Para entender o fim das bicicletas compartilhadas em Curitiba, com o recolhimento das bikes anunciado quarta-feira (22), é preciso entender a crise pela qual passa a Grow, startup que administra a marca Yellow Bike. Além de recolher as bicicletas, a Grow também anunciou que encerra totalmente suas atividades, inclusive com patinetes, em 14 cidades brasileiras.

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Criada há um ano, a partir da fusão da mexicana Grin com a brasileira Yellow, a startup de mobilidade Grow nasceu já com a expectativa de se tornar rapidamente um “unicórnio” – como são conhecidas as empresas de tecnologia avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão. Mas a ambição não se concretizou.

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A empresa de aluguel de bicicletas e patinetes sofreu nos últimos meses com falta de capital, disputas de poder, questões regulatórias e o alto custo das viagens em patinetes. Esses fatores levaram o negócio a não cumprir a promessa de revolucionar o transporte urbano. Para sobreviver, agora a Grow irá no caminho contrário a que as startups estão acostumadas: dará uma freada brusca na operação.

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Quarta-feira (22), a startup começou a recolher seus patinetes em 14 cidades do país – agora, vai passar a operar só em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Já o compartilhamento de bicicletas foi interrompido em todo o Brasil para “checagem das condições de operação e segurança”. Em nota, a Grow confirmou que fará demissões, embora tenha negado a revelar o número, citando “razões estratégicas”.

Patinetes da Grow seguem em Curitiba, mas deixaram de circular em 14 cidades brasileiras. Foto: Hedeson Alves / Tribuna do Paraná

O anúncio do freio nas operações da Grow é o segundo baque no mercado de micromobilidade no Brasil – há duas semanas, a americana Lime deixou de oferecer patinetes na América Latina.

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Tropeços

Segundo pessoas próximas à Grow, a falta de capital afetou a saúde da empresa. Em 2019, havia expectativa de uma nova rodada de aportes – em abril, o jornal O Estado de São Paulo chegou a noticiar que a startup negociava investimentos de US$ 150 milhões liderados pelo grupo japonês SoftBank. A negociação não foi adiante, e a Grow ficou com o caixa prejudicado. Procurado, o SoftBank não comentou.

Pesou também a divisão entre os sócios brasileiros e mexicanos: desde o início, a Grin apostava nos patinetes. Já a Yellow via as bicicletas, de preços mais acessíveis, como porta de entrada de novos usuários. Havia uma questão estratégica: cofundador da Yellow, Eduardo Musa, foi presidente da Caloi. Os outros dois cofundadores da brasileira, Renato Freitas e Ariel Lambrecht, também fundaram a 99, primeira startup brasileira a se tornar unicórnio.

A queda de braço entre brasileiros e mexicanos foi vencida pela ala da Grin, com maior poder no conselho de administração após a fusão. Essas disputas internas teriam prejudicado o foco no negócio e levado Lambrecht a se afastar do dia a dia da empresa. A assessoria de imprensa da Grow disse que o executivo é apenas “fundador e acionista” da companhia.

Centenas de bicicletas empilhadas no terreno no bairro Rebouças em Curitiba. Foto: Hedeson Alves/Tribuna do Paraná.

Assim, toda a ala da Yellow deixou a operação – Freitas e Musa já não são sócios da empresa desde 2019. Em nota, a startup afirmou que a reestruturação “não se baseou em questões de liderança.”

Dificuldades.
Segundo fontes, houve também vários erros operacionais. O custo das corridas em patinetes – de R$ 8 para cada dez minutos – seria considerado alto pelos clientes. A expansão acelerada, de 4 para 17 municípios em apenas um ano, também não teria levado em consideração as particularidades de cada local. A falta de resistência e a difícil manutenção dos patinetes e das bicicletas, que têm muitas peças importadas, agravaram a situação.

Aposta para reduzir problemas e baratear a operação, a fábrica de bicicletas e patinetes na Zona Franca de Manaus não saiu do papel – o plano era entregar as primeiras unidades ainda no início de 2020. Questionada, a Grow disse que ainda avalia como seguirá com o projeto.

Por fim, a falta de regulamentação sobre o uso de patinetes e a falta de diálogo entre autoridades e startups levou à apreensão de patinetes na capital paulista, em julho.