranaguá, que preveem R$ 2,2 bilhões em investimentos, e ao projeto de um novo terminal privado na região. Segundo os documentos, teria havido uma articulação para questionar ou retardar medidas relacionadas à expansão do porto público, em uma disputa que envolve a concorrência por cargas, investimentos e espaço no setor portuário de Paranaguá.

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De um lado estão os novos arrendamentos do porto público, destinados à movimentação e armazenagem de granéis sólidos vegetais, como soja, milho e farelo de soja. De outro, está o Porto Guará, projeto de terminal privado que também pretende atuar no mercado portuário da região. É nesse contexto de expansão e concorrência que aparecem os questionamentos descritos na denúncia.

O caso envolve as áreas PAR14, PAR15 e PAR25, leiloadas em abril de 2025. As três foram arrematadas, respectivamente, pelo BTG Pactual Commodities, pela Cargill e pelo Consórcio ALDC, formado por Louis Dreyfus e Amaggi. Juntos, os arrendamentos geraram R$ 855 milhões em outorgas e preveem cerca de R$ 2,2 bilhões em investimentos.

A denúncia foi apresentada por Matheus Ferri, que trabalhava como advogado do Porto Guará. Documentos aos quais a Folha de S.Paulo teve acesso relatam a existência de um chamado “Plano de Defesa do Porto Guará”, que teria como objetivo dificultar os leilões ou, ao menos, reduzir sua atratividade.

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Entre as medidas mencionadas estão questionamentos de editais, pedidos de esclarecimentos, recursos, ações judiciais e iniciativas relacionadas ao licenciamento ambiental dos novos terminais. A documentação também cita Luiz Henrique Tessutti Dividino, que presidiu a então Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA) entre 2012 e 2018 e, posteriormente, passou a prestar consultoria ao Porto Guará.

A Portos do Paraná recebeu a documentação em abril de 2026. Depois de analisar o material, encaminhou os elementos ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) como prova superveniente em um processo judicial que já estava em andamento.

Dividino contesta interpretação e explica atuação

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Em entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, Dividino contesta a interpretação dada à sua participação nos processos e afirma que sua atuação ocorreu dentro dos procedimentos previstos para os arrendamentos de áreas públicas.

Segundo ele, as manifestações relacionadas aos projetos PAR14, PAR15 e PAR25 foram contribuições técnicas apresentadas durante consultas públicas e protocoladas pelos canais oficiais. Dividino afirma que cabe à autoridade responsável pelos processos analisar as sugestões e decidir pela aceitação, parcial ou integral, ou pela rejeição das propostas.

A revisão da poligonal do Porto Organizado de Paranaguá, realizada durante sua gestão, também aparece entre os pontos questionados.

Dividino afirma que a alteração não foi feita para beneficiar o Porto Guará. Segundo ele, a revisão era necessária para adequar a poligonal estabelecida em 2002 à Lei 12.815/2013. O procedimento, afirma, foi conduzido dentro do prazo previsto na legislação e encaminhado à Secretaria Nacional de Portos, que posteriormente regularizou o perímetro por decreto presidencial.

Na avaliação dele, a mudança não favoreceu especificamente nenhum dos projetos privados previstos para o Paraná. Dividino afirma que os empreendimentos foram tratados de forma isonômica.

Outro ponto relacionado à atuação de Dividino é sua passagem da administração pública para a iniciativa privada. Ele afirma que deixou a APPA em março de 2018 e começou a prestar consultoria de mercado ao Porto Guará em maio de 2019. Segundo Dividino, o trabalho acabou interrompido posteriormente em razão da pandemia de Covid-19.

Ao ser questionado sobre uma eventual quarentena para ex-dirigentes públicos, Dividino afirma que não existe atualmente uma regra específica no setor portuário que o impedisse de atuar como consultor depois de deixar a APPA.

Ele também coloca a discussão em um contexto mais amplo de concorrência no setor portuário. Segundo os números apresentados por ele, 58% das operações portuárias brasileiras estão em terminais privados e 42% em terminais públicos. No Paraná, afirma, a proporção seria de 8% privados e 92% públicos.

Porto Guará nega ter sido notificado

Procurado pela Tribuna, o Porto Guará afirmou que não foi oficialmente notificado sobre a denúncia, nem sobre eventual procedimento administrativo ou ação judicial relacionados ao caso.

A empresa informou que, caso seja formalmente comunicada, apresentará sua manifestação às instâncias competentes, nos termos e prazos legais. O Porto Guará também reafirmou que atua de acordo com a legislação e os parâmetros éticos aplicáveis e negou qualquer conduta irregular.

A Porto Guará reitera que sua atuação é pautada pela estrita observância da legislação aplicável e dos parâmetros éticos correspondentes, não havendo qualquer conduta irregular a ele atribuível.”

Escritório afirma que caso é apurado internamente

O escritório Xavier Viana Bockmann Moreira (XVBM), onde Matheus Ferri trabalhava e que atuava para o Porto Guará, também foi procurado pela Tribuna.

Em nota, o escritório afirmou que não pode comentar ou confirmar informações, documentos ou comunicações relacionados à representação de seus clientes em razão do sigilo profissional.

O escritório disse ainda que, caso seja confirmada a origem dos documentos mencionados nas reportagens, o material teria sido divulgado unilateralmente por um ex-colaborador, sem autorização do escritório e em desacordo com os deveres de confidencialidade da advocacia.

Segundo a nota, o caso está sendo apurado internamente. Se forem identificadas irregularidades, o escritório afirma que adotará as medidas cabíveis, inclusive nas esferas criminal e disciplinar junto à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Portos do Paraná

Em nota, a Portos do Paraná afirmou que recebeu a denúncia em abril de 2026 e que encaminhou os elementos ao TRF-4 depois de análise institucional.

Leia a íntegra do posicionamento:

“A Portos do Paraná – Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina (APPA) -recebeu, em abril de 2026, denúncia relacionada a procedimentos administrativos, licitações e medidas envolvendo os arrendamentos PAR14, PAR15 e PAR25 e a expansão da infraestrutura do Porto Organizado de Paranaguá.

A documentação apresentada relata a possível existência de uma estratégia coordenada para questionar, retardar ou impedir esses procedimentos e relaciona as iniciativas à defesa de interesses econômicos privados.

Após análise institucional, a APPA encaminhou os elementos ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região, como prova superveniente em processo judicial em andamento.

A APPA ressalta que respeita o direito de petição, o acesso à Justiça e o controle judicial dos atos administrativos. Ao mesmo tempo, continuará adotando as medidas necessárias para proteger a regularidade dos arrendamentos, a segurança jurídica dos contratos, os investimentos previstos e o interesse público.”

Até o momento da publicação desta matéria, a Tribuna do Paraná não conseguiu contato com Matheus Ferri, autor da denúncia, para comentar os documentos apresentados às autoridades e responder aos posicionamentos dos envolvidos.

O caso segue no âmbito das autoridades competentes, após o encaminhamento dos documentos ao TRF-4. As informações apresentadas na denúncia ainda são objeto de apuração.