Na contramão do endividamento, do crédito escasso e da alta nos custos — cenário que elevou em 56,4% os pedidos de recuperação judicial no campo, segundo a Serasa Experian —, o cooperativismo surge como a grande força de resistência e crescimento do agronegócio brasileiro. É nesse contexto que o Paraná desponta na liderança nacional do movimento.

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O Paraná é hoje o estado com a maior movimentação cooperativista do país: 82 cooperativas, 240,2 mil cooperados, 118 mil empregados e R$ 169,13 bilhões movimentados em 2025, segundo dados do Sistema Organização das Cooperativas do Brasil (OCB). A explicação para a resiliência e o avanço das cooperativas está na própria estrutura do setor, que deixou de apenas intermediar a venda de grãos para se transformar em uma potência agroindustrial.

A trajetória da Lar Cooperativa Agroindustrial, sediada no Oeste do Paraná, ilustra como o modelo pode proteger o produtor das oscilações de mercado. Formada originalmente por pequenos agricultores de grãos, a Lar começou concentrada na produção primária. Com o tempo, avançou para o esmagamento de soja, passou a produzir farelo e óleo e utilizou esses produtos como matéria-prima para a fabricação de rações. A estratégia abriu caminho para a entrada nas cadeias de frango, suínos, leite e ovos, construindo um parque industrial próprio que hoje exporta para 103 países e é um dos mais importantes do país.

Para o diretor-presidente da Lar, Irineo da Costa Rodrigues, essa transformação é fundamental para que pequenos e médios produtores consigam competir em um mercado cada vez mais sofisticado.

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“O modelo de cooperativa agrícola é o ideal para desenvolver as pequenas propriedades”, resume. Segundo ele, a cooperativa não apenas dá segurança ao produtor, mas também leva conhecimento e tecnologia para dentro da propriedade e funciona como uma ponte entre quem produz e quem consome.

Essa função se torna ainda mais importante à medida que aumentam as exigências de mercado. Para cumprir esse papel, porém, a cooperativa precisa ser grande o suficiente para desenvolver alternativas de comercialização, industrialização e agregação de valor, diz Rodrigues.

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“No começo, qualquer cooperativa agrícola é da produção primária, mas commodity é um preço raso”, diz o diretor-presidente da cooperativa. O processo de beneficiamento e industrialização, segundo ele, acrescenta conhecimento, mão de obra, embalagem, energia e logística ao produto, elevando seu valor.

Os produtos da Lar chegam a 168 portos no mundo. “Na cooperativa nós temos a ajuda mútua e a solidariedade, onde tomamos a produção de diversos produtores, isso gera escala”, afirma Rodrigues. Dessa forma, é possível barganhar melhor na compra de insumos e na venda da produção e oferecer uma assistência técnica mais qualificada.

Cooperativas avançam em meio a cenário de crise no agro

No cenário nacional, somente no setor agro, há 1,13 milhão de cooperados reunidos em 1.254 cooperativas no Brasil, que movimentaram R$ 487,3 bilhões em 2025 — um avanço de 11,2% em relação ao ano anterior, segundo o Anuário do Cooperativismo Brasileiro 2026, do Sistema OCB. O ramo respondeu por 57,4% de todos os ingressos do cooperativismo brasileiro, de longe o maior segmento em geração de riqueza.

Os R$ 487,3 bilhões movimentados pelas cooperativas agropecuárias equivalem a cerca de 15% do PIB de todo o agronegócio brasileiro, que somou R$ 3,2 trilhões em 2025, ou 25,13% de toda a economia do país, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O PIB, no entanto, incorpora toda a cadeia, da indústria de insumos aos serviços. Quando o recorte é apenas no Valor Bruto da Produção (VBP), o peso das cooperativas duplica e atinge 33% de todo o VBP da agropecuária nacional.

No campo, as cooperativas respondem por 53% da produção nacional de grãos e fibras e cerca de 80% da de carne suína. Em outras palavras, uma parcela expressiva daquilo que o Brasil planta, colhe e transforma passa por estruturas cooperativistas.

Embora não estejam imunes às dificuldades enfrentadas pelo campo, ao reunirem milhares de produtores sob um mesmo guarda-chuva, as cooperativas diluem riscos, ganham escala, acessam crédito com mais facilidade, armazenam a produção e diversificam as fontes de receita. E, principalmente, avançam sobre etapas industriais de maior valor agregado.

Da recepção de grãos à locomotiva agroindustrial

Em vez de depender só da margem que o produtor consegue na venda de uma commodity, a cooperativa capta valor também na armazenagem, no processamento, na industrialização e na comercialização. Assim, não é a imunidade à crise, mas a capacidade de administrá-la em rede que explica o crescimento do cooperativismo, mesmo num momento de fortes adversidades setoriais.

“Ao reunir pessoas em torno de uma estrutura coletiva, o cooperativismo facilita o acesso a insumos, assistência técnica, tecnologia, armazenagem, industrialização e markets. É um modelo que torna o produtor mais competitivo e gera oportunidades para as comunidades”, avalia a presidente-executiva do Sistema OCB, Tania Zanella.

Os dados do Sistema OCB mostram essa diversificação: 48,7% das cooperativas agropecuárias atuam com produtos não industrializados de origem vegetal, 45,1% com fornecimento de insumos, 36,2% com produtos industrializados de origem vegetal e 29,1% com industrializados de origem animal.

Tecnologia e sustentabilidade no horizonte do campo

A escala de produção conquistada pelo cooperativismo também começa a mudar o tipo de tecnologia que chega ao produtor, o que descortina a próxima grande vantagem competitiva do setor.

Para Ricardo Huffel, executivo de vendas e especialista em inteligência geoespacial para o agronegócio da Geoambiente, seria um erro explicar a resiliência das cooperativas apenas pelo poder de barganha.

“Para muitos, a explicação para essa resiliência está apenas no ganho de escala para a compra de insumos ou a venda de grãos. Mas, acompanhando o setor de perto, vejo que o buraco é mais embaixo: o cooperativismo está avançando em uma transição estratégica que une produtividade, sustentabilidade e aplicação de tecnologia”, diz.

Um dos exemplos nesse sentido é a rastreabilidade dos produtos. Mercados internacionais passaram a exigir cada vez mais informações sobre a origem dos alimentos, condições de produção e o cumprimento de regras ambientais.

Para as cooperativas, que concentram informações de milhares de propriedades, criar sistemas capazes de reunir e verificar esses dados em escala pode representar uma vantagem competitiva.

“O acesso a novos mercados, especialmente aqueles dispostos a pagar um prêmio sobre a tonelada do grão, exige a comprovação de origem”, afirma Huffel. “A sustentabilidade deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um diferencial comercial.”

Para Rodrigues, as cooperativas estão particularmente bem posicionadas para esse movimento, em uma posição de vanguarda para atender às exigências de certificação e rastreabilidade necessárias para acessar mercados mais sofisticados.