A crise estrutural do “apagão de professores” pressiona o Paraná e expõe uma diferença significativa entre o discurso do Governo do Estado e a realidade de alunos em sala de aula da rede pública. Enquanto a gestão estadual aposta em salários iniciais competitivos, chamamento de profissionais e expansão de matrículas na Formação Docente para conter o desfalque, estudantes do ensino médio ouvidos pela reportagem da Tribuna do Paraná disseram enfrentar um cenário de restrição drástica de disciplinas, falta de base para o vestibular e problemas crônicos de infraestrutura.

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O choque entre o discurso institucional e o cotidiano escolar revela que os gargalos da educação paranaense vão muito além da escassez numérica de educadores, atingindo o coração da formação e das oportunidades da juventude.

O vestibular sem base e a maratona dos fins de semana

A vulnerabilidade da ponta final do sistema educacional é narrada por quem frequenta as carteiras da rede estadual. Estudantes do curso técnico em Formação Docente de uma escola da Região Metropolitana de Curitiba relatam que a opção pelo curso ocorreu muitas vezes pela restrição de alternativas impostas pelas mudanças na grade curricular.

“Com o Novo Ensino Médio, a maior parte das matérias foi tirada. (…) Eu escolhi o Magistério porque foi o caminho menos distante, mas foi bem desfalcado: as matérias que eu precisava ter para o vestibular, eu não tenho” , relata a estudante Mariana Santos*, de 18 anos.

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Segundo as alunas, a matriz curricular atual do terceiro ano técnico limita as disciplinas tradicionais a Português, Física e Matemática, suprimindo componentes fundamentais como Biologia, Química, História, Geografia, Filosofia e Sociologia. Sem o amparo da grade escolar regular, a busca por igualdade nas universidades públicas exige sacrifícios extenuantes. Mariana utiliza os recursos do programa federal de incentivo à permanência (Pé de Meia) para comprar um tablet e custear as passagens de ônibus até Curitiba, onde frequenta um cursinho pré-vestibular gratuito mantido por uma ONG aos fins de semana. “Estudo doze horas no sábado e doze horas no domingo para tentar compensar o que a escola não dá” , conta.

Plano de aula fraco e infraestrutura ruim

Para as estudantes, a precarização também se manifesta na condução pedagógica e nas condições físicas das unidades de ensino. Por serem estudantes da Formação Docente, as alunas passaram a aprender mais sobre didática, plano de aula e metodologia – bases que agora elas utilizam para avaliar a qualidade do próprio Ensino Médio que estão estudando.

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“Tem professor que simplesmente chega na sala, lê o slide, senta e fica no celular. E depois jogam a culpa na gente, dizendo que o aluno é quem não quer estudar. (…) Além disso, a nossa infraestrutura é muito ruim. Semana passada a água alagou tudo, o muro está para cair faz um tempão e ninguém arruma porque fica um jogo de empurra entre a direção, o Estado e as empresas de manutenção” , relata a estudante Adriana Carolina*.

Falta de professores gera alerta na educação

Para lideranças do setor educacional, o abismo relatado pelos estudantes evidencia que o “apagão” da educação não se resume apenas à falta numérica de professores, mas à perda de suporte institucional e de sentido na formação. Fundador do Instituto Destino Brasil e idealizador do movimento Geração Professor, Ademar Batista Pereira acredita que o país enfrenta um problema geracional profundo, onde o desafio central é resgatar o respeito e as condições de trabalho na base.

“A educação tem uma gravidade maior porque está faltando professor para as crianças, o que eu chamo de ‘pequenos humanos’. E as crianças não aprendem com o computador. Os seres humanos precisam de seres humanos, de relacionamento. A escola pode dar mais ambiente de trabalho para a professora, não pode deixar ela sozinha na sala com 30 jovens” , aponta Pereira.

No ensino superior, o alerta se estende para as próximas décadas. O decano da Escola de Educação e Humanidades da PUCPR, Cesar Candiotto, ressalta que projeções do setor indicam o risco de um apagão severo de docentes qualificados até 2030 e 2040. Para tentar mitigar essa carência e aproximar os jovens da universidade, a instituição criou a Bolsa Magistério, oferecendo 50% de desconto nas licenciaturas para egressos do ensino técnico.

Apesar das iniciativas institucionais e das bolsas de incentivo, as alunas que enfrentam a ponta do sistema deixam um recado incisivo sobre o abismo entre a propaganda e a prática. “O governo posta que o Paraná tem a melhor educação do Brasil, mas eles não olham de verdade para a realidade das escolas. Em folha e postagem é lindo, mas na prática não é o que acontece. Tiraram matérias que ensinam o aluno a ter ponto de vista crítico. Não é só um problema para o Enem, é uma questão de formação para a vida” , conclui Mariana*.

*Os nomes das estudantes foram modificados para proteger a identidade delas.

SEED diz que segue diretrizes do MEC

Procurada para comentar as queixas das alunas sobre a restrição de conteúdos e as dificuldades de preparação para o vestibular, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) disse que a matriz e a proposta pedagógica do Curso de Formação de Docentes Integrado ao Ensino Médio seguem rigorosamente a legislação federal e as diretrizes do Ministério da Educação (MEC).

Em nota oficial, a pasta justificou que, por se tratar de uma habilitação profissional que confere dupla certificação, a organização curricular prioriza tanto a Formação Geral Básica quanto o Itinerário Técnico Profissional, com foco em metodologias de ensino de matemática, língua portuguesa e estágio supervisionado.

A Seed-PR esclareceu que as turmas concluintes em 2026 ingressaram na 1ª série em 2024, cumprindo o plano curricular homologado sob as diretrizes federais vigentes à época. Segundo a secretaria, a implantação das novas matrizes decorrentes da Lei Federal nº 14.945/2024 só começou a ser feita de forma escalonada a partir de 2025, respeitando a transição legal. A pasta destacou ainda que oferece suporte suplementar aos estudantes por meio de plataformas educacionais como a Redação Paraná, alinhada aos critérios de vestibulares e do Enem.