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Filhote de elefante-marinho é solto no litoral do Paraná após um mês de cuidados

Recuperado, filhote de elefante-marinho é solto no litoral do Paraná
Foto: LEC-UFPR

Depois de passar cerca de um mês em reabilitação, o filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), resgatado após encalhar em Matinhos, foi solto no mar, no litoral do Paraná. A soltura aconteceu na quarta-feira (21/01), em área próxima ao Parque Nacional Marinho das Ilhas dos Currais.

A ação é um marco para o Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR) e para o Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), já que essa foi a primeira soltura de um filhote da espécie após 10 anos de execução do projeto no estado.

O animal foi encontrado no dia 26 de dezembro, durante o monitoramento da orla de Matinhos, realizado pela Polícia Militar do Paraná (PMPR). Após o registro, seguindo o protocolo de atendimento a encalhes de animais marinhos do Paraná (PRAE), a equipe do LEC-UFPR foi acionada e atendeu ao chamado por meio do PMP-BS.

O elefante-marinho-do-sul foi resgatado e diagnosticado com pneumonia. Por isso, ele permaneceu em tratamento e cuidados especializados no Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR).

Filhote foi solto com equipamento de monitoramento em tempo real. Foto: LEC-UFPR

Segundo a coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, professora Camila Domit, a ocorrência desta espécie é considerada rara e se tornou ainda mais especial por se tratar de um filhote. A espécie geralmente é encontrada entre a região Argentina e ilhas Antárticas e subantárticas.

“O registro de um filhote de elefante-marinho no Paraná é inédito. Normalmente, quando esses animais aparecem no Brasil, são indivíduos juvenis ou adultos em deslocamento, os quais são conhecidos como animais errantes. Um filhote indica uma situação diferente, que exige atenção imediata para com o atendimento do indivíduo, mas também uma avaliação criteriosa sobre como este caso, somado aos demais registros inéditos deste ano estão nos alertando sobre a saúde e qualidade do oceano”, explica Camila.

Desde o primeiro contato, o caso passou a ser tratado como prioridade, tanto pelo caráter inédito quanto pela necessidade de garantir a sobrevivência e o bem-estar do animal.

“Além da equipe do LEC/UFPR, outras equipes e instituições parte do PMP-BS, e pesquisadores do Brasil, Uruguai e Argentina estão dialogando sobre as ocorrências e buscando delinear as hipóteses para compreender estes fatos e possíveis efeitos das mudanças climáticas, alterações na produtividade oceânica e mesmo quanto a saúde das espécies marinhas”, reforçou Camila.

Processo de reabilitação do elefante-marinho-do-sul

Após a avaliação inicial em campo, a equipe multidisciplinar optou pelo transporte do animal até o Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha do LEC/UFPR (CReD), estrutura especializada no atendimento de fauna marinha no Paraná. No local, exames clínicos detalhados confirmaram que se tratava de um filhote macho, entre três e quatro meses de vida, medindo 1,79 metro e pesando cerca de 66 quilos.

Durante os exames, foram identificados sinais de secreção respiratória e um quadro de pneumonia, condição que exigiu cuidados imediatos. “O estado clínico do filhote indicava que ele não tinha boa condição de saúde para se manter no ambiente natural naquele momento. A pneumonia é uma condição séria, especialmente em animais jovens, e o tratamento precisava ser feito em ambiente controlado”, destaca Fabio Henrique de Lima, médico veterinário e responsável técnico do PMP-BS/LEC-UFPR.

Ao longo do processo de reabilitação, o filhote recebeu medicação específica, monitoramento clínico constante, alimentação controlada e passou por estímulos comportamentais, como o incentivo à caça, fundamentais para o desenvolvimento das habilidades necessárias à vida livre no oceano.

Com a evolução positiva do quadro clínico e a estabilização do animal, com base em diversos exames complementares, a equipe técnica avaliou que o filhote estava pronto para retornar ao oceano.

Transmissor satelital: tecnologia a favor da ciência e da conservação

Antes da soltura foram coletadas diversas amostras biológicas do filhote, para ajudar os pesquisadores a compreenderem melhor as características da espécie. Ele também recebeu um transmissor satelital, que permitirá identificação individual e acompanhar a trajetória diária após a soltura.

O equipamento possibilita o monitoramento em tempo real do deslocamento e do comportamento do animal no oceano, fornecendo dados como profundidade dos mergulhos, padrões de nado, tempo de permanência submerso e detecção de possíveis áreas de alimentação e rotas migratórias.

“Essas informações são extremamente valiosas, especialmente por se tratar de um filhote de elefante-marinho. Ainda sabemos pouco sobre a espécie e os primeiros deslocamentos desses animais, assim como é essencial compreender como será a readaptação após a reabilitação. Os dados obtidos contribuirão significativamente para a ciência oceânica e para a conservação da biodiversidade”, explica André Barreto, coordenador geral do PMP-BS nos trechos do Paraná e Santa Catarina.

A instalação do transmissor foi realizada em parceria com a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), responsável técnica pelo PMP-BS nos estados do Paraná e Santa Catarina. O equipamento pesa cerca de 100 gramas e foi desenvolvido para não interferir na mobilidade, comportamento ou desenvolvimento do animal. “O transmissor é leve, seguro e amplamente utilizado em pesquisas com grandes mamíferos marinhos. Ele se desprende naturalmente ao longo do tempo, sem causar qualquer dano ao animal”, diz André.

Após a soltura: orientações sobre possíveis avistamentos

Por se tratar de um filhote, a equipe multidisciplinar do PMP-BS/LEC-UFPR reforça que é possível que o animal ainda seja avistado em praias da região, mesmo após a soltura. Esse comportamento é considerado natural, já que a migração da espécie pode ser longa e exaustiva. “Esses animais podem utilizar praias e ilhas como áreas temporárias de descanso. Isso não significa que algo esteja errado, pois a parada para descanso em terra é parte do comportamento natural da espécie”, explica Liana Rosa, bióloga e gerente operacional do PMP-BS/LEC-UFPR.

Em caso de novos avistamentos, a orientação à população é clara: não se aproximar, não tentar tocar ou alimentar o animal e manter distância segura, evitando qualquer tipo de interferência. “A presença de pessoas muito próximas pode gerar estresse e comprometer a recuperação do animal. Sempre que houver um avistamento, a recomendação é acionar imediatamente a equipe do PMP-BS seja em qualquer estado do Rio de Janeiro até Santa Catarina, para que possamos avaliar a situação e encaminhar o melhor atendimento especializado”, reforça a bióloga.

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