O ambiente de uma obra, por ser quase um reduto exclusivo de homens, sempre foi um espaço machista e cercado de piadas desnecessárias. Apesar disso, a missão constante de mudar essa condição fez com que a construtora MRV pensasse numa forma de levar um pouco de conscientização sobre temas como feminicídio, violência doméstica e machismo. Com a ajuda de duas advogadas, os trabalhadores podem conversar e entender que a mudança pode partir deles.

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A primeira palestra foi na obra do Rental Positivo, no bairro Campo Comprido, no último dia 8. As ações vão passar ainda por outras cinco obras ao longo de junho. “A ideia partiu da MRV, com o pessoal do jurídico, que procurava algum modo de fazer palestra sobre violência doméstica que chegasse ao pessoal das obras. Achamos a iniciativa genial, porque, do nosso ponto de vista, se mais empresas fizessem ações como essa já teríamos avançado na questão da violência contra a mulher e até mesmo do feminicídio”, considerou a advogada Lizandra Assis.

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Acompanhada de Thaise Mattar Assad, Lizandra teve a chance de entender, pelo menos um pouco, sobre como pensam os homens. “E isso é o que eu acho mais interessante nessa experiência, porque estamos acostumadas a falar muito com mulheres sobre isso, então poder falar com homens é muito diferente”.
Pela percepção das advogadas e até mesmo se somar aos dados da Justiça que, no ano passado, registrou pelo menos 131 denúncias de feminicídio termo que identifica os homicídios motivados por questões relacionadas ao gênero, além de conscientizar, as conversas com os homens podem também ajudar em outras denúncias.

Foto: Divulgação
Como o machismo, na maioria dos casos, está enraizado nos seres humanos, a busca das advogadas é mostrar, ainda que com exemplos mais simples, que isso pode mudar. Foto: Divulgação

“São sempre pais, irmãos, maridos, que podem estar envolvidos em alguma situação, não propriamente autores de alguma violência, mas como espectadores de algo, então se faz importante falarmos o quanto a denúncia é importante”, explicou Lizandra.

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Desde 2015, quando a Lei do Feminicídio entrou em vigor, o Paraná soma 551 processos judiciais contra agressores. O objetivo das palestras é conscientizar os homens sobre este assunto. “Ao mostrarmos os números de feminicídio, alguns homens têm até dificuldade de entender que uma traição não é motivo para chegar a este ponto. Destacamos que não estamos defendendo uma traição, mas que não precisa chegar a um fim dessa forma”.

Sobre as piadas, Lizandra contou que já ouviu comentários inversos vindos dos trabalhadores, o que se opõe ao tradicional: piada de pedreiro. “Quando a gente chega, a gente já é vista de forma diferente, porque somos duas mulheres e estamos cercadas de homens. Mas quando entregamos o material, eles brincam que ‘em casa são eles que apanham’”, disse.

E se fosse com você?

Joselmo trabalha há dez anos como pedreiro e diz que trata todas as mulheres com muito respeito. Foto: Atila Alberti
Joselmo trabalha há dez anos como pedreiro e diz que trata todas as mulheres com muito respeito. Foto: Atila Alberti/Tribuna do Paraná.

Como o machismo, na maioria dos casos, está enraizado nos seres humanos, a busca das advogadas é mostrar, ainda que com exemplos mais simples, que isso pode mudar. “A gente sempre tenta trazer para o lado de que poderia ser a filha, a irmã ou até mesmo a mulher de um deles. Não acho que seja um pensamento mais correto, porque os homens deveriam respeitar por sermos seres humanos como um todo, mas trazendo para essa realidade acaba tendo impacto diferente”, destaca Lizandra.

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O pedreiro Marcelo Virgílio, que já presenciou um caso de violência doméstica na família, contou que gostou de ver o tema sendo discutido dessa forma, pelos colegas de trabalho. “É um primeiro passo para mudar a situação, porque a sociedade ainda é muito machista. Mas a mulher hoje tem direitos que não tinha no passado. A mudança está acontecendo”.

Joselmo Leite, 35 anos, que trabalha como pedreiro há pelo menos dez anos, concorda com o colega de profissão. “Infelizmente, ainda vejo a necessidade de conscientizar. Tem muito machão por aí, achando que está por cima da carne seca. Mas, por exemplo, no meu círculo de amizades, a maioria já se conscientizou que a mulher tem o mesmo valor que o homem”, argumenta.

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“Eu tenho mãe, tenho irmãs, tenho amigas e as trato com respeito, assim como trato com respeito as outras mulheres, na rua e na obra. Aqui comigo trabalham pedreiras, engenheiras e estagiárias que não devem se sentir constrangidas só porque são mulheres. O que importa é o trabalho bem feito, não quem foi que fez”, diz.

Leite explica que é solteiro, mas tem namorada. Ele não gostaria de saber que ela foi maltratada na rua, desrespeita ou que está ganhando menos do que alguém que faz o mesmo trabalho. “Antigamente, era mais difícil falar sobre isso. Agora, a mídia fala bastante, as palestras… Nossa conscientização está melhor. A mulher passar com roupa curta, não quer dizer que podemos desrespeitar. Eu já vi muita coisa errada nesses dez anos trabalhando em obra. Mas não é todo mundo. Com mais informação, as pessoas acabam se respeitando”, conclui.

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Por fim, a advogada completa que um dos principais objetivos das ações é fazer com que os trabalhadores também sejam ativos na questão de ajudar com que, aos poucos, o machismo diminua. “O que a gente destaca é para que entre eles, durante as conversas comuns, sejam os homens que coloquem um fim nisso, tanto nas piadas, como na postura também. Um corrigindo o outro, este é o maior objetivo”, conclui Lizandra.

* Com colaboração de Alex Silveira.

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