Quando se fala em doação de órgãos, os primeiros a serem lembrados são o coração, o fígado e os rins. Mas há também outra frente importante e pouco conhecida: a doação de tecidos. Por esta razão, a campanha Setembro Verde visa conscientizar sobre a doação de órgãos, córneas, pele, ossos, tendões, cartilagens e tecidos cardiovasculares.
Os tecidos são processados, armazenados e posteriormente utilizados em diferentes tratamentos. A doação pode até mesmo contribuir para recuperar a visão, tratar grandes queimaduras, realizar enxertos, auxiliar em procedimentos ortopédicos e odontológicos ou reparar estruturas do coração.
No Paraná, esse processo é regulado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), por meio da Central Estadual de Transplantes (CET). A estrutura reúne hospitais, equipes especializadas e bancos de tecidos públicos e privados espalhados por todo o Estado.
Para que o tecido doado possa chegar ao paciente em condições adequadas, é necessária uma estrutura de alta complexidade. O processo exige profissionais especializados, logística, controle sanitário e equipamentos específicos.
Córneas são os tecidos mais transplantados
Entre janeiro e agosto de 2026, foram transplantadas 788 córneas, conforme dados da CET. Isso significa que centenas de pessoas voltaram a enxergar ou melhoraram a visão. Atualmente, 2,8 mil pessoas aguardam por um transplante.
O Banco de Olhos Regional de Londrina (BOL), do Hospital Universitário de Londrina (HU), tem 15 anos de atuação e é o único banco público de olhos do Paraná. O instituto recebe, trata e armazena as doações e depois as encaminha, conforme a demanda e a lista de espera organizada pela CET. Seu atendimento inclui mais de 90 municípios da região norte do Paraná, com 23 hospitais notificadores.
Para que o banco receba as doações, o trabalho começa com as equipes de Organização de Procura de Órgãos (OPO), da CET. Elas estão espalhadas por todo o Estado em busca de doadores, fazendo o contato com a família e organizando a captação do material. A ação da OPO nos hospitais é o primeiro passo para que um transplante seja realizado.
Grande parte das doações ocorre a partir de pessoas com diagnóstico de morte encefálica. A autorização da família é parte fundamental para o processo, que segue os critérios estabelecidos pelo Sistema Nacional de Transplantes.
Doação de tecidos pode ter diferentes aplicações
A pele humana pode funcionar como um curativo biológico para pacientes com grandes queimaduras. Ela protege a área lesionada, ajuda a evitar infecções e mantém a hidratação enquanto o organismo se recupera.
Já os ossos podem ser utilizados em enxertos nas áreas de Odontologia e Ortopedia. A aplicação pode ser feita com eles inteiros, em fragmentos ou processados, sendo empregados até mesmo em grandes cirurgias, como próteses de bacia.
Os tendões e cartilagens também fazem parte do grupo de tecidos musculoesqueléticos utilizados em procedimentos médicos. Na área cardiovascular, tecidos como o pericárdio podem se tornar válvulas cardíacas.
Uso da membrana amniótica
A membrana retirada da parte interna da placenta também começa a ampliar suas possibilidades de uso. O SUS incorporou o tecido este ano para utilização em transplantes. A membrana pode ser empregada como curativo biológico para tratamento de queimaduras, feridas crônicas, pé diabético e doenças oculares.
Em Curitiba, o portador desses “ativos biológicos” é o Banco de Tecidos do Hospital Universitário Evangélico Mackenzie. A unidade é a única do Brasil que reúne todos os tipos de tecidos em sua estrutura: globos oculares, ossos, pele, cartilagem, tendões, membrana amniótica, valvas cardíacas e pericárdio.
Cerca de 90% do que é doado e tratado no banco é destinado ao SUS, fazendo com que uma estrutura privada participe diretamente da rede de atendimento público de transplantes.
