A cultura movimenta empregos, turismo e negócios no Paraná. Dados da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC) mostram que o setor gerou 55.591 postos de trabalho em 2025, ante 46.477 em 2018. Em Curitiba, R$ 51,5 milhões destinados a projetos culturais entre 2025 e 2026 são estimados em R$ 390,9 milhões de movimentação na economia.
O impacto vai além de artistas e produtores. Restaurantes, hotéis, comércio, transporte e profissionais técnicos também fazem parte da cadeia movimentada pelo setor, que tem nos grandes eventos um dos principais exemplos desse efeito.
Um levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) em parceria com o Ministério da Cultura mostra que cada R$ 1 investido via fomento cultural movimenta cerca de R$ 7,59 na economia.
No Paraná, os maiores números de postos de trabalho se concentram em Curitiba, com 18.898 vagas, e Londrina, com 3.668 postos. Na divisão por segmentos, a cultura puxa vagas principalmente para serviços de arquitetura e engenharia (20.361), comércio varejista de artigos culturais, recreativos e esportivos (13.605) e atividades de impressão (6.747).
Em Curitiba, a movimentação também se reflete no turismo, com um gasto médio diário geral do visitante estimado em R$ 409,30. A edição de 2025 do Natal de Curitiba, por exemplo, bateu recorde histórico ao atrair 3,09 milhões de espectadores — uma alta de 35% em relação ao ano anterior. Desses, 469,8 mil eram turistas, que injetaram R$ 722 milhões na economia da cidade em hospedagem, alimentação, compras e passeios, representando um crescimento de 60% em relação aos R$ 399 milhões de 2024, conforme dados da Secretaria Municipal da Cultura.
Para Jhe Moraes, representante do Hub Curitiba Mais Criativa, a cultura sempre deve ser trabalhada para além do entretenimento, levando em consideração que ela é parte da Economia Criativa e é capaz de movimentar diversos setores.
“A economia criativa também está no carrinho de pipoca na frente do evento, na rede hoteleira, nas lojas e no mercadinho de bairro. É todo mundo que faz a engrenagem rodar e que, em algum momento, faz a criatividade crescer na cidade. Não é só sobre o artista, é sobre toda a cadeia que é ativada”, pontua Jhe.
Ela acrescenta que um dos principais desafios ainda é desconstruir a visão limitada sobre quem se beneficia do fomento à cultura. Como exemplo prático, ela cita as atrações do Natal. “O Natal trouxe um olhar para Curitiba como referência que a gente nunca teve. A cultura gera uma identidade para a cidade, atrai negócios e cria renda para quem muitas vezes não tem um trabalho fixo durante o ano todo”, destaca.
Cultura no Paraná: 60% dos recursos estaduais vão para o interior
No âmbito estadual, a SEEC destinou R$ 117,2 milhões em 2025 e já soma R$ 71,2 milhões investidos até setembro de 2026 por meio de programas de fomento, recursos próprios e leis federais, como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Para garantir que o impacto econômico não se limite à Região Metropolitana de Curitiba (RMC), a política cultural do Estado aprovou critérios de territorialização. No Ciclo II da PNAB, 60% da totalidade dos recursos são destinados obrigatoriamente a projetos do interior do Paraná, ficando 40% com a capital.
A pasta cita como exemplo o Edital Multiartes, que previu 140 das 163 vagas exclusivamente para agentes culturais fora de Curitiba. Nos primeiros editais publicados do ciclo, dezenas de municípios já foram contemplados — desde grandes polos regionais como Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Foz do Iguaçu e Londrina, até cidades menores como Pinhão, Clevelândia, Ortigueira, Matinhos e Jacarezinho. A previsão é contemplar no mínimo 494 projetos em todo o Estado na fase atual.
A força de Londrina: tradição de festivais e meta de 8% do PIB
No Norte do Estado, Londrina traçou uma meta para ampliar a participação do turismo e dos eventos no PIB local: saltar dos atuais 2% para 8% até o final de 2028. A cidade é responsável por grandes eventos anuais — como o Festival Internacional de Londrina (FILO), o Festival Internacional de Música de Londrina (FIML), o Tropicadelia e o Festival do Rock —, que chegam a lotar entre 85% e 100% dos cerca de 8 mil leitos hoteleiros do município.
Com 46 anos de história ininterrupta, o FIML é o festival de música mais antigo do Paraná e exemplifica o conceito de “máquina multiplataforma”, atuando sobre um tripé artístico, pedagógico e social. Em suas edições, o evento realiza mais de 50 apresentações e oferta cerca de 47 cursos com professores do Brasil e do exterior para mais de 1.100 alunos.
O diretor artístico do FIML, Eduardo Assad Sahão, acrescenta que o evento também promove o Encontro Nacional de Orquestras Sociais, trazendo jovens da rede pública e de áreas de vulnerabilidade social de diversos estados brasileiros.
“Nós trazemos mais de 100 jovens de projetos sociais e áreas vulneráveis do Brasil inteiro — da Bahia ao Amapá —, arcando com hospedagem e alimentação. É uma relação econômica, mas que, acima de tudo, oportuniza que essas crianças tenham aulas com professores do exterior e enxerguem novas perspectivas de vida”, explica Sahão.
O diretor rebate a narrativa de que o fomento público a eventos no interior seria um gasto a fundo perdido. “Dizer que verba para cultura é ‘gasto’ é uma fala sem embasamento algum. A cultura é uma forma de educação social e um motor financeiro. A gente lota a rede hoteleira, os empresários de hotéis e restaurantes ficam satisfeitos quando há festival. Além da movimentação econômica de milhões de reais, há a transformação social: poucas coisas desmarginalizam um jovem em situação de vulnerabilidade como a cultura e o esporte”, afirma.
Para Sahão, além do impacto local, o FIML consolida a imagem do Estado no cenário nacional. “Manter um festival internacional desse porte no Norte do Paraná é fundamental para colocar o Estado na rota da vanguarda cultural do país, dividindo espaço com grandes polos como São Paulo. Isso mostra que o Paraná é um polo de gente que pensa, que investe em educação e que entende a arte como base para uma sociedade melhor.”
O olhar clínico para as periferias e bairros
Apesar do avanço nos números e da consolidação de grandes festivais, Jhe Moraes aponta que um importante passo do desenvolvimento cultural é olhar para além dos centros urbanos tradicionais. Para ela, o grande desafio atual não é apenas a disponibilidade de verba em si, mas a falta de diagnóstico sobre as necessidades específicas de cada território.
“Todos os bairros têm pessoas criativas e potencial. Às vezes o problema no Sítio Cercado é a falta de mão de obra para a produção; em outro bairro, pode ser a falta de orçamento. Falta um olhar clínico para entender o déficit de cada comunidade. Quando entendermos o que falta em cada região e ajudarmos a resolver aquele ponto específico, a economia criativa vai se espalhar com ainda mais força pelo Estado”, conclui.
