Quando os sócios da Prati Donaduzzi, a maior fabricante de medicamentos genéricos do país, decidiram destinar metade de sua receita privada para a criação de um ecossistema de inovação a quase 500 quilômetros de Curitiba, a ideia pareceu desruptiva: erguer uma “cidade do conhecimento” em uma área de 5 milhões de metros quadrados em Toledo, capaz de atrair 75 mil moradores e centralizar empresas de alta tecnologia no Oeste do Paraná.
Dez anos depois, o Biopark acumula conquistas, mas também a constatação de que o desenvolvimento regional não obedece à velocidade das planilhas. Se por um lado o parque atraiu 170 empresas, viabilizou 90 tecnologias para a cadeia de queijos finos e formou redes de pesquisa em bioinsumos com gigantes do agronegócio, por outro, esbarrou ao tentar expandir a infraestrutura urbana. Com apenas 260 moradores residentes dos 2 mil projetados para esta fase, a diretoria precisou inverter a lógica tradicional do setor: em vez de esperar a chegada passiva de indústrias, colocou a educação básica e a atração de cérebros no centro da engrenagem.
Em entrevista exclusiva à Tribuna do Paraná, o vice-presidente do Biopark, Paulo Rocha, faz um balanço transparente dessa primeira década de operação. O executivo detalha o que funcionou e o que precisou ser corrigido na rota, analisa a autonomia do modelo privado frente às trocas de governo, critica o modelo educacional do país focado em vestibulares e revela os planos de internacionalização com a Alemanha — além da expansão da rede própria de ensino para Curitiba e Região Metropolitana.
Confira a entrevista completa:
Tribuna: O Biopark completou uma década. Olhando para trás, qual que foi a maior premissa do projeto original que se provou errada e o que precisou ser corrigido no meio do caminho?
Paulo Rocha: Falando primeiro sobre a origem, o casal Luiz e Carmen Donaduzzi construíram uma indústria farmacêutica vitoriosa, que hoje tem quase 6 mil colaboradores. No ano de 2016, eles resolveram fazer a associação profissional da Prati Donaduzzi e decidiram criar um parque, um local onde as pessoas pudessem morar, trabalhar, estudar e se divertir em alto nível. Então, eles compraram uma área de 5 milhões de metros quadrados com esse sonho.
O objetivo era criar esse ambiente, com essas características. E como nós fazemos isso? Definiram três grandes áreas: desenvolvimento territorial, educação e atração de empresas. A partir disso, o Biopark foi constituído. Então, ano a ano, essas estruturas foram se desenvolvendo e chegamos ao que é hoje.
O segundo ponto que você perguntou, sobre as premissas que deram errado. A gente fez um primeiro movimento pensando que essas três áreas, elas andariam de forma equivalente, e não foi o que aconteceu. O processo para atrair uma empresa, ele necessita de muito esforço, porque uma empresa não vem para cá no local afastado do centro, porque você vai dar um terreno mais barato ou não. Ele precisa de local, de mão de obra, de estar próximo dos fornecedores, próximo dos clientes. Essa foi uma premissa que a gente percebeu ao longo do tempo que que ela não se sustentava. Então a gente focou em fazer uma educação de altíssimo nível.
Com o programa que a gente tem hoje, que vai de criança a partir de 3 anos, até programa de doutorado, isso move as famílias. As pessoas da região querem uma educação diferente para os seus filhos. Então, quando a gente focou e colocou a educação como o centro desse vetor de crescimento, outras pessoas passaram a acompanhar.
Quando você tem um programa de educação como esse, os pais se movem, as empresas se envolvem porque tem mão de obra qualificada. Os pais de perspectiva de futuro com seus filhos. Hoje, por exemplo, nós temos estudantes em todas as nossas jornadas de educação, que tem que ter um princípio e seja estado. Essa foi uma premissa que se tornou verdade e a educação tem avançado e as outras áreas têm acompanhado esse desenvolvimento.
Tribuna: E o que foi corrigido no meio do caminho com relação a proposta original?
Paulo Rocha: Foi só o balanceamento, porque a proposta inicial o doutor Luiz tinha muito certo que para criar esse ambiente que ele quer, ele teria que ter 75 mil pessoas que morem, trabalhem, estudem em alto nível na região. Essas três premissas continuam as mesmas, mas talvez a nossa abordagem mudou um pouco.
Tribuna: Historicamente, a inovação de ponta sempre se concentrou no eixo Curitiba, Região Metropolitana, ou em outros polos acadêmicos consolidados, como Maringá, Londrina, onde existem as universidades. O que significou na prática bancar um ecossistema desse porte na região Oeste do Estado, quase 500 km longe da capital e dos grandes centros?
Paulo Rocha: Essa é uma simples e bem equivocada ideia. Os os grandes centros não necessariamente possuem os maiores problemas. Os problemas estão nas regiões mais afastadas e é ali que a inovação acontece. A pessoa quando se depara com problemas e dificuldades. A partir disso, o ser humano criativo, como é, cria alternativas e acontece a inovação.
A respeito do investimento ser de uma ordem inversa, é o grande ponto que moveu tudo isso, na minha visão, que pude conviver em outros ambientes, como São Paulo, Rio, Salvador. Conheço um pouco de educação aqui no Brasil, alguns ambientes de inovação, e eu acho que o grande diferencial daqui é ter pessoas com a cabeça completamente diferente. O doutor Luiz e a doutora Carmen quiseram deixar um legado e tiveram que investir muito. A gente sempre brinca que o modelo dele não é copiável, porque pouca gente se dispõe a perder tanto dinheiro quanto eles. Então, assim, não é um projeto pensado em retorno, é um projeto de fato, é generoso. Eles estão de fato com o objetivo de prover o melhor possível para as pessoas que estão aqui. Então eu acho que esse é o grande diferencial.
Tribuna: Muitos parques tecnológicos no Brasil dependem de subsídios públicos contínuos. Como que o Biopark se sustenta financeiramente e até que ponto esse modelo privado garante autonomia frente às trocas de gestão governamental?
Paulo Rocha: O Biopark por ser privado, ele funciona independente de mudança de governo, ele se mantém em crescimento. Nós já experimentamos alguns governos e temos uma excelente relação, não tomamos nenhum partido. O Biopark é um ambiente neutro, onde as pessoas que querem se desenvolver, fazer ciência e avançar vão encontrar aqui uma oportunidade, seja de qualquer aspecto. Então, essa questão partidária de troca de governo nunca afetou em nada, absolutamente nada.
O Biopark se sustenta com recursos da família Donaduzzi. É um parque privado, não é feito se pagar. Ele não tem uma viabilidade, ainda mais no modelo que nós temos. Óbvio que isso não quer dizer que a gente não vai buscar sustentabilidade. A gente busca sustentabilidade e temos avançado nisso. Por exemplo, o nosso colégio, a gente montou um colégio com 300 vagas e nós temos 60% de bolsas de estudo. Só que a educação é tão boa que os pagantes vem também. Temos um modelo que quem não pode pagar não paga, mas quem pode pagar paga. Esse modelo permite com que a gente vá construindo pouco a pouco estruturas mais sustentáveis. Na faculdade, a mesma coisa.
Por outro lado, estamos trabalhando para empregá-los. Quando eles vão sendo empregados, eles vão deixando de ter direito a bolsa e outras pessoas vão tendo acesso. Antigamente, a gente dependia 85% dos recursos da família e 15% outras. Esse ano a gente pulou para 71%. O nosso objetivo é chegar em zero. Temos um caminho, porque a gente faz muito investimento ainda, mas a gente está olhando para a sustentabilidade, que ainda não é uma realidade. A gente se mantém pela generosidade, pelo projeto, pelo desejo do casal de deixar um legado para a sociedade.
Tribuna: Quando a gente fala em retorno, qual que é o verdadeiro impacto socioeconômico que Toledo sentiu nesses 10 anos? Podemos ter uma noção, em termos de renda, arrecadação municipal, perfil da população? A cidade mudou e ainda há resistência a essa transformação que é trazida pelo Biopark?
Paulo Rocha: Não temos como dimensionar. À frente de Toledo, o que eu posso dizer é que nós temos hoje 170 empresas operando dentro do Biopark. Essas empresas geram emprego, arrecadação. O próprio desenvolvimento da região, onde a gente está, aumenta, por exemplo, arrecadação de importo. A cidade de Toledo se beneficia bastante disso. Além disso, o Biopark tem a capacidade de gerar uma mão de obra altamente qualificada. Acabamos de trazer um pesquisador chefe para liderar uma área de tecnologia e Inteligência Artificial da Alemanha. Trouxemos também um pesquisador que faz parte da Academia Brasileira de Ciências de Viçosa, em Minas Gerais. O nosso modelo tem atraído uma série de profissionais altamente qualificados e que, obviamente, repercute para Toledo. O impacto também acontece entre os estudantes. No último ano, foram mais de 150 premiações que essas crianças tiveram em todo o país. O que essas famílias estão estão percebendo de melhor e a oportunidade que essas crianças estão tendo, vamos saber mais para frente, mas já vivemos no dia a dia essa transformação.
Saiu recentemente na revista Exame uma matéria de dois estudantes que criaram uma cadeira de rodas que funciona com expressão facial. Então, imagina o impacto que uma criança com esse tipo de aprendizado aqui já está gerando. Isso é um exemplo de diversos outros, imagina você ter crianças com 13, 14 anos, ao invés de estar em casa vendo TikTok, estão aprendendo e gerando produtos e projetos bem inspiradores.
A gente investiu R$ 17 mil nessa cadeira de rodas para que o estudante pudesse avançar com o projeto.
Tribuna: Existe uma crítica recorrente de que esses hubs de tecnologia, como o Biopark, formam talentos para o mercado internacional, mas gera uma fuga de cérebros da região. Quanto dos empregos gerados no Biopark de fato fixam residência e renda em Toledo?
Paulo Rocha: Essa é uma premissa que a gente justamente tem seguido no modelo, como eu acabei de dar o exemplo para vocês, do pesquisador que a gente acabou de trazer da Alemanha, de Viçosa para cá. Devemos ter hoje aqui no Biopark, uns 20 pesquisadores de altíssimo nível de todo o país. Hoje nós temos estudantes de 31 municípios, de seis estados do Brasil, vindo para cá estudar.
Para você conseguir ter um ambiente onde ele seja atrativo para os grandes cérebros, você precisa é de quatro coisas, para que seja mantida uma infraestrutura de ponta. Esses pesquisadores precisam de fato desenvolver ou celebrar seus projetos e ter infraestrutura que lhe garanta isso. Já estamos trabalhando muito forte nisso. Anunciamos hoje uma parceria em outubro, o projeto de um polo de biotecnologia aqui dentro do Biopark. Será uma infraestrutura de ponta a nível nacional e internacional que a gente vai ter aqui.
Temos buscado um processo de internacionalização forte. Trabalhamos com a Nova Zelândia, Japão, Canadá, buscando bons projetos. Estamos avançando agora com outros países também. Também tem um outro ponto que é o recurso. Hoje existe uma série de financiamentos que o governo faz, seja o governo do Paraná, o governo nacional. Existem oportunidades para desenvolver projetos. Então quando a gente tem esses ambientes aqui, a gente cria, entende isso.
Estive em alguns lugares no final do ano passado. Vemos muitos brasileiros loucos para voltar para o Brasil. Tudo o que eles querem é um local para voltar para o Brasil. Então, quando eles descobrem o que está acontecendo aqui, um lugar que tem infraestrutura, bons projetos, a gente acaba atraindo. Não temos perdido nenhum profissional para fora, pelo contrário, a gente tem conseguido ser um polo de atração.
Tribuna: O fundador, Luiz Donaduzzi, falou durante a cerimônia de comemoração aos 10 anos do Biopark que vocês foram buscar no exterior, na Finlândia, no Japão, em Columbia, em vários lugares, modelos de educação de ponta. Ele criticou o modelo atual de educação que temos no país, disse que está defasado, arcaico. Luiz Donaduzzi destacou que uma mudança educacional não exige muito investimento. O que tem de tão especial no ensino lá fora que a gente precisa entender e aplicar aqui?
Paulo Rocha: O nosso ensino pega as crianças do período de elas têm um potencial mais alto, de mais oportunidade de aprendizado, e os encaixa para passar numa prova. Esse é o primeiro ponto. Dizem que todo mundo tem que aprender tal coisa para passar no Enem e você pega tudo aquilo, todo o potencial que eles têm, e os aprisiona para aprender como passar numa prova. Essa é uma das críticas que a gente faz.
É uma educação que não faz sentido. Eles decoram, aprendem, mas aquilo não tem nenhuma conexão com o dia a dia deles, com a vida. E o que é que a gente tem visto fora? Primeiro que a nossa ideia não é copiar nenhum modelo de fora, porquea educação dá o contexto. Viajamos para vários lugares: Estados Unidos, Portugal, Finlândia, Nova Zelândia, Cingapura, Japão. Por todos esses lugares a gente se inspira, vê o que funciona, adapta a nossa realidade, e aquilo que faz sentido, a gente incorpora. Por exemplo, aprendemos em Portugal, na Escola da Ponte, do professor José Pacheco, que é uma autoridade. Lá cada estudante tem um mentor fora de sala de aula que acompanha e da a ele suporte para o seu aprendizado. Às vezes um aluno tem problema com o professor A, B. Então ele tem alguém que vai ajudar a se organizar no estudo, vai orientá-lo, apoiar uma intervenção com outro professor onde ele possa ter maior dificuldade, ajudar na organização dos estudos. A gente incorporou isso, faz muito sentido. E esse é um dos trabalhos que a gente faz na escola e que tem mais sucesso. O aluno cria um vínculo com o seu mentor, com o professor, que faz com que a aprendizagem aconteça naturalmente. Esse é o nosso objetivo, entender o que está acontecendo, ver o que faz sentido para a nossa realidade. Aí a vamos incorporando, testando e incorporando.
Aprendemos isso com o José Pacheco. Durante um período, a educação era focada no estudante, em outro período, o foco era o professor. José Pacheco fala que o foco é na relação professor-aluno. Se essa relação professor-aluno, ela acontece, há uma conexão, o aprendizado naturalmente vai acontecer. Se o aluno confia no professor, se ele gosta do professor, o processo de aprendizagem acaba sendo natural.
Tribuna: Essas vivências que vocês tiveram fora, com toda essa prática que vocês têm feito ao longo dos anos, vocês chegaram a repassar ou a trocar uma ideia mesmo com o Governo do Estado?
Paulo Rocha: Temos algumas parcerias com o governo do Paraná, que é um grande parceiro do Biopark. O Governo do Paraná contratou 150 vagas para estudantes com altas habilidades no nosso colégio. Então, estudantes que estavam espalhados nas mais diversas escolas, a gente criou um programa dentro do nosso colégio e esses estudantes estão aprendendo em alto nível. Estamos colocando os estudantes em Olimpíada Nacional e tudo mais. Criamos um programa com a prefeitura de Toledo, onde a gente formou todos os diretores das escolas municipais. Foram quatro turmas de professores no nosso modelo. Nós contratamos uma especialização com a Finlândia, onde a gente fez uma turma agora com professores do Instituto Federal do Paraná e no final eles fazem uma imersão na Finlândia. Ano passado, foram 17 professores nossos nessa imersão. A gente tem feito muita troca nesse sentido.
Agora eles têm o Projeto IDEB+, onde a gente mapeou as piores escolas, os piores resultados de Toledo e de Santa Helena no IDEB. E nós criamos um programa para essas escolas, para que o IDEB delas crescesse. Em um ano, nas escolas que a gente fez a intervenção em Toledo, que a gente trabalhou, que eram as piores, cresceram quatro vezes mais que as escolas que a gente não fez a intervenção.
A gente tem trocado muito com o poder público. Esse movimento que a gente faz para o governo é uma forma de cumprir também o papel social. Temos muita troca com o governo municipal, estadual, é o Biopark. Ele é reconhecido, o Donaduzzi Educação, como uma entidade de utilidade pública estadual, municipal e como uma entidade de beneficência, assistência social a nível federal pelo retorno que damos à sociedade.
Tribuna: O Biopark aqui em Toledo é uma referência e é um estudo de caso quando se trata de educação, mas também existe a questão da pesquisa aplicada no agronegócio. Existe a produção e a internacionalização dos queijos finos, que chegou a ganhar uma enorme projeção por conta dos prêmios internacionais. Além desse apelo simbólico, o que o projeto prova em termos de agregação de valor ao agronegócio tradicional aqui da região Oeste?
Paulo Rocha: Nós temos dois programas na nossa área de pesquisa, e eles têm um princípio, não pesquisamos simplesmente para publicar. Publicações são super importantes, a gente compreende, mas o nosso foco é com a pesquisa aplicada. A pesquisa que vai resolver, de fato, um problema da sociedade. Quando iniciamos o projeto de queijos finos, foi nessa perspectiva. Aqui temos a segunda mais importante produção leiteira do Paraná, perdendo apenas para Castro. Os produtores vendiam queijos a valores baixíssimos, sem nenhuma agregação de valor. Com base nisso, na experiência que a doutora Carmem na França, iniciamos esse projeto. Capacitamos 13 produtores e geramos uma série de novas tecnologias. São mais de 90 tecnologias de queijos finos, um terço delas autorais, de queijos que não existem. Criamos com o objetivo de gerar, de transferir isso de forma também gratuita para esses produtores e hoje eles vendem o valor agregado cinco vezes superior, são queijos premiados internacionalmente.
Tem um outro projeto nosso também, que apoiamos o agro aqui da região Oeste, que é o NAPI (Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação). Organizamos uma rede colaborativa na temática de alimentos saudáveis e saborosos. Reunimos dez do agro, especialmente cooperativas, entre as maiores, a Frimesa, Coopavel, Primato, BRF, Prati Donaduzzi, são dez empresas. A gente se reuniu com eles e identificamos quais eram as principais necessidades de cada um. Mapeamos mais de 109 problemas e, a partir disso, estamos realizando pesquisa aplicada para resolver esses problemas. O primeiro que a gente avançou é para combater a salmonelose, que é um problema importantíssimo. Estamos criando uma expertise nessa área, com a área de bioinsumos, biotech, justamente para que as empresas e as organizações aqui do Oeste do Paraná possam ser impactadas, como já vem acontecendo com as outras iniciativas do Biopark.
Tribuna: Para além da gastronomia e do agro, qual é hoje a verdadeira “joia da coroa” do Biopark em áreas de fronteira, como biotecnologia, saúde ou inteligência artificial aplicada?
Paulo Rocha: A gente tem três focos principais, como eu falei no início, resolvemos focar em três grandes áreas. A primeira é voltada para biotech, biotecnologia. Ela é a expectativa de futuro extremamente positiva, uma demanda muito forte para isso. Estamos nos preparando para ser um polo relevante na área de biotech, bem focado em bioinsumo e substituição de químicos por biológicos.
A outra área é voltada para alimentos. Entendemos que a região onde estamos produz alimentos com tecnologia e inteligência artificial. Por isso trouxemos um pesquisador de fora para liderar essa área, queremos dominar isso.
E outra área é a educação, que a gente compreende que pode aportar muito do que a gente quer. Queremos que as pessoas, ao invés de querer ir para a Finlândia, Coreia do Sul, para outros lugares aprender sobre educação, que de repente pensem ir visitar Toledo. Essas quatro áreas hoje são as que estamos colocando energia, está no nosso plano estratégico. Queremos dominar e ser um ambiente onde as pessoas entendam como uma referência.
Tribuna: O Brasil enfrenta há décadas o dilema de produzir com excelência pesquisa acadêmica, mas raramente isso vira produto nas prateleiras. Como que o Biopark atua nesse chamado “vale da morte” do empreendedorismo, para transformar a tese em produto, prateleira, nota fiscal?
Paulo Rocha: Nós não estamos interessados em fazer pesquisa para alimentar vaidade ou dizer que publicou. A nossa premissa parte da necessidade da sociedade. Qualquer projeto nosso, antes dele avançar, tem que responder muito bem a pergunta: quem vai ser beneficiado e pelo o que nós vamos fazer? Isso de fato é uma demanda da sociedade? Se for, avançamos e fazemos. Compreendemos que muitas estruturas avançam com pesquisa mais acadêmica, mas não é o nosso foco. O nosso foco é na pesquisa aplicada de fato. A Prati Donaduzzi tem é mais de 300 pesquisadores, investe mais de R$ 150 milhões de em pesquisa por ano. A pesquisa se transforma em remédio, que tomamos depois. Temos esse mesmo dilema, fazer uma pesquisa que entregue alguma coisa de fato.
Tribuna: Sobre gargalos de crescimento e infraestrutura, o setor de tecnologia e biotecnologia exige um capital para um longo prazo. Como está a questão dos fundos de capital para investir no interior, na comparação com São Paulo, em outras capitais?
Paulo Rocha: Excelente ponto. Há uma preocupação nossa em relação a isso. Muitos parques não se pagam. Isso tudo é muito caro para fazer. Como é que garantimos que no futuro isso tem continuidade? Esse é um dilema que enfrentamos e que os fundadores, bem atentos, criaram um mecanismo. Metade de toda a riqueza que eles acumularam da Prati Donaduzzi vem para essa estrutura de retorno à educação, à sociedade, justamente para manter investimentos. Os outros 50% ficam com a com a família, mas 50% de todo esse capital da família vem para garantir pesquisa a longo prazo. Você tem toda a razão, a pesquisa muitas vezes demora 10, 15 anos para começar a ter resultado. Alguém precisa financiar. Se a gente depender de buscar uma sustentabilidade antes, dificilmente vai conseguir. Então, a ideia é que esse fundo criado pela família possa subsidiar essas pesquisas. Luiz e Carmen Donaduzzi têm a consciência que talvez eles não vejam o resultado de tudo que eles estão plantando.
Tribuna: Quando se trata de pesquisa, de inovação e de educação mesmo, 10 anos ainda é pouco.
Paulo Rocha: É muito pouco. Eu vejo essas crianças que estão com 14, 15 anos aqui, quando eles tiverem com 22, 23, serão outros. É o que nós esperamos. Eles vão moldar o futuro. Nós temos crianças com 12, 13 anos com empresa incubada aqui dentro. Ela vai para a universidade com outra cabeça. Por isso temos mais de 60 módulos educacionais para que eles escolham aquilo que faz sentido. Muitos deles estão avançando.
Tribuna: Quais desses módulos são os preferidos dos alunos?
Paulo Rocha: Tem módulos que bombam. Temos módulo de cozinha internacional, nacional, cozinha funcional. As crianças adoram astronomia. Tem um grupo de sete estudantes que estão indo para o Rio de Janeiro participar da fase nacional da Olimpíada Brasileira de Foguetes. E a marcenaria? Eles estão construindo carrinhos de rolimã, casinha de passarinho. Tem robótica, programação. Tem crianças fazendo aula de violino, teatro, enfim, são mais de 60. E esses que eu falei são os que têm maior procura.
Tribuna: De uma forma geral, qual que é o grande nó operacional ou estratégico para os próximos cinco anos que acaba tirando o sono da diretoria?
Paulo Rocha: Moradia. Queríamos muito ter 2 mil pessoas morando aqui. Hoje nós temos 260 pessoas morando aqui, são pessoas que vieram por conta da educação. São estudantes da faculdade, pais de crianças do colégio que já vieram morar aqui ou até colaboradores nossos. Entendemos o nó do desenvolvimento do território enquanto bairro ou cidade, ele poderia ser mais acelerado do que a gente imaginou. Imaginávamos estar muito mais à frente nessa área de moradia, de desenvolvimento do território do que estamos hoje. Isso tira nosso sono algumas vezes, mas hoje tivemos um anúncio super importante. O governador anunciou o eixo que vai ligar o Biopark à cidade. Isso vai acelerar muito esse processo de mudança das pessoas.
Tribuna: Falando em políticas públicas, tanto o governo estadual, quanto federal, têm anunciado investimentos recorrentes em parques tecnológicos. Onde que a atual gestão acertou em cheio nessa pauta de inovação e onde que o Estado ainda é burocrático e lento?
Paulo Rocha: Vou ser muito honesto, eu não consigo dizer onde o Estado é burocrático e lento. Sendo muito honesto, o que nós vemos é o Estado, e eu posso falar porque eu vivi nas principais capitais do país, Rio e São Paulo, onde há mais competição, porém, também é uma das maiores capitais do Brasil. Eu vejo que o estado do Paraná está muito à frente dos demais estados. Primeiro, que foi investido muito em ciência e tecnologia, como poucos. Se eu não estou enganado, o Paraná é o estado que mais investe em ciência e tecnologia per capita do Brasil. Temos recebido muito suporte. O NAPI, por exemplo, é um investimento do estado do Paraná, com aporte da Fundação Araucária e da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, o polo de biotech também tem apoio do governo do Paraná.
Nós avançamos muito no nosso processo de internacionalização graças ao suporte o governo do Paraná. O que nós vimos, na verdade, é um governo que apoia muito a ciência e tecnologia. Temos sentido uma facilidade muito grande em conseguir avançar nessas pautas, como em nenhum governo que eu tenha já experienciado até então. Tem sido muito fácil trabalhar com o governo do Paraná. A SEED (Secretaria de Estado de Educação do Paraná) paga para 150 estudantes de altas habilidades. Eu vejo um suporte muito grande.
Tribuna: Na sua avaliação, sobre legislação, incentivo fiscal estadual, existe um incentivo para inovação nesse sentido? O Paraná hoje compete em pé de igualdade com Santa Catarina e São Paulo para retenção de empresas de tecnologia?
Paulo Rocha: Com certeza. Está sendo criado um ambiente aqui. Alguns ativos estão sendo implementados aqui pelo estado, que ele é extremamente atrativo para as avaliações. Hoje, em investimento de inovação per capita, se eu não estou enganado, o Paraná é disparado o primeiro lugar. O investimento da pasta de Ciência e Tecnologia, se não me engano, foi multiplicado por cinco ou seis ao longo dos oito anos de governo. Nós vemos estado que sempre esteve conectando seus ativos.
O Oeste do Paraná tem uma oportunidade de ouro no futuro, com produção de alimentos. No agro brasileiro, o Oeste do Paraná está muito bem posicionado.
Tribuna: A nível federal, a reforma tributária e as novas diretrizes da política industrial, com a nova Indústria Brasil, têm trazido ganhos reais para o Biopark ou estão adicionando uma certa complexidade?
Paulo Rocha: Para o Biopark não. Eu vou falar um pouco da área que eu lidero aqui, que é a área de educação. Nós somos uma associação sem fins lucrativos e como somos certificados como entidade de beneficência e assistência social e também entidade pública estadual, municipal, a gente não paga uma grande parte dos tributos. Não vamos ser afetados pela reforma tributária. Para o Biopark, o efeito é zero. Não temos nenhum impacto. Obviamente, estamos atentos a isso porque impacta empresas que estão aqui dentro do Biopark. Só que existe muitas dúvidas das empresas, muitos índices que ainda não foram atualizados. Ainda é mais dúvida do que certeza. Para o Biopark diretamente o impacto é zero. Mas temos acompanhando o que pode acontecer com as empresas daqui.
Tribuna: O que o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação ou as agências, como o CNPq, tem entregado aqui na região do interior? O que funciona? O que continua sendo excessivamente centralizado na região Sudeste do Brasil?
Paulo Rocha: A gente participou de uma reunião com o presidente deles. Justamente a crítica era essa. O estado do Paraná, como todo, foi muito pouco contemplado. Ficou uma concentração muito maior para o Nordeste do Brasil. Mas eles precisam muito , hoje tem um déficit muito maior do que os demais centros, mas o Paraná foi muito pouco contemplado no momento da execução de projetos, tanto que alguns editais são direcionadas para o Nordeste.
Gostaríamos muito e estivemos em reunião com o presidente falando sobre isso, que gostaríamos de ter sido mais contemplados aqui no Paraná.
Tribuna: Sobre o modelo do Biopark, que trabalha com educação, pesquisa, atração de empresas, o que pode ser replicado em regiões com uma menor vocação agrícola, como o Litoral ou a região Norte do estado? Isso é uma dinâmica exclusiva da região Oeste?
Paulo Rocha: Qual a tese que acreditamos aqui no Biopark? A educação é o principal agente catalisador para a inovação e a inovação gera transformação social. Eu acho que pode ser replicado e já estamos com trabalho em Curitiba bem avançado e com outras regiões.
Temos uma educação que não é barata para o poder público, é muito complexo fazer porque há muitas amarras e o próprio sistema BNCC (Base Nacional Comum Curricular) acaba amarrando um pouco o setor público e o setor privado. Esse não é o melhor modelo para quem quer ganhar dinheiro. O melhor modelo para quem quer ganhar dinheiro é pagar o pior salário para o professor e cobrar a maior mensalidade para os pais, para as famílias. Esse não é o nosso modelo. Mas o que é que pode ser replicado que a gente vem discutindo com Curitiba e com outras regiões? Se colocarmos a educação como prioridade de fato, gera um ambiente propício à inovação, que gera transformação social. A saída vai ser uma educação bem feita, uma pesquisa aplicada, voltada para resolver problemas reais da sociedade. É nisso que acreditamos.
Tribuna: O Paraná está caminhando para se consolidar como o maior hub de inovação do Sul. O que ainda falta para que o Estado atinja essa meta e não seja apenas só um slogan governamental?
Paulo Rocha: Eu acho que esse projeto dos Napis (Novos Arranjos de Pesquisa e Inovação). é muito interessante. Ele identifica quais são os as demandas estratégicas do Estado e organiza redes colaborativas para atender a essas demandas. Então, o Estado quer avançar com pesquisa, aplicada e soluções a saudabilidade dos alimentos. Ninguém quer comer mais ultraprocessados. Então, o que é que o governo faz? Ele articulou uma rede para que essa rede resolva o problema. Como ele articulou uma voltada para mudanças climáticas. Esse foi o primeiro passo que eu achei muito importante e estratégico.
O que é que falta agora? E eu venho discutindo isso com eles, com a Fundação Araucária. Eu criei um artefato que está sendo testado. É uma área minha, por exemplo, de estudo. As redes colaborativas são a melhor resposta para problemas complexos. Os Estados lidam com problemas complexos e não adianta só articular uma rede. Depois você precisa garantir que essas redes, terão um ambiente propenso à colaboração, para que os resultados aconteçam. Então, hoje eu sinto falta de que essas estruturas têm um sistema de monitoramento para garantir que essas redes estejam de fato avançando e trazendo resultados concretos.
Hoje é muito difícil, uma vez que essas redes são articuladas, que o Estado monitore e veja se de fato os retornos são efetivos. Então criamos um artefato que mede ambiente colaborativo de todas as redes, porque o ambiente colaborativo positivo, ele tem uma alta taxa de sucesso. Eu acredito que hoje falta apenas para o Estado ter essa capacidade de controlar, monitorar todos os investimentos feitos em inovação. Como ele foi muito descentralizado, agora há uma dificuldade de controle e monitoramento.
Tribuna: Pensando na expansão do Biopark, existe alguma estratégia para os próximos 10 anos? Podemos falar em ampliação de território mesmo ou uma criação de filiais em outros municípios ou até uma internacionalização de startups?
Paulo Rocha: Temos o crescimento em duas perspectivas, o principal é do nosso território. Eu falei da ocupação da área de 5 milhões de metros quadrados. Não é nada fácil e qualquer investimento que a gente faça fora vamos estar deixando de fazer aqui. Qual o nosso plano? Temos um projeto de construção de 600 moradias. O Eixão do Desenvolvimento (uma via arterial de 8 quilômetros que vai conectar a área urbana da cidade com o Biopark) é um projeto que está sendo trabalhado há dois anos.
Temos uma série de estratégias na educação. Antes éramos só faculdade, temos o ciclo completo, exceto o infantil. Na faculdade, por exemplo, temos ampliado o nosso portfólio todo ano, para ter mais estudantes vindo para cá. Esse ano incluímos Psicologia e Direito. Essa ampliação do portfólio vai atraindo mais estudantes, mais famílias, construção de moradia, construção de equipamento. É relevante. A construção do hospital é uma estratégia também de ocupação do território, como foi quando a gente iniciou com a Universidade Federal de Medicina. O ambulatório sendo construído também é uma estratégia que já está em resolução também de ocupação.
Por outro lado, o desejo do doutor Luiz e da doutora Carmen é levar o modelo de educação que eles acreditam para o resto do Brasil. Já estamos discutindo, por exemplo, filiais do Colégio Donaduzzi e da academia Donaduzzi em outros municípios, inclusive Curitiba. A nossa ideia é levar uma unidade do colégio para Curitiba e também temos negociado com outras cidades, como Pinhais, que fica na região metropolitana, Assis Chateaubriand. Temos esse desejo de levar educação também para outros lugares.
A parte da internacionalização de parcerias, intercâmbio entre pesquisadores, estudantes, já temos feito isso. Tivemos reunião com, por exemplo, o Parque Tecnológico de Heidelberg, na Alemanha, repensando o intercâmbio de startups, empresas alemãs que querem crescer no mercado brasileiro ou empresas brasileiras que querem crescer no mercado da Alemanha. Estamos buscando também alternativas como essa para o nosso processo de internacionalização.
Tribuna: Em termos de legado, quando se olhar para o Biopark daqui 30 anos, qual será a contribuição definitiva que a estrutura terá deixado para a história do desenvolvimento econômico do Estado?
Paulo Rocha: Nossa ideia é que as pessoas olhem para cá e digam, é o melhor lugar de fazer educação do país. Eu preciso colocar uma empresa de biotech em Toledo. Uma empresa na área de alimentos em Toledo. Então, o nosso desejo aqui seja de fato um ambiente de atração de pessoas que querem se desenvolver em alto nível. Isso é fundamental para nós. Investimos muito na inclusão. Para nós não importa se a pessoa pode pagar ou não. Se ela quiser aprender em alto nível, o que ela encontra aqui é uma oportunidade. Nosso objetivo é atingir a meta de 75 mil moradores, 30 mil empregos em base tecnológica, prêmios de alto nível.
