“Quando?”. Na Rua Josefina Zanier, no Prado Velho, essa é a pergunta mais feita entre os moradores sempre que o assunto são as soluções para os problemas da vila. Às margens do Rio Belém, um trecho de cerca de 300 metros, que é quase toda a extensão da via, está cedendo em direção ao leito do rio.
O problema é visível no asfalto. Parte da via, entre as ruas Guabirotuba e a Dorival Almir Zagonel, afundou em direção à margem. O deslocamento do solo formou um degrau no meio da rua, criando risco constante para motoristas e pedestres.
Para desviar do desnível, condutores avançam pelo lado das casas, passando onde deveriam existir calçadas. Em uma dessas situações, a moradora Lucimara Leme Pereira quase foi atropelada.
“Não dá para ficar na rua. Eles querem desviar do ‘morro’ e passam quase em cima da gente. Crianças já não podem mais ficar na rua para brincar”, relata. Segundo ela, o cenário poderia ser ainda mais grave sem a vegetação mantida pelos próprios moradores. “Se não tivesse plantado [as árvores], tudo aqui já tinha caído e estava dentro do rio.”
Problema sistêmico
Além do impacto na rua, o risco começou a atingir as casas. Assim como na residência de Lucimara, outros moradores relatam o surgimento de rachaduras nas paredes, sinal de que o solo segue instável.
Para a comunidade, a solução precisa ir além de medidas paliativas. Eles cobram uma intervenção estrutural, que não se limite a “tapar buracos”. Entre as alternativas apontadas está a construção de muros de arrimo ao longo da margem do rio.
No início e no fim da Rua Josefina Zanier, há trechos com contenção, seja por gabiões ou por concreto. Justamente onde a via está cedendo, porém, não existe qualquer tipo de proteção na beira do Rio Belém.








Parte dos moradores vive da coleta de materiais recicláveis, em grande parte de forma autônoma. Os materiais e veículos de trabalho acabam sendo armazenados próximos às casas e às margens do rio. O acúmulo disputa espaço com carros que circulam pela região e agrava os problemas já existentes no asfalto.
“Está perigoso. Não tem mais condições”, resume Lucimara. A presidente da Associação Comunitária da Vila Torres, Maurina Carvalho da Silva, afirma que já houve conversas com a atual e a antiga gestão municipal, além de contatos com instituições privadas. Ainda assim, a resposta para a pergunta “quando?” ainda não chegou.
“Já faz 50 anos que moro aqui e sempre tivemos esse problema na rua. Já teve rio desbarrancando e indo para dentro da casa das pessoas. A comunidade já se reuniu, fomos no Fala Curitiba, na Regional, e já ouvimos que ia ser resolvida a situação, mas não foi”, relembra.
A sucessão de promessas não cumpridas gera mais do que indignação. Na vila, a reação é de desesperança. Crianças perderam a liberdade de brincar na rua, e até serviços básicos, como a coleta de lixo, ficam comprometidos pelas condições da via.
“Nós pagamos impostos muito caros e merecemos ter uma comunidade organizada e urbanizada legalmente, para que os nossos moradores possam ter seus direitos”, afirma Maurina. Apesar do histórico, ela diz que ainda acredita que o diálogo com a administração municipal resultará em uma solução definitiva para a vila.
Nova oportunidade
Um dos projetos acompanhados por Maurina envolve a relocação de moradores que vivem em áreas de risco na região. A Companhia de Habitação Popular de Curitiba (Cohab) pretende transferir parte das famílias que hoje residem às margens do Rio Belém para um novo conjunto habitacional a ser construído no bairro Guabirotuba.
Em nota enviada à Tribuna do Paraná, a Cohab informou que já existe um pré-projeto habitacional. A proposta está incluída no plano de ação do Fundo Municipal de Habitação de Interesse Social (FMHIS) para o exercício de 2026.
Segundo a companhia, o empreendimento, denominado Residencial Torres, está em fase de desenvolvimento pela Diretoria de Habitação. O projeto prevê a construção de um condomínio com quatro pavimentos e 16 apartamentos. O conjunto será implantado em terreno de propriedade do município, com investimento estimado em R$ 4 milhões, oriundos de recursos do FMHIS.
O projeto também considera o perfil da comunidade. Está prevista a utilização do relevo do terreno para a criação de um espaço no subsolo destinado ao armazenamento seguro dos carrinhos usados por coletores de materiais recicláveis. A proposta atende a uma demanda levantada em reuniões conduzidas pelo Serviço Social da Cohab junto aos moradores.
Para Maurina, a iniciativa representa um avanço importante. Embora ainda não haja definição de prazos, a expectativa é positiva. “Estamos cobrando a parceria porque é uma instituição que está nos apoiando. A esperança é de que não fique apenas em promessas”, afirma.
E aí, prefeitura de Curitiba: solução à vista?
Em dezembro, equipes da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA) realizaram uma fiscalização na região. A pasta, no entanto, não executa obras. Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Obras Públicas (Smop) informou que o trecho já integra um cronograma oficial de intervenções.
De acordo com a Smop, uma vistoria técnica apontou que o desnível da rua não apresentava risco imediato à população, apesar da instabilidade do solo. “A avaliação indicou que a intervenção necessária é de maior complexidade, o que inviabiliza a execução imediata dos serviços, pois depende dos trâmites que estão em processo para contratação”, diz a nota.
Atualmente, a secretaria executa obras de contenção em outro ponto da margem do Rio Belém, que apresentava situação semelhante. Segundo a Smop, após a conclusão dessa etapa, o trecho da Rua Josefina Zanier será incluído na programação para receber a intervenção adequada.
Depois da visita da reportagem à região, na última sexta-feira (16/1), moradores voltaram a procurar a Tribuna do Paraná. Eles informaram que a pavimentação da rua foi iniciada nesta quarta-feira (22/1).
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