Tecnologia

Tomografia sônica revela a saúde das árvores em Curitiba; saiba por que elas ainda caem

Imagem mostra notebook com equipamento específico ligado ao tronco de uma árvore
Secretaria Municipal do Meio Ambiente usa equipamento moderno para faz vistorias em árvores. Foto: Isabella Mayer/SECOM

Olhar para a copa de uma árvore ou para a solidez aparente de seu tronco nem sempre é suficiente para garantir a segurança de quem passa por baixo. No ambiente urbano, feridas invisíveis a olho nu podem comprometer a estrutura de exemplares históricos e colocar a população em risco.

O alerta sobre a fiscalização e os cuidados com o manejo ganha um contorno ainda mais urgente diante de episódios recentes que assustaram a capital. No dia 13 de junho, a jovem fonoaudióloga Ana Beatriz Cruz, de 22 anos, sofreu uma grave lesão na coluna ao ser atingida por um galho que se desprendeu na Praça Osório — acidente que comprometeu os movimentos de suas pernas e exigiu tratamentos complexos de reabilitação.

Pouco mais de um mês depois, uma árvore de grande porte desabou diretamente sobre uma estação-tubo na Praça Rui Barbosa, assustando passageiros do transporte coletivo. Em ambos os casos, as estruturas envolvidas não apresentavam sinais aparentes de degradação externa no tronco, reforçando a complexidade do monitoramento urbano.

Para diagnosticar o que acontece por dentro da madeira sem precisar cortar a árvore, a avaliação técnica conta com a tomografia sônica portátil: um equipamento não destrutivo que utiliza ondas de som para gerar um “raio-X” colorido em 2D e 3D do interior do tronco.

No entanto, o diagnóstico de alta precisão é apenas parte de uma equação complexa. Especialistas da Prefeitura Municipal de Curitiba e da Universidade Federal do Paraná (UFPR) alertam que a tecnologia não faz milagres sozinha e que ter uma árvore saudável não é garantia de que ela não vá cair durante eventos climáticos severos.

O funcionamento do tomógrafo baseia-se na física da propagação do som. Diferente do penetrômetro, que realiza apenas uma perfuração pontual e linear com uma agulha fina, a tomografia sônica cria um mapeamento visual completo da seção transversal do tronco.

O procedimento começa com a fixação de sensores ao longo da casca da árvore, posicionados a partir de indícios visuais identificados durante a vistoria de campo — como buracos, fungos ou cicatrizes no tronco. Com o auxílio de um martelo, o técnico bate em um dos pontos emissores.

A onda sonora percorre o interior do tronco e é recebida por todos os outros sensores. Como o som viaja mais rápido na madeira sadia e densa do que em áreas ocas, rachadas ou em decomposição, o computador cruza a velocidade do som e desenha um gráfico detalhado da saúde interna daquele ponto.

Engenheira florestal, doutora na área e professora do Departamento de Ciências Florestais da UFPR, Angeline Martini destaca que a tecnologia exige interpretação humana altamente especializada.

“O equipamento funciona como a tomografia em humanos: ele entrega um resultado, mas o diagnóstico da gravidade só o profissional capacitado pode dar. Na arborização de Curitiba, encontramos mais de 200 espécies, cada uma com densidade e características próprias. Sem o conhecimento da fisiologia da árvore e dos esforços a que ela está sujeita, a informação numérica não tem serventia”, pontua a professora.

Outro mito desmistificado pela engenharia florestal é a ideia de que qualquer árvore com cavidade interna precisa ser derrubada. O laudo do tomógrafo orienta a equipe técnica sobre intervenções que visam preservar o exemplar sempre que possível.

Entre as alternativas à remoção estão a poda de alívio de carga (que remove galhos estratégicos para diminuir a resistência ao vento), o escoramento ou a amarração da copa com cabos de aço.

“Trabalhamos com seres vivos que têm um ciclo de vida e não são eternos. Remover uma árvore no ambiente urbano é uma ação comum e necessária para garantir a segurança, mas o diferencial da nossa profissão é justamente balancear isso: intensificar os benefícios proporcionados pelas plantas garantindo a proteção da população”, explica a professora da UFPR.

Pedidos de corte e podas de árvores em terrenos particulares precisam ser feitos pelo Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental. Foto: Ricardo Marajó/SECOM (arquivo)

Por parte do município, a diretora de Licenciamento e Fiscalização da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), Érica Costa Mielke, explica que todos os dados coletados são inseridos no Sistema Integrado de Monitoramento Ambiental (SIMA).

A escolha de qual árvore passará pelo exame considera indícios de lesão, o valor ecológico da espécie — como a proteção à araucária — e a localização do exemplar. “Uma araucária comprometida dentro de um bosque, onde a queda não afeta ninguém, tem um nível de urgência diferente de uma localizada no centro de uma praça movimentada”, exemplifica Érica.

A diretora da SMMA faz ainda um alerta decisivo sobre os acidentes registrados na cidade: a queda de árvores na área urbana raramente está associada a doenças no tronco.

O perigo das reformas de calçada e o dano na raiz

Além dos eventos climáticos extremos, a intervenção humana inadequada é apontada como a principal vilã da instabilidade das árvores em Curitiba. Estudos da área revelam que a maioria das quedas registradas na capital ocorre por ruptura na raiz, e não no tronco — área onde o tomógrafo sônico não atua.

A ausência de canteiros adequados na base e o desconhecimento da população ao reformar calçadas comprometem a ancoragem natural das plantas.

“As pessoas acham normal cortar parte das raízes na hora de fazer uma obra ou reformar o passeio. A raiz é a sustentação física da árvore. Se ela é removida ou não tem espaço no solo para se desenvolver, a árvore perde o equilíbrio e vai cair por gravidade e problemas estruturais, mesmo estando 100% saudável”, alerta Érica Mielke.

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