A violência contra médicos tem crescido de forma acelerada no Paraná. Um levantamento do Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) mostra que, entre outubro de 2023 e o início de junho de 2026, foram registradas 217 denúncias de agressões, assédios e intimidações contra profissionais no estado. A escalada é evidente: em 2023, foi apenas um caso; em 2024, o número saltou para 27; em 2025, disparou para 132; e somente nos primeiros meses de 2026, já são 57 ocorrências — uma denúncia a cada três dias.
As agressões verbais lideram os registros, com 87 casos, seguidas por assédio moral, com 71 notificações. Cerca de 80% das denúncias partem de instituições públicas de saúde, justamente onde atua a maior parte dos médicos generalistas.
Um dos casos que ilustra esse cenário é o do médico Átila Vianna de Mattos, com 51 anos de profissão, agredido por duas mulheres dentro do próprio local de trabalho — só porque havia negado um atestado médico. Após atender uma paciente que reagiu mal a uma explicação sobre o próprio diagnóstico, ele foi surpreendido minutos depois pela companheira dela, que exigia o documento. “E quem você pensa que é para poder negar um atestado para a minha companheira?”, teria gritado a mulher, antes de agredi-lo fisicamente, arrancando seu estetoscópio e quebrando seus óculos.
Aposentado e atuando na UPA, Átila destaca a importância de romper o silêncio diante da violência. “Você se sentiu ameaçado? Você sentiu que foi assediado? Crie o BO, acione a prefeitura, o governo, quem for, para que leve a coisa pra frente. Não dá mais para suportar”, revela o profissional.
Já a médica Edeli dos Santos Pepe, com 25 anos de atuação no serviço público, também soma um longo histórico de episódios de violência. “Já sofri agressão, tanto física quanto xingamentos. Já recebi ameaças por WhatsApp dizendo que iam quebrar minhas pernas”, relata. Segundo ela, a raiz do problema costuma estar na frustração da população com a demora no atendimento. “O paciente acha que toda a culpa de tudo que acontece é do profissional de saúde. Se a fila tá demorada, ele acha que quem tá lá não tá trabalhando”, explica. Para Edeli, a violência não resolve nada e ainda agrava a própria demora que motivou a agressão: “Vai parar tudo. Aquele que já estava atrasado vai atrasar mais ainda.”
A gravidade do cenário levou o CRM-PR a intensificar sua campanha de valorização e proteção ao médico generalista, com a instalação de outdoors em seis cidades paranaenses — Curitiba, Londrina, Maringá, Cascavel, Guarapuava e Foz do Iguaçu — reforçando a mensagem de respeito aos profissionais e a importância de denunciar casos de violência nos serviços de saúde.
O cenário estadual segue a tendência nacional: segundo o Conselho Federal de Medicina, o Paraná é o segundo estado com mais agressões contra médicos do país, dentro de um total de 4.562 boletins de ocorrência registrados no Brasil apenas em 2024 — média de 12 profissionais agredidos por dia.
Sesa diz que repudia atos de violência
A Tribuna do Paraná procurou a Secretaria de Estado da Saúde do Paraná (Sesa) que afirmou repudiar veementemente qualquer ato de violência, físico ou verbal, contra médicos e demais profissionais de saúde no exercício de suas funções, e destacou que a integridade de quem atua na ponta do atendimento é prioridade para garantir um serviço público humanizado e eficiente.
Segundo a pasta, o combate à violência exige atuação integrada, motivo pelo qual mantém diálogo constante com as forças de segurança. A Sesa reforçou ainda que as unidades próprias do Estado contam com diretrizes de acolhimento e fluxos de orientação às equipes para o registro imediato de boletim de ocorrência junto à Polícia Civil em casos de desacato, ameaça ou agressão, garantindo suporte institucional ao trabalhador.
