Foi com espírito despojado que Eliane Sampaio idealizou sua casa de campo em Ibiúna, a 70 quilômetros de São Paulo. Em meados de 1980, a arquiteta comprou um terreno em declive em um dos condomínios recém-criados na região. O mato que crescia ao longo da estrada não a assustou – ao contrário, foi o que mais a atraiu.

Lá embaixo, a visão da represa deixou Eliane tão encantada a ponto de ter deixado para depois o projeto da casa. "No meu pensamento, já tinha feito o negócio mais importante, que era ter comprado essa vista, um pedaço desse chão", lembra.

A casa principal, plantada na porção mais elevada do terreno, atrás do portão de entrada, veio em razão da necessidade de um teto para abrigar a família. "Fui invadindo a propriedade aos poucos… Quando vi que só um teto não bastava para acomodar meus filhos, comecei a pensar em outros blocos de construção no caminho até a casa que existia lá em cima, bem mais simples do que a que existe agora", revela.

Assim surgiu o bangalô para os hóspedes, com quatro suítes. E, junto com ele, em um platô acima, a área de lazer, onde Eliane ergueu a construção de dois andares – no térreo, a cozinha com mesas para almoço, e no andar superior, a sala de jogos.

Reforma "doida"

Mas a casa antiga não saiu do lugar. Continua carregada de lembranças e abriga ainda hoje o casal de proprietários e seus filhos. A arquiteta fala do projeto com a autoridade de quem definiu o lugar de cada ambiente e objeto, ano após ano. "A casa original era de madeira e pequena. É a base da atual", aponta Eliane. Foi nela que exercitou sua imaginação, realizando uma reforma ?doida?, como gosta de frisar. "Criei uma casa dentro da outra", sublinha Eliane. "A nova "casca’ é maior, e nela encaixei a varanda e a cozinha anexa, além de reorganizar os quartos".

O château, pequeno se olhado de fora, tem espaço suficiente (cerca de 110 metros quadrados) para reunir cinco quartos – quatro deles suítes – , a cozinha, a sala de estar com lareira (que surgiu na lateral, onde ficava a garagem) e outra sala com mesa e sofás, além da varanda em L, com vidraças e madeira nas estruturas. Nesse terraço, a arquiteta teve de projetar outra tesoura para sustentar o telhado recém-criado, que imita os reticulados do teto e das paredes de lambril branco (com estrutura de garapa ou peroba, para 3 águas, com Wilson, carpinteiro da região).

A surpresa fica por conta da coleção de canecas, jarras, potes e garrafas de leite antigos, que preenche a prateleira no teto alto, enquanto o mobiliário, em ferro e madeira (cadeiras Gurupi sem o tecido, na Amazônia Fibras Naturais), faz outro proveito de peças de demolição, caso do pé da máquina de costura transformado em aparador.

Ainda na lateral, Eliane fez surgir um anexo à cozinha para instalar o fogão a lenha e o de ágata. O teto de uma água, anguloso, parece comprimir o ambiente. "Fiquei com receio de que ficasse apertado, mas a porta lateral é capaz de arejar o espaço", garante a arquiteta. Além da ventilação, a porta também solucionou o problema da iluminação.

Temperatura

O rearranjo dos quartos ampliou o espaço interno nos fundos. Eliane pôs abaixo as paredes da área íntima e criou um corredor central. A partir daí, surgiram os quatro dormitórios (dois de cada lado do corredor), além de uma suíte, no extremo da casa.

A arquiteta ressalta que a sensação térmica melhorou (menos frio no inverno, mais arejado no verão) ao utilizar placas de isopor (pela Lajepor, com 5 cm de espessura) e espuma entre as paredes feitas de compensado (espuma vendida na Leroy Merlin, preço sob consulta). Além disso, a lareira mantém a temperatura agradável nos cômodos próximos dos janelões da varanda (da Brunilo).