Em 2025, o mercado de lifestyle gospel no Brasil movimentou cerca de R$ 21 bilhões, segundo relatório da Zygon Adtech, em parceria com a EIXO part of B&Partners. No Paraná, esse crescimento tem impulsionado a abertura de negócios voltados ao público cristão, que representa 88,9% da população entre católicos e evangélicos no estado, de acordo dados do Censo 2022.
Academias, lojas de vestuário, livrarias, pizzarias, restaurantes e até centros comerciais direcionados a esse público fazem parte de uma estratégia que alia identidade religiosa e consumo. A proposta tem atraído empreendedores que enxergam no segmento uma oportunidade de expansão, baseada também em valores compartilhados com os clientes.
Há 20 anos, Ewerton Silvério administra a Kadosh Veículos, uma revendedora de automóveis em Curitiba com identidade cristã assumida. Para ele, o crescimento do setor está diretamente ligado a um comportamento de consumo orientado pela fé. “Se eu for comprar algo, tem duas empresas do mesmo segmento e eu sei que um dos donos é cristão, eu vou conversar com ele primeiro. Não sei se vai dar negócio, mas vou tentar”, afirma.
Segundo o empresário, princípios como honestidade, transparência e o propósito de gerar valor ao próximo são fundamentais para sustentar os negócios ao longo do tempo. A identidade da empresa, inclusive no nome, reflete essa proposta. Filho de pastor, Ewerton explica que “Kadosh” significa “sagrado”, termo de origem aramaica que expressa os valores que orientam tanto a gestão quanto a vida pessoal.

A empresa surgiu em um momento de desconfiança no setor de revenda de veículos, marcado pela baixa credibilidade. Foi justamente esse cenário que motivou o empresário a adotar uma postura diferenciada, pautada em princípios éticos e na construção de confiança com os clientes.
Oportunidade e posicionamento
A proposta de alinhar negócios aos princípios da fé também impulsionou a mudança da rede de academias para a marca Sou Mais Cristo. Há cerca de dez anos no mercado, o CEO Patrick Baptista passou por uma conversão ao cristianismo e decidiu reposicionar a rede para atender a um público com valores semelhantes aos seus.
“Com o tempo, entendemos o que é ser uma academia cristã, um ambiente direcionado a Deus. Não é apenas para o público evangélico, é uma proposta voltada à fé”, explica a diretora-geral da rede, Michelli Graciano. A ideia é oferecer um espaço voltado ao cuidado com a saúde, incorporando elementos que dialogam com a espiritualidade.
Com estrutura equipada e espaços para aulas, a rede já soma cerca de 11 mil alunos. As unidades estão distribuídas entre Curitiba e a Região Metropolitana e contam com diferenciais como salas de oração, músicas de louvor como ambiente e atenção à conduta dos profissionais. Em algumas unidades, há ainda serviços agregados, como cafeteria e barbearia, sinalizando a ampliação da marca para um ecossistema de bem-estar com identidade cristã.
Segundo a direção, o modelo atende um público que não se sentia confortável em academias tradicionais. “Muitas famílias tinham dificuldade de frequentar esses espaços, seja pela música, seja por uma cultura muito focada na estética. Aqui, priorizamos saúde, qualidade de vida e o cuidado com o corpo como uma forma de adoração a Deus”, afirma Michelli.
Ambiente cristão atrai famílias
A proposta de criar um ambiente familiar também orienta a primeira vila gastronômica voltada ao público cristão no Paraná. Em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, os empreendedores Marcio Pereira e Vagner Darbi dos Santos inauguraram, em março, o Maná Food Park. O espaço reúne oito operações gastronômicas e já prevê expansão para até 12 nos próximos anos.

Antes da reformulação, o local abrigava restaurantes com foco em música ao vivo, mas vinha registrando queda de público. Com a entrada de Márcio como sócio, surgiu a ideia de reposicionar o espaço para atrair famílias. “Muitas vezes, o filho quer ir a um lugar e os pais preferem outro. Aqui, além de boa comida, conseguimos atender diferentes perfis no mesmo ambiente”, explica.
A inserção no nicho cristão, segundo os empresários, está diretamente ligada à definição de valores para o espaço: ambiente sem consumo de bebidas alcoólicas, sem linguagem ofensiva e voltado à convivência tranquila. “É uma identidade nossa ser cristão e buscar viver esses princípios no dia a dia”, afirma.
Já no primeiro mês de funcionamento, o espaço recebeu pastores, grupos de jovens e famílias de diferentes denominações, indicando potencial de crescimento. Para os empreendedores, o público cristão busca qualidade, mas também novidades. “Existe uma força muito grande no boca a boca. Quando surge algo novo, há interesse imediato, o que mostra que o modelo pode ser replicado em formatos menores”, avalia Vagner.
Na avaliação dos sócios, o mercado voltado ao público cristão no Paraná ainda é pouco explorado e deve apresentar novas oportunidades de expansão nos próximos anos.



