Um alerta emitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que foi identificado um caso de H1N2 no Paraná. Trata-se de uma mulher de 22 anos, que trabalha em um frigorífico que abate porcos em Ibiporã, no Norte do estado. Um estudo de rastreabilidade da doença está sendo realizado e não há nenhuma evidência de que a transmissão tenha sido de suínos para humanos.

A mulher apresentou sintomas de gripe, foi medicada com oseltamivir (Tamiflu) e se recuperou. Houve registro de um outro caso suspeito no mesmo local de trabalho, mas não foi realizado exame capaz de comprovar a presença viral. No mundo, foram registradas apenas 26 confirmações de H1N2 desde 2005. O alerta da OMS avisa que a variante identificada tem potencial pandêmico, o que é comum em doenças causadas por vírus.

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A paciente apresentou sintomas no dia 12 de abril, procurou atendimento médico no dia 14 e a coleta para exames aconteceu no dia 16. O resultado apontou um vírus influenza A não subtipável. Por isso, o material foi enviado para Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), que fez o sequenciamento genético capaz de comprovar que se tratava de uma variante do H1N2, ou H1N2v.

Procurada, a Secretaria de Saúde do Paraná (Sesa) confirmou a situação, detalhando que a mulher mora em Nova Santa Bárbara e trabalha em Ibiporã. Destacou ainda que outro caso foi registrado no Paraná, em 2015, na cidade de Castro, sem maiores consequências. A Sesa também informou que está sendo realizada uma investigação epidemiológica e laboratorial em vários municípios da região Norte, envolvendo os trabalhadores do frigorífico e também outras pessoas que possam ter tido contato com contaminados.

Maria Goretti Lopes, diretora de Atenção e Vigilância da Sesa, conta que a infectada procurou o sistema de saúde e realizou exames por suspeita de Covid-19. O material foi testado no Laboratório Central (Lacen), que não encaixou o vírus em nenhum dos 15 tipos e subtipos que são mais comuns no chamado Painel Respiratório. A confirmação de que se tratava de H1N2 veio pelo trabalho da Fiocruz. Como se trata de doença de notificação obrigatória, a OMS foi avisada e pediu mais informações.

O trabalho de investigação, conta Maria Goretti, incluiu mandar profissionais para a região, que analisaram cerca de mil prontuários médicos e conversaram com dezenas de pessoas, avaliando também os procedimentos adotados dentro do frigorífico. A mulher contaminada mora em área urbana e não viajou nos últimos meses. Segundo a diretora de Atenção e Vigilância, a hipótese mais provável é de que a paciente tenha se infectado no local de trabalho. “Ela trabalha na última limpeza do animal, recém-abatido. A suspeita de que alguma secreção com o vírus na cabeça do porco chegou a ela. Geralmente não passa para humanos, mas pode acontecer. Por isso, se chama variante”, explica.

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A diretora ainda explica que, nessas situações, um dos principais aspectos a serem monitorados é se o vírus é “facilmente transmitido para outra pessoa” e que, até o momento, não há nenhum indício disso. Maria Goretti também destaca que os animais abatidos passam por uma série de processos, eliminando riscos para os consumidores. Ela também destacou que estão sendo analisados procedimentos adicionais para garantir a segurança de quem trabalha com o abate de animais.

A Sesa reforça que os vírus da gripe dos porcos normalmente não infectam seres humanos. No entanto, ocorreram infecções humanas esporádicas. Quando isso acontece, são chamados de “vírus variantes”. As pessoas infectadas apresentam sintomas semelhantes aos da gripe sazonal humana comum. Estes incluem febre, letargia, falta de apetite e tosse. Algumas também relataram coriza, dor de garganta, irritação nos olhos, náusea, vômito e diarreia. Os surtos de gripe entre esses animais ocorrem regularmente, semelhante aos surtos de influenza sazonal que ocorre entre as pessoas.

Os vírus da gripe que infectam porcos são diferentes dos vírus da gripe humana. Assim, geralmente não se espera que as vacinas contra a influenza humana protejam as pessoas contra vírus da influenza que normalmente circula nos porcos. Além disso, como os porcos são suscetíveis aos vírus da gripe aviária, humana e suína e eles podem ser potencialmente infectados com vírus da gripe de diferentes espécies (por exemplo, patos e humanos) ao mesmo tempo. Se isso acontecer, é possível que os genes desses vírus se misturem e criem um novo vírus. Esse tipo de mudança importante no vírus influenza A é conhecido como deslocamento antigênico. Se esse novo vírus causar doenças nas pessoas e puder ser transmitido facilmente de pessoa para pessoa, pode ocorrer uma pandemia de influenza. Foi o que aconteceu em 2009, com um vírus influenza A(H1N1) com genes suínos, aviários e humanos.

Investigação em animais

Rafael Gonçalves Dias, gerente de saúde animal da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), conta que depois da confirmação do H1N2 foi feito um processo de rastreabilidade em propriedades de Ibiporã e região e não foi encontrado nenhum problema significativo, nem em animais, nem em funcionários que lidam diretamente com porcos. Ele destaca que a gripe é muito comum entre suínos, sem representar geralmente risco de vida para o animal. E que a notificação dos casos em porcos não é obrigatória. O gerente enfatizou que não há motivo para o receio no consumo da carne e que a situação de Ibiporã não deve afetar a cadeia produtiva, tanto no mercado interno como nas exportações. “No momento, não há doença acometendo os animais do Paraná que represente perigo”, sustenta.

A veterinária Nicolle Wilsek, responsável pela cadeia de suinocultura na Federação da Agricultura do Paraná (Faep), enfatiza que vários animais têm gripe Influenza, que recebem números diferentes: em cavalos, por exemplo, é H1N7. Ela também ressaltou que o caso identificado não deve afetar o mercado – interno e externo -, pois o vírus não é transmitido por carcaça ou subproduto.

Histórico

A primeira identificação do H1N2 aconteceu na China, no final dos anos 80. Depois de uma década sem registros, foi confirmado em circulação entre 2001 e 2002 em vários países, como Canadá, Estados Unidos, Irlanda, França, Índia e Inglaterra. De lá para cá, não houve registro de grande quantidade de contaminados em um mesmo lugar. Tanto que nos últimos 15 anos foram apenas 26 casos no mundo.