Brasília – Centenas de pessoas, muitas usando máscaras de políticos que já defenderam publicamente a legalização da maconha, como o governador Sérgio Cabral e o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), participaram neste domingo (6) de manifestação na orla de Ipanema, zona Sul da cidade. Cabral e Gabeira não compareceram à chamada Marcha da Maconha.

Em cerca de 200 cidades de 40 países ocorreram manifestações semelhantes, simultaneamente, segundo os organizadores. Na caminhada, uma das participantes, a professora Luciana Crespo, afirmou que a legalização acabaria com um cenário de hipocrisia social.

"A sociedade ganha a partir do momento em que ninguém mais fingiria não ver que existe o uso da maconha ? com a legalização esse cenário mudaria", defendeu.

Já André Souza, morador de Ipanema, disse que passava pela praia na hora da caminhada e que é contra a descriminalização, pelo risco de os danos sociais serem ainda maiores. "Só com o álcool nossa sociedade já tem muitos problemas; se liberar outra droga, será pior ainda. O brasileiro não saberia como usar sem abusar", afirmou.

Em entrevista por telefone à Agência Brasil, Gabeira disse que embora manifestações como essa sejam legítimas dentro de um regime democrático, para que a descriminalização aconteça a polícia precisa, antes, estar mais bem preparada.

"A idéia não é a de ‘liberou geral’.  Em todos os lugares, quando ocorre a liberação, a polícia tem um controle superior da situação. Para que a liberdade individual seja garantida, de a pessoa usar o seu corpo como quiser, é preciso que o Estado se prepare para isso. Não podemos correr o risco de tomar uma decisão rápida e não estar preparados para manter o equilíbrio, que já é tão precário nas cidades brasileiras", argumentou.

Segundo o deputado, a polícia precisa passar por um processo de aperfeiçoamento, para que seja capaz de examinar o que se passa nas áreas onde ocorre o consumo e para elaborar um plano de contenção para os setores que vivem do tráfico atualmente. De acordo com Gabeira, a partir da descriminalização, eles poderiam se deslocar para outras atividades criminosas.

O deputado citou os exemplos da Inglaterra, onde foram determinados bairros de tolerância ao uso da droga, e da Holanda, onde há locais específicos em que também se permite a utilização da maconha, mas que são monitoradas por um sistema de câmeras.

A psicóloga Eliene de Freitas, da Universidade Federal do Amazonas, especialista em dependência química, destacou, por outro lado, que ainda que a polícia tenha o controle da situação, pode não haver uso controlado de substâncias entorpecentes do ponto de vista da saúde.

"Não há como garantir que a liberação da maconha vai permitir um uso limitado, sem causar dependência química. A maconha é uma droga psicoativa e por si só tem esse potencial de causar dependência. Por isso, toda essa questão ainda exige muita discussão, para que sejam pesados os benefícios apontados por quem defende e os prejuízos que seu uso traz", afirmou.

Segundo ela, uma das principais conseqüências experimentadas pelos usuários da maconha é a síndrome amotivacional, que faz com que o úsuário não tenha estímulo para desempenhar diversas atividades de interação com o meio, desde as profissionais até o simples fato de sair de casa.