Agronegócio

O segredo das queijarias: como o Paraná driblou a maior queda de consumo de lácteos do semestre

Os queijos do Sudoeste do Paraná são feitos a partir de receitas familiares. Foto: Carina Pellegrini /Sebrae PR
Os queijos do Sudoeste do Paraná. Foto: Carina Pellegrini /Sebrae PR

O mercado brasileiro de lácteos vive uma mudança de consumo importante. De acordo com o último relatório do Observatório do Consumidor da Embrapa, o volume de vendas de lácteos no país recuou no primeiro semestre, com destaque para a queda no volume do leite UHT (Longa Vida). No entanto, no Paraná — segundo maior produtor de leite do país —, o setor produtivo está driblando a crise por meio da produção de derivados de qualidade.

A dependência do leite fluido comum tem pressionado as margens dos produtores, exigindo uma mudança rápida de posicionamento. Para entender como o campo paranaense está reagindo a esse cenário, Alexandre Lobo Blanco, médico veterinário do Sistema FAEP (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) e futuro representante dos produtores do Conselho formado por produtores e indústrias de laticínios (Conseleite-PR) explica como caminha a produção leiteira no Paraná.

Queijo estabiliza o preço do leite do Paraná

Enquanto o leite UHT sofreu com a mudança de preços e a rejeição do consumidor nacional no primeiro semestre de 2026, a categoria de queijos consolidou-se como o grande destaque positivo na pesquisa da Embrapa, registrando crescimento de 5% em volume e 6,3% em faturamento.

No Paraná, a produção queijeira virou estratégia. Segundo Blanco, o derivado desempenha um papel fundamental na estabilização financeira da cadeia. “O queijo cumpre o papel de concentrar o leite fluido e estabilizar os preços, especialmente em períodos em que os três estados do Sul registram aumento de volume de produção, como vimos em 2025 e 2026”, explica o especialista da FAEP.

Além do equilíbrio de mercado, o queijo traz a possibilidade do produtor negociar melhor o seu produto. “O produtor de leite tem, no máximo, dois dias para entregar seu produto ao laticínio; ele não consegue fazer o seu preço. Já o produtor de queijo consegue negociar melhor, trabalhar com prazos de validade maiores e planejar negócios a longo prazo”, comenta.

De acordo com Blanco, já existem casos de produtores paranaenses que verticalizaram totalmente suas operações, destinando 100% do leite para a produção de queijarias próprias regulamentadas.

Gestão e nichos salvam pequenos produtores

O relatório nacional da Embrapa também evidencia o crescimento de produtos de alta tecnologia e apelo à saúde, como o “zero lactose” — que saltou para 5,6% do faturamento total do setor — e bebidas proteicas focadas no mercado fitness.

Embora o segmento de alta proteína seja promissor, existe a barreira industrial: a produção desses itens exige plantas industriais altamente especializadas. Segundo Blanco, a saída para o pequeno produtor paranaense não está na disputa por escala, mas na aposta em nichos de alto valor.

“O pequeno produtor tem totais condições de permanecer ativo se focar em controle de custos e qualidade. Há espaço para leites e queijos especiais produzidos em microrregiões, onde o padrão do animal e a pastagem local conseguem produzir com características específicas”, destaca Blanco.

Esse movimento de valorização local tem ganhado fôlego com o Prêmio Queijos do Paraná. Realizada em parceria pelo Sistema FAEP, Sebrae, Sindileite e IDR-Paraná, a iniciativa já está em sua segunda edição, promovendo queijarias artesanais finas certificadas.

A batalha do leite em pó e as fronteiras do Mercosul

Outro ponto sensível para a bacia leiteira do Sul é a concorrência com o leite em pó importado dos países vizinhos do Mercosul. A pesquisa da Embrapa revelou que o leite em pó é a categoria com maior crescimento composto de faturamento no pós-pandemia (17,3% a.a.), mas boa parte desse volume entra no Brasil via importação, pressionando as cotações locais.

De acordo com Blanco, o setor produtivo nacional tem travado uma batalha intensa nos bastidores jurídicos e políticos para garantir uma concorrência justa. “A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) vem conduzindo investigações rigorosas sobre possíveis desvios tributários e quebras de regras de comércio internacional na importação de leite do Mercosul. O leite em pó que entra no país é muito utilizado como ingrediente industrial pela cadeia de chocolates, sorvetes e panificação. Precisamos corrigir essas distorções para devolver fôlego ao nosso produtor”, pontua.

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