Um dia acaba, só não se sabe quando. É com essa convicção que o palestino Mohamed Hassan tenta dissipar a raiva que sente de israelenses quando pensa na morte de três sobrinhos. Combatentes de grupos radicais, eles morreram em confrontos com soldados de Israel nos últimos anos. Fazem parte da legião de jovens anônimos mortos, dos dois lados dessa história.

"Toda vez me revolto, mas no exterior não podemos fazer nada", desabafa Hassan, um próspero comerciante de Foz do Iguaçu. Hassan, de 60 anos, é vice-presidente da Sociedade Árabe Palestina Brasileira em Foz do Iguaçu.

Com quatro décadas de Brasil, costuma ser chamado de André, até mesmo pelos árabes e vê o governo do Hamas como uma etapa possível para que os palestinos recuperem territórios. Os palestinos de Foz preferem a discrição para falar do Hamas. O silêncio se faz necessário dentro de uma colônia árabe diversas vezes tratada como protetora e financiadora de movimentos terroristas. "Na comunidade, não faz diferença se a pessoa é Fatah ou Hamas", afirma Hassan.

É mais fácil encontrar em Foz do Iguaçu partidários e defensores da Fatah, o partido criado por Yasser Arafat. Mas mesmo entre eles a vitória do Hamas não surpreendeu. Muitos até trocariam de lado. "Sou Fatah, mas se pudesse votaria no Hamas", diz o comerciante Youssef Abu Ali, de 38 anos. Membro do partido perdedor, torce para que os adversários não enveredem para a corrupção. A tríplice fronteira com o Paraguai e a Argentina começou a receber árabes muçulmanos, a maioria de origem libanesa, a partir dos anos 1950. No lado brasileiro, estima-se que vivam 12 mil. Muitos moram na cidade, mas trabalham em Ciudad del Este, donos de lojas de eletroeletrônicos. Outros mantêm lojas de calçados e roupas do lado brasileiro da Ponte da Amizade. Os palestinos são um dos menores grupos, cerca de 200. A maioria veio há 10, 20 anos. Mas não se desligaram de seus parentes, que permaneceram no Oriente Médio. Ligam para eles quase todas as semanas, enviam dezenas de milhões de dólares por ano, ajudam no vaivém de árabes entre o Oriente Médio e o Brasil Ligações tão estreitas que fazem com que boatos sejam encarados como verdades. Quando o comerciante Saiel Bashar Yahya Al Atary foi preso em junho do ano passado, o jornal paraguaio ABC Color o destacou como "chefe do Hamas" na tríplice fronteira. O delegado Igor Romano de Paula, chefe do Núcleo de Migração da Polícia Federal (PF) em Foz, desmente a relação com o grupo radical. "Apreendemos muito material dele e não descobrimos nenhum vínculo com terrorismo", diz. "Não temos nenhum contato com Hamas, Hezbollah ou qualquer outro grupo armado", protesta o xeque Taleb Jomha, da mesquita sunita Omar Ibn Al-Khatab.

Segundo ele, apesar de muitos ainda enviarem dinheiro para parentes no Oriente Médio, a comunidade é quem está precisando de ajuda. De fato, o aumento da fiscalização tem levado ao declínio o comércio em Ciudad del Este e há uma crescente invasão de chineses comprando os negócios das mãos dos árabes. Pai de cinco filhos, todos nascidos no Brasil, Dawas Aziz, de 53 anos, chegou em 1968. De mascate, virou comerciante e, com a riqueza que produziu aqui, pode viajar todos os anos para o Oriente Médio. Um de seus filhos, Amir, de 17 anos, não considera a causa palestina como sua. O que faria o pai se Amir decidisse virar um homem-bomba? A resposta de Aziz é direta: "Ele faz o que quiser. Antes o único recurso dos palestinos era virar um homem-bomba para vingar a morte de seu povo. Desta vez, o Hamas preferiu a democracia."