Uma combinação perigosa de engenharia social, dados públicos organizados e recursos tecnológicos acessíveis tem colocado as autoridades e a população em alerta no Paraná. Casos recentes investigados pela Polícia Civil em cidades como Paranavaí, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa e Cambira revelam um padrão que impressiona pela sofisticação: os estelionatários deixaram de usar abordagens genéricas e passaram a utilizar dados reais de processos judiciais associados ao spoofing — ferramenta que altera a identificação da chamada e faz com que o nome ou o número verdadeiro do seu advogado, do banco ou de uma delegacia apareçam na tela do celular.
Em Paranavaí, a fraude ganhou contornos cinematográficos. Os criminosos simularam uma ligação vinda do escritório do advogado da vítima e agendaram uma suposta audiência por videoconferência. Na chamada por vídeo, com câmeras desligadas e alegando prazos urgentes, golpistas se passaram por juiz e promotor, anunciando uma indenização de R$ 17,9 mil. Para liberar o dinheiro imediatamente, exigiram uma transferência via Pix de R$ 1.412 para custas processuais. A vítima fez o pagamento, confiando na legitimidade do número exibido no visor e nos dados apresentados, e após o envio do valor, os criminosos desapareceram.
O gerente de Segurança da Informação, Douglas Lopes Gomes, destaca que o maior perigo atual está no acesso simplificado a essas ferramentas, que antes exigiam conhecimento técnico avançado. “Tanto para o bem quanto para intenções maliciosas, tecnologias de telefonia pela internet, inteligência artificial e ambientes virtuais estão disponíveis a todos. O que mudou foi a redução das barreiras técnicas. Hoje tudo roda em nuvem com interfaces simples. O crime se estruturou no modelo de ‘crime como serviço’, em que quadrilhas compartilham bases de dados, robôs, roteiros e infraestrutura própria”, analisa Douglas.
Douglas também ressalta que o caso de Paranavaí demonstra a força do cenário montado, sem a necessidade de recursos ultra complexos. “O spoofing não é uma invasão física do celular, mas uma adulteração na identificação da linha no momento da chamada, explorando fragilidades entre as redes de telefonia. Em Paranavaí, com câmeras fechadas, imagens estáticas e dados reais em mãos, eles conseguiram criar uma encenação convincente. O avanço criminoso está na combinação de fatores: dados verdadeiros, identidade falsificada, postura de autoridade e forte pressão psicológica”, complementa.
O engenheiro da computação e especialista em inteligência artificial Luís Eduardo Luz reforça como essa automação gera escala. “A IA atua como um agente autônomo que lê as páginas dos portais dos tribunais, extrai nomes, números de processo, advogados e valores da causa em minutos. Ela organiza uma lista de alvos e gera documentos e mensagens personalizadas. O trabalho que levaria dias é feito em segundos. Um único operador cuida da automação para o estado inteiro e só entra na ligação no momento de pedir o Pix”, alerta Luís Eduardo.
Sobre a origem das informações, Douglas Lopes Gomes explica que a exposição dos dados não significa que os sistemas da Justiça tenham sofrido invasão. “A legislação garante a transparência de muitos processos, que trazem nomes das partes, advogados e valores. O problema é que programas maliciosos fazem buscas automatizadas em escala nesses diários e portais, reunindo milhares de dados e cruzando com vazamentos antigos da internet ou redes sociais. O desafio dos tribunais agora é reforçar sistemas de proteção, como os testes de CAPTCHA, sem fechar o acesso público que a lei exige”, pontua.
Para o advogado especialista em direito digital Afonso Morais, a posse de informações corretas não prova a identidade de quem fala. “O criminoso mistura dados verdadeiros com uma instrução falsa. A regra principal ao desconfiar é interromper a comunicação e mudar de canal: desligue e retorne para o número do escritório que você já tem salvo no seu celular ou contrato”, reforça. Morais lembra que o Judiciário nunca condiciona a liberação de indenizações a pagamentos por Pix e indica atenção quando surgirem três fatores combinados: urgência, autoridade e pedido de dinheiro.
Caso a transferência tenha sido efetuada, a orientação é comunicar o banco nos primeiros minutos para acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), registrar boletim de ocorrência e preservar capturas de tela, comprovantes, áudios e históricos de conversa.
Entenda a tecnologia e veja como se proteger
- O que é spoofing: É a técnica que altera a “etiqueta” da chamada. O número exibido na tela é mascarado para se passar pelo contato salvo da sua agenda, do seu banco ou de um órgão público.
- O papel dos robôs de IA: Agentes automatizados garimpam diários de justiça e sites públicos, cruzando dados vazados para criar abordagens sob medida com o nome do seu advogado e o número exato do seu processo.
- Como funciona o deepfake: Com áudios curtos tirados da internet, softwares clonam a voz do interlocutor ou simulam rostos em videochamadas, embora falhas de movimento ainda ocorram ao passar a mão em frente à câmera.
- A regra de ouro da segurança: Não confie apenas no número que aparece na tela. Desligue a ligação suspeita e faça um novo contato digitando o número oficial do seu advogado ou do banco que você já possui guardado.
- Regras de protocolo: Nenhuma audiência real é marcada de última hora por mensagem instantânea e a Justiça não cobra taxas via Pix por aplicativo para liberar valores de processos.
