Um dos setores mais impactados pela pandemia do coronavírus, o varejo está passando por uma fase de reinvenção. “Aquele comércio autônomo, baseado na experiência do cliente ver uma vitrine, se interessar por um produto, entrar na loja e comprar, mudou. Agora, para vender, o comerciante entendeu que precisa estar onde o consumidor está”, diz o presidente da Associação Comercial do Paraná, Camilo Turmina.

A pandemia acelerou um processo de digitalização dos negócios, algo que, para muitos empresários, ainda era um plano futuro. Uma das maiores ferramentas para vendas on-line no país, a curitibana Olist, viu o número de seus clientes disparar desde março, quando começaram as primeiras restrições ao comércio no Brasil.

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Plataforma que funciona como uma “loja de departamento” dentro dos marketplaces (grandes sites de compra como Americanas.com, Mercado Livre e outros), o Olist busca ajudar o lojista a ingressar no comércio on-line de uma maneira simples, sem que, para isso, a marca precise ter um site ou um e-commerce próprio.

Hoje, a ferramenta tem mais de 45 mil clientes, mais de 50% deles no Olist Shops, que completou cinco anos em 2020. Com ela, o comerciante pode criar uma vitrine virtual gratuita de seus produtos para ser facilmente compartilhada pelo WhatsApp ou pelas redes sociais. “O Olist Shops foi mais uma inovação que trouxemos para contribuir para as vendas dos lojistas de todo o país, a grande maioria deles pega de calça curta, sem nem sequer ter considerado a opção de ingressar no mercado digital”, conta o fundador da plataforma, Tiago Dalvi.

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A ferramenta foi uma das soluções pensadas para facilitar o comércio via WhatsApp, uma das maneiras mais utilizadas por comerciantes de todo o Brasil para manter as vendas, principalmente quando as paralizações das atividades não essenciais se tornaram obrigatórias. Segundo dados do Datacenso, o aplicativo foi a principal estratégia de vendas do lojista curitibano no segundo trimestre deste ano, com 52% de utilização, seguida pelo telefone (33%) e pelo e-commerce (21%).

Para o economista Claudio Shimoyama, CEO do Grupo Datacenso, a pandemia pegou muitos lojistas de surpresa, muitos deles sem condições de investir em plataformas digitais e, principalmente, sem qualquer conhecimento para iniciar um e-commerce. “O WhatsApp saiu na frente como alternativa para as vendas por já ser um aplicativo de ampla utilização com o qual o lojista já está habituado”, observa.

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Um ponto importante a ser considerado é que, em Curitiba, por exemplo, a grande maioria do varejo é composto por micro e pequenos negócios (95%), com 78% deles distribuídos pelos bairros da cidade. “Para muitos desses comerciantes, digitalizar os seus negócios nunca foi uma opção. Agora, todo o comércio está passando por um momento de reflexão e mudança de comportamento. O empresário tem o desafio de entender que esse processo digital vai continuar e que ele precisa criar formas de se relacionar com seu cliente para além do balcão”, analisa Shimoyama.

Estar conectado é fundamental para os negócios

Empresas que já estavam conectadas conseguiram passar pelo momento mais tenso da pandemia com algum sucesso em vendas. É o caso das Lojas Gaúchas, tradicional rede de magazines do Oeste do estado, com sede em Cascavel e duas filiais em Foz do Iguaçu. Há sete anos, a empresa vem dando seus passos nos canais digitais, porém sem um site de vendas próprio.

Com início da pandemia, a rede ampliou sua comunicação pelas redes sociais, criando estratégias de venda direta pelo WhatsApp e telefone, como liquidação virtual e atendimento com hora marcada nas lojas. “Nós nos adaptamos a este momento com um grande esforço de comunicação, pensando em assuntos e soluções que pudessem atingir nossos clientes que já não estavam mais nas lojas, mas dentro de suas casas”, conta Andressa Kucinski, diretora de compras e marketing das Lojas Gaúchas.

Andressa Kucinski, diretora da rede Lojas Gaúchas de Cascavel, no Oeste do estado. Foto: Divulgação.

Investimento em treinamentos para a comunicação via aplicativos e redes sociais, entregas sem custo para o cliente e campanhas estratégicas foram algumas dessas soluções. No Dia das Mães, por exemplo, houve todo um esforço da empresa e seus colaboradores para impulsionar as vendas em um tipo de ação personalizado.

“Na impossibilidade de entregarem os presentes às mães, tornamos este momento especial, com um cartão personalizado e a opção de uma música que o cliente escolhia e a mãe ouvia por meio de um QR Code na embalagem. Tivemos muitos retornos emocionados e um Dia das Mães 20% melhor em vendas que o de 2019”, revela Andressa. No entanto, assim como todo o setor, as Lojas Gaúchas acumularam perdas de venda no primeiro semestre de 2020. “As ações contribuíram para que as quedas não fossem maiores”, sinaliza a diretora da rede.

Perseverança e contas na ponta do lápis

As restrições de horários e formas de operação, além da paralisação das atividades como medidas de garantia do isolamento social, ao longo dos últimos meses, afetaram diretamente o comércio, que atingiu recordes de retração. Segundo um levantamento da Fecomércio Paraná, os cinco primeiros meses de 2020, de janeiro a maio, foram os piores do varejo nos últimos oito anos, atingindo uma queda de -10,83% em vendas.

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A marca é superior a 2016, ano em que o comércio paranaense acumulou um saldo negativo de -7,6% no período, até então o pior índice do setor nos últimos anos. “Percebemos duas grandes questões para isso. A primeira é a permissão para o comércio estar aberto e em que condições, que foi o grande entrave para o varejo em abril deste ano. A segunda é econômica. Somado às restrições de funcionamento, existe o fato de estarmos passando por um momento de enorme diminuição de renda da população”, avalia Rodrigo Rosalem, diretor do Sistema Fecomércio Paraná.

Ou seja, mesmo com a permissão de abertura, haverá clientes para comprar nas lojas? Para Rosalem, a retração do poder de compra faz o consumidor reavaliar suas prioridades. “Estamos acompanhando um movimento de queda em todas as categorias do varejo, exceto supermercado e farmácia, que mantém índices de crescimento em vendas e empregos durante a pandemia. A incerteza em relação ao futuro atinge tanto o consumidor, que se concentra em itens mais básicos, como também o comerciante, que não vê perspectivas no curto prazo. Mas acreditamos que 2021 possa ser um ano mais promissor”, comenta.

Empresário do ramo joalheiro, o presidente da ACP, Camilo Turmina, avalia que o momento é de perseverança, dedicação e ajuste fino das contas. “O lojista precisa reduzir contas e ter a contabilidade na ponta do lápis para passar por este período que exige muita responsabilidade. É hora de sonhar menos e manter os pés no chão para manter os negócios em pé, com as readaptações necessárias, mesmo para quem está acostumado a ficar apenas atrás do balcão, como eu sempre fiquei”, pondera.

Como a pandemia afetou o comércio do PR