Altas habilidades

Como é o protocolo que identifica alunos superdotados na rede estadual do Paraná

Salas de recursos multifuncionais para alunos superdotados. Foto: Reprodução/Elma Marcelo de Almeida

Entre 2021 e 2026, a rede estadual de ensino do Paraná passou de 1.300 a 11.950 estudantes identificados com Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD). Esse rastreamento é realizado a partir de um protocolo pedagógico próprio da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED), que conta com questionários, atividades e entrevistas com estudantes, docentes e familiares. 

O processo costuma começar por comportamentos observados pelos professores e pela equipe escolar, por uma demanda apresentada pela família ou pelo próprio estudante. A partir daí, o aluno pode passar pelos instrumentos de triagem e, caso sejam detectados os indicadores, ser direcionado a estratégias pedagógicas adequadas às suas características.

Trata-se de um programa pensado para ser executado pela escola, sem uma abordagem clínica, como é o caso das avaliações neuropsicológicas. Segundo Gisele de Paula Rodrigues, técnica pedagógica do Departamento de Educação Inclusiva (Dein)/Núcleo de Atividades de Altas Habilidades ou Superdotação (NAAH/S) da Seed, o modelo vem sendo aprimorado ao longo de cerca de 15 anos da atuação do NAAH/S.

“Ele foi construído por muitas mãos, com muita testagem, muita experiência e feedback de professores que aplicavam. A gente foi acrescentando e selecionando atividades, como por exemplo de criatividade e raciocínio lógico”, explica.

Ela destaca que, a partir de 2022, a pasta intensificou uma agenda de formação docente sobre o protocolo, instruindo os professores sobre seu embasamento teórico e como conduzir as atividades. A aplicação costuma levar em torno de seis encontros, a depender do caso. Ao final, o profissional emite um parecer pedagógico em que descreve o processo e informa se houve ou não a identificação. 

“Confirmando os indicadores, esse parecer é o documento legal que dá direito ao estudante a ser matriculado no atendimento educacional especializado, que, para o superdotado, vai fornecer suplementação e enriquecimento curricular”, diz.

Enriquecimento curricular e educação especial 

Estudantes superdotados são, assim como quem tem Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Transtorno do Espectro Autista (TEA) e deficiência intelectual, por exemplo, público-alvo da educação especial. De acordo com a SEED, o mapeamento desses estudantes visa criar melhores condições para seu desenvolvimento dentro da escola ao planejar respostas pedagógicas mais adequadas e oferecer desafios conforme as potencialidades.

A rede estadual de educação conta atualmente com 16 Escolas de Referência em AH/SD, distribuídas em dez municípios, e 315 Salas de Recursos Multifuncionais, presentes em 165 escolas de 93 municípios. Há também atendimento a estudantes com altas habilidades em 473 escolas de tempo integral e 169 das chamadas Turmas PR+, que oferecem atividades de enriquecimento complementares às ofertadas no currículo regular.

Nas escolas de turno regular, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) pode ocorrer em contraturno, nas Salas de Recursos Multifuncionais. Já nas escolas de tempo integral, o atendimento é integrado à rotina escolar, com atuação de professores especializados em Educação Especial. As atividades são definidas a partir das características e interesses dos estudantes e podem envolver projetos de pesquisa, iniciação científica e experiências em ciência, tecnologia, robótica, artes, literatura, escrita criativa e xadrez.

A superdotação não se manifesta de uma única maneira e não significa, necessariamente, desempenho elevado em todas as disciplinas escolares: há jovens que manifestam desempenho acima da média em alguma área do conhecimento, como matemática ou linguagens, enquanto outros se destacam pela criatividade, pelo raciocínio lógico ou pela capacidade de encontrar soluções para problemas.

Ao mesmo tempo, um jovem com altas habilidades em uma área pode enfrentar dificuldades em outra ou em acompanhar a dinâmica de uma sala de aula regular. “É um perfil muito heterogêneo. Tem aquele estudante devorador de conteúdo, que o material da escola para ele é sempre pouco, e tem o que está desmotivado porque não tem nada desafiador. Também há aquele que nem sempre tem boas notas, mas tem ideias originais e precisa ter possibilidades de manifestar a criatividade”, exemplifica a técnica pedagógica. 

Avaliação e atendimento

O protocolo de identificação de indicadores de superdotação pode ser aplicado em qualquer série na rede estadual, ou seja, do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. Caso o aluno já tenha sido identificado com AH/SD na rede municipal, o atendimento é continuado.

Segundo Gisele, dos quase 12 mil estudantes que fazem parte desse grupo em 2026, cerca de 20% não estão sendo atendidos pela educação especial. A situação, relata, é comum entre estudantes do 2º ou 3º ano do Ensino Médio, que começam a trabalhar nessa etapa. 

“Tem outro perfil que são alunos monitores, ou que participam do Ganhando o Mundo [programa de intercâmbio criado pelo governo estadual], também junta com pré-vestibular… Então são muitas atividades e eles acabam tendo que escolher o que vão frequentar”, diz. 

O Paraná concentra o maior número de estudantes com altas habilidades e superdotação em idade escolar do Brasil. Segundo o Censo Escolar 2025, 15.659 alunos com esse perfil estão matriculados em escolas públicas e privadas em todo o estado, à frente de São Paulo (5.660 alunos) e Rio de Janeiro (4.012). 

Desde 2014, o Ministério da Educação (MEC) deixou de exigir laudo médico ou teste de QI para o reconhecimento das altas habilidades e passou a considerar a avaliação pedagógica, como a criada pela Seed, como principal critério.

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