Curitiba está encolhendo — ou, pelo menos, parando de crescer no ritmo de antes. Segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), a capital deve perder cerca de 97 mil moradores até 2050. Enquanto a metrópole estaciona na casa dos 1,8 milhão de habitantes, o interior do estado vive um fenômeno inverso: a ascensão das cidades médias.
Atualmente, o Paraná possui oito cidades com mais de 200 mil habitantes. Até 2050, esse grupo deve crescer com a entrada de municípios como Fazenda Rio Grande, Sarandi, Araucária e Toledo. Três das novas quatro cidades do grupo fazem parte de uma Região Metropolitana.
A região de Maringá é um dos maiores exemplos desse “boom”. Só a vizinha Sarandi deve saltar de 130 mil para mais de 200 mil moradores nos próximos 25 anos.
O processo de crescimento dessas cidades, como Sarandi, envolve fenômenos chamados de desmetropolização e de interiorização, caracterizados pela preferência por cidades médias e pequenas ao invés das capitais ou de cidades maiores.
De acordo com a professora e pesquisadora Jaqueline Telma Vercezi, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), o crescimento dessas cidades está associado a fatores como qualidade de vida e políticas públicas locais.
Vida no interior
A designer Jéssica Ribeiro, de 34 anos, faz parte dessa estatística. Nascida em Curitiba, ela trocou a capital pelo interior e hoje vive em Maringá. Para ela, a mudança foi uma questão de escala.
Ribeiro saiu da capital para cursar Medicina em Corumbá (MS) e, depois, decidiu permanecer fora ao transferir a matrícula do curso para Maringá. Aos 34 anos, ela precisou adaptar a rotina a um ritmo diferente, mesmo vivendo na terceira maior cidade do Paraná.
“Parece haver mais espaço para perceber o impacto do que você faz na comunidade. Você deixa de ser apenas mais uma pessoa dentro de uma estrutura enorme e passa a sentir que tem espaço para construir sentido no que faz”, afirma. As únicas saudades, segundo ela, são a família e a gama de opções culturais da capital.
Ainda em adequação ao novo estilo de vida, Jéssica considera novas mudanças no futuro, especialmente por causa da residência médica, mas sem preferencia pela capital. “Talvez escolha um lugar mais próximo [dos pais], como o litoral do Paraná ou até Santa Catarina. Gosto muito do sossego, da proximidade com a natureza, então imagino meu futuro em lugares que tenham esse ambiente”, conta.
Protagonismo das cidades médias
Apesar da mudança, para Jéssica, Curitiba não perde em relevância. Para a pesquisadora da UEL, o movimento de saída das grandes cidades não representa necessariamente a ruína delas. “A cidade e a metrópole não estão deixando de existir. O número indica que as políticas públicas estão sendo fomentadas em municípios menores e médios e, consequentemente, atraindo essa população”, explica Jaqueline Vercezi.
Segundo o Leonildo Souza, chefe do Departamento de Estudos Populacionais e Sociais do Ipardes, o motor desse crescimento são as migrações de curta distância. Jovens em idade produtiva estão saindo de cidades muito pequenas para centros médios da própria região, que já oferecem bons hospitais, faculdades e empregos.
Outro fator é o financeiro. Enquanto capitais como Curitiba apostam na verticalização (construção de muitos prédios altos para aproveitar o pouco espaço), as cidades do interior ainda conseguem crescer para os lados. Isso significa terrenos mais disponíveis e preços de moradia mais acessíveis.
Dores do crescimento
Crescer rápido demais, porém, traz riscos. A pesquisadora Jaqueline Vercezi alerta para o perigo dos “vazios urbanos”: quando novos condomínios são construídos muito longe do centro, obrigando a prefeitura a levar asfalto, luz e esgoto para áreas isoladas, o que encarece a cidade.
A análise por faixas etárias ajuda a projetar quem deve ocupar esses espaços. “A projeção indica que os municípios serão cada vez mais urbanizados e mais envelhecidos, portanto haverá menos crianças. Isso sinaliza uma pressão menor sobre a educação em termos de quantidade”, explica Leonildo Souza.
Mesmo com a redistribuição da população, as grandes cidades não deixam de concentrar investimentos. Segundo o pesquisador do Ipardes, o horizonte de 25 anos da projeção permite antecipar obras e direcionar recursos para atender às demandas de uma população mais urbana, envelhecida e distribuída de forma menos concentrada no estado.
