A enfermagem está em luto. Enfermeiros, técnicos e auxiliares já sentem o desgaste do trabalho de combate ao novo coronavírus. Além do cansaço natural do dia a dia, o lado emocional pressiona estes profissionais de saúde que atuam em hospitais e clínicas. Oito profissionais de saúde morreram em todo o Paraná nesta pandemia cuidando de pacientes, quatro deles só em julho.

Uma classe que chora escondido, tem medo e que raramente demonstra publicamente o sentimento de dor. São os anjos de jaleco branco que decidiram proteger e salvar vidas como fez com louvor Valdirene, Carla, Jair, Adelmo, Mônica, Cátia,Sueli e Thalita, todas vítimas da covid-19.

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No Paraná, são 108.240 inscritos no Conselho Regional de Enfermagem (Coren/PR), órgão responsável pela fiscalização destes profissionais. Destes, 26.753 são enfermeiros, 58.049 técnicos de enfermagem e 22.507 auxiliares. Com a pandemia, a sociedade abriu os olhos para a classe, que historicamente é colocada em segundo plano em relação, por exemplo, aos médicos.

Salário inferior, horas mais trabalhadas, desrespeito na progressão de carreira e até um certo preconceito com a profissão. Com o coronavírus, a enfermagem ganhou o poder de estar na mesma balança que os doutores, mas sem sair desta batalha com enormes perdas. Junto ao jaleco e todos os instrumentos de trabalho, o medo agora caminha junto pelas enfermarias e Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Segundo dados do site Observatório da Enfermagem, criado pelo Conselho Federal (Cofen) para monitorar a contaminação e morte de profissionais da área pela covid-19, já foram registrados 23.996 casos e 249 óbitos em todo país. No Paraná, são 260 casos reportados e oito mortes em decorrência da contaminação.

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Josiane Muller, auxiliar de enfermagem do Hospital das Nações, trabalha com amor à profissão e dedicação aos doentes. No entanto, ao perder a companhia de Cátia de Melo, colega de trabalho que morreu no último sábado (11), Josiane publicou nas redes sociais um desabafo.

“Você que convive com alguém da área da saúde, eu quero te pedir um favor. Nós estamos cansados, estressados, irritados, angustiados, por nós, e pelos nossos familiares e por vocês. Estamos com medo de nos contaminar, medo de ser internados e entubados. Medo de morrer e longe de todos que amamos por medo de contaminá-los. Então eu peço que todos tenham um pouco de paciência conosco. Se nosso humor mudar um pouquinho, se o nosso comportamento não for o esperado, nos compreenda. Apesar de estamos recebendo o título de heróis, somos iguais a vocês, feito de carne e osso e com medo”, escreveu Josiane.

Enfermagem solidária

A preocupação de se ter profissionais abalados emocionalmente trabalhando já foi percebida pelo Coren-PR. Uma das formas para que se evite prejuízos aos enfermeiros e consequentemente ao paciente é o programa Enfermagem Solidária. O serviço funciona 24 horas por dia e chega a realizar 130 atendimentos diários.

Um dos voluntários e coordenador do serviço é o professor do curso de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná ( UFPR), Márcio Roberto Paes, que também atua em uma das unidades covid-19 do Hospital de Clinicas. Ele utiliza seis horas por dia para colaborar com os colegas no atendimento que dura em média entre 20 a 55 minutos.

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A ideia é fortalecer as virtudes de cada um sem fugir da fragilidade. “O que tenho percebido é que a saúde mental desses profissionais tem sido alvo do estresse contínuo, do medo, da insegurança e do aumento da ansiedade, em alguns casos, um sofrimento intenso. O medo de se contaminar ou de contaminar algum familiar põe nossos colegas em uma apreensão exacerbada, culminando com um sofrimento psíquico e emocional, que acaba por colocá-los em situação de vulnerabilidade, afetando em muito a sua percepção da realidade”, conclui o enfermeiro Marcio. O serviço Enfermagem Solidária pode ser acessado pelo site juntoscontracoronavirus.com.br/ .

O Conselho Regional alerta aos associados a ficarem mais atentos na forma de conduzir o trabalho e também na hora de denunciar as possíveis irregularidades. A presidente do Coren/PR, enfermeira Simone Peruzzo, demonstra sua preocupação.

Foto: Lineu Filho/Tribuna do Paraná.

“Considero preocupante o alto índice de desconhecimento da categoria quanto aos planos de contingência existentes com a garantia do afastamento de grupos de risco, seja por idade ou doenças preexistentes, gestantes, lactantes e a oferta de equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados voltados aos cuidados na paramentacão e desparamentacão, comentou Simone Peruzzo.

Denúncias

Em junho, 148 instituições de saúde foram inspecionadas e 84 denúncias apuradas pelas equipes de enfermeiros fiscais. Basicamente, as reclamações geralmente relatam falta de profissionais, dúvidas sobre o número de máscaras e afastamento de profissionais de risco. Sobre a falta ou especificação adequada de EPIs, a fiscalização percebeu que existe um racionamento no uso, pois em alguns casos, a compra em grande quantidade está sendo complicada em realizar.

“Peço aos profissionais que caso tenham problemas, procurem a ouvidoria, pois não temos olhos em todos os lugares. A nossa prioridade é atender denúncias exclusividade covid-19. Diminuíram as queixas sobre a falta de equipamentos, mas o que realmente preocupa é a redução na quantidade de pessoas trabalhando. Medidas precisam ser adotadas para substituir pessoas que estão se afastando, sempre respeitando a segurança de todos”, completou a presidente do Coren-PR. Caso a denúncia venha ser confirmada, o Conselho notifica o Ministério Público do Trabalho, Ministério Público do Paraná, Vigilância Sanitária e demais órgãos de controle.


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