Patrimônio histórico

Herdeiros do arquiteto Rubens Meister questionam calçadão em frente ao Teatro Guaíra no MP

Implantação do calçadão na Conselheiro Laurindo, em frente ao Teatro Guaíra.
Implantação do calçadão na Conselheiro Laurindo, em frente ao Teatro Guaíra. Foto: Luiz Costa / SMMA.

A transformação do trecho da Rua Conselheiro Laurindo, entre a Rua XV de Novembro e a Amintas de Barros, em um grande calçadão de integração com a Praça Santos Andrade, abriu uma discussão técnica e jurídica. A proposta da Prefeitura envolve o nivelamento do piso e a ampliação do espaço para pedestres na frente do Teatro Guaíra. Contudo, a intervenção passou a ser questionada formalmente no Ministério Público do Paraná (MPPR) por herdeiros do arquiteto Rubens Meister — autor do projeto original do teatro — e pelo Centro de Estudos Defesa e Educação Ambiental (CEDEA).

Na representação protocolada no Grupo de Atuação Especializada em Meio Ambiente, Habitação e Urbanismo (GAEMA), a filha de Meister, Regina Pettersen Meister Marques, e a neta, Isabel Christina Meister Luz Marques, ao lado da associação, pedem a revisão do projeto executivo. O documento aponta preocupação com a substituição do pavimento por placas de pedra, a falta de continuidade gráfica com os mosaicos em petit-pavé da praça e o possível impacto visual e funcional na entrada principal do edifício, tombado em 2003. O grupo também requer a realização de audiência pública, com base no Estatuto da Cidade.

Por outro lado, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) afirma que o projeto garante acessibilidade e não retira a funcionalidade de embarque e desembarque do teatro. Segundo Daniela Mizuta, diretora de projetos do IPPUC, os veículos continuarão acessando a área interna sob a marquise nos dias de eventos.

“O acesso à rua interna sob a marquise continuará sendo feito pela Rua Alfredo Bufren com saída para a Rua XV de Novembro, que possuem guias rebaixadas para acesso específico à bilheteria e à entrada do Teatro Guaíra, independente de qualquer atividade na Conselheiro Laurindo. O trecho em frente ao teatro será um espaço de integração delimitado por meio-fio onde hoje é a passagem de carros, sem necessidade de cancelas”, explica Daniela.

O novo piso será feito em pedra natural com acabamento flameado. De acordo com o IPPUC, a escolha buscou durabilidade sem reproduzir falsamente o petit-pavé histórico. A sinalização do caminho dos carros sob a marquise será feita por meio de tonalidades diferentes na pedra e balizamento com floreiras e bancos.

A visão do IPPUC é compartilhada pela equipe responsável pelo projeto de restauração do próprio teatro. O arquiteto e urbanista Igor Spanger, avalia que o fechamento da via principal para carros traz ganhos para a circulação de público e segurança. “Quando fizemos o projeto de reforma do Teatro Guaíra, uma das primeiras ideias foi fechar essa rua para veículos e abrir para pedestres, integrando o teatro, a praça e a UFPR. Isso ajuda muito na acomodação do público na entrada, que antes ficava restrito a calçadas estreitas. O projeto do Rubens Meister já previa o acesso do carro debaixo da marquise, sob o volume do foyer. Não entendemos como uma perda da baia, mas sim como a manutenção exatamente do que o Meister desenhou”, destaca Spanger.

Tombamento não impede mudanças do entorno do edifício

Do ponto de vista jurídico e de proteção ao patrimônio, o curador e advogado Fábio Chedid pondera que o tombamento do prédio não impede a pedestrianização do entorno, desde que os acessos essenciais sejam resguardados e o licenciamento ambiental e cultural esteja em dia.

“Sobre o tombamento do edifício, nada nos textos oficiais indica que a rua frontal seja submetida a limitações de uso que impeçam o fechamento para carros, desde que mantidas as condições de acessibilidade. A pedestrianização na região da Rua XV de Novembro é uma regra urbana aceitável para conectar o teatro ao espaço da praça. Cabe agora acompanhar a regularidade dos pareceres e licenças do projeto nos órgãos competentes”, conclui Chedid.

A representação protocolada no Ministério Público aguarda análise e deliberação do promotor responsável para a solicitação de informações às secretarias municipais e estaduais envolvidas.

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