Entre 2015 e 2025, 667 agências bancárias fecharam as portas no Paraná. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Curitiba foi a cidade que mais perdeu unidades no período, com 192 agências encerradas. Na sequência aparecem Londrina (37), Maringá (27), Cascavel (15) e Foz do Iguaçu (10).
Ao todo, 237 municípios paranaenses perderam pelo menos uma agência bancária ao longo da década. Até o fim de 2025, cerca de 176 cidades do estado não tinham nenhuma agência bancária física em funcionamento.
No Brasil, o levantamento aponta que 2.649 municípios não possuíam nenhuma agência bancária. Juntos, eles concentravam 19.670.525 habitantes sem uma unidade física em sua cidade de residência. No Paraná, essa parcela correspondia a cerca de 450 mil pessoas, o equivalente a 2,29% do total nacional.
A expansão dos serviços digitais está entre os principais fatores relacionados ao fechamento das agências. Segundo dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), cerca de 83% das transações bancárias realizadas no Brasil em 2025 ocorreram por canais digitais, como celular e internet banking. Somente as operações feitas por celular somaram 187,5 bilhões.
Para a administradora Alexandra Andrade de Almeida Cardoso, docente dos cursos da área de Gestão do Centro Universitário Integrado, de Campo Mourão, a redução das agências não é consequência apenas da digitalização, mas também de uma mudança no modelo de atendimento dos bancos. Como as maiores cidades concentram mais clientes e unidades físicas, elas também registram parte significativa dos fechamentos.
“Se uma parcela cada vez maior das operações pode ser realizada remotamente, manter uma estrutura física com aluguel, funcionários, segurança, equipamentos e custos operacionais elevados se torna menos necessário para os bancos. Não digo que a tecnologia é a culpada. Ela é, na realidade, um vetor de transformação”, explica a especialista.
Novo comportamento do usuário
A administradora Alexandra Andrade ressalta que outra consequência está na especificação do atendimento presencial. As operações mais simples passaram para os canais digitais, enquanto as agências concentraram serviços de maior complexidade ou situações em que o cliente precisa de orientação presencial.
Com isso, mesmo as unidades que permanecem abertas podem concentrar um número maior de clientes sem necessariamente registrar aumento no volume de operações. A digitalização reduziu a frequência das agências para serviços de rotina e alterou a forma como os usuários se relacionam com os bancos. “O problema aparece principalmente para os consumidores que não conseguem fazer essa migração para o ambiente digital”, comenta.
A mudança afeta principalmente idosos, beneficiários de programas sociais e parte da população rural. “Essas pessoas podem enfrentar barreiras relacionadas à conectividade, à familiaridade com aplicativos, à segurança digital e dificuldade de realizar determinadas operações sem auxílio presencial. Nesses casos, a ausência da agência física pode aumentar o custo de acesso ao sistema financeiro. Esse custo pode ser o do deslocamento até outra cidade, o tempo perdido e até a necessidade de depender de terceiros”, completa.
Segundo a administradora, a digitalização também pode criar uma forma de exclusão financeira digital, na qual a pessoa mantém uma conta bancária, mas encontra dificuldades para utilizá-la de maneira efetiva. “O ganho de eficiência é inegável, mas o desafio é garantir que essa transformação não deixe para trás justamente quem mais precisa de atendimento presencial”, completa.
Alternativas ao modelo tradicional
Para a especialista, o fato de um município não possuir uma agência física não significa que a população esteja completamente sem acesso aos serviços financeiros. “O Banco Central regulamenta e acompanha os correspondentes bancários justamente porque eles funcionam como uma extensão da rede de atendimento das instituições financeiras, permitindo serviços como pagamentos, recebimentos e outras operações”, aponta.
Essa rede complementar inclui caixas eletrônicos, lotéricas, canais digitais e, em alguns casos, cooperativas de crédito, que têm ampliado sua presença no Paraná. Segundo dados do Sistema Ocepar, as cooperativas já estão presentes em 376 dos 399 municípios paranaenses.
Para o diretor executivo da cooperativa Unicred União, Marcelo Vieira Martins, essa cobertura mostra o papel do cooperativismo como agente de desenvolvimento e porta de entrada para o sistema financeiro. “Em quase 20% das cidades a cooperativa é o único lugar onde o brasileiro recebe atendimento presencial se quiser abrir uma conta, acessar crédito para alavancar um negócio ou simplesmente para fazer um investimento”, explica.
Embora não atuem exatamente como os bancos tradicionais, as cooperativas também oferecem tecnologias digitais para a movimentação financeira. A Unicred, por exemplo, mantém a iniciativa Agência Mais, que funciona como uma agência virtual por WhatsApp, telefone, e-mail e chat. “A diferença é que do outro lado do atendimento não tem uma máquina, e sim um ser humano”, explica. A iniciativa tem tempo médio de resposta inferior a um minuto.
Apesar do avanço dos canais digitais, a estrutura física ainda ocupa um papel importante na relação entre instituições e clientes, já que a transição também depende da preferência de cada usuário. “A agência física fortalece a sensação de pertencimento e de segurança. Na hora de decidir assuntos relevantes, você não quer falar com um gerente longínquo que nunca viu nem interagir com um menu impessoal. Você busca uma consultoria olho no olho”, acrescenta o diretor.
