Durante quase 24 anos, Thaís Cheminski seguiu o caminho que sempre acreditou ser o certo. Estudou desde cedo, formou-se em Química pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), fez uma segunda graduação, concluiu o mestrado e chegou às portas do doutorado. No entanto, foi justamente dentro dos laboratórios que percebeu que aquele futuro não era o que queria para si.
A história da empresária curitibana virou o livro Fugindo da Manada, lançado nesta semana em Curitiba. Na obra, ela conta por que abandonou a carreira acadêmica para empreender em um segmento completamente diferente: a antecipação de precatórios. Hoje, é sócia e diretora comercial da Precs, empresa que, segundo ela, negociou mais de R$ 130 milhões em créditos judiciais apenas nos últimos dois anos.
Segundo Thaís, a decisão não aconteceu por falta de paixão pela ciência, mas pelo estilo de vida que enxergava ao seu redor. “Eu via pesquisadores extremamente competentes, muitos já com mais de 40 anos, vivendo de bolsas, sem conseguir formar família e enfrentando dificuldades financeiras. Foi quando pensei: ‘não é essa vida que eu quero para mim'”, conta.
Livro “Fugindo da Manada” nasceu de uma grande mudança de vida
A inquietação começou ainda durante o mestrado. Depois de trabalhar na indústria química e em laboratórios de pesquisa no Brasil e em Portugal, Thaís percebeu que a carreira acadêmica nem sempre oferecia a estabilidade financeira que imaginava.
Ela lembra de uma conversa que considera decisiva. “Perguntei para uma professora: ‘Em que momento eu ganho dinheiro com isso?’. Ela respondeu que a academia existia para produzir conhecimento e que nem toda pesquisa gerava retorno financeiro. Naquele momento, percebi que precisava encontrar outro caminho”, conta ela.
Apesar da oportunidade de seguir para o doutorado, ela desistiu da seleção na hora de fazer a prova, e voltou para Curitiba praticamente sem recursos. E a decisão também provocou conflitos dentro da família. “Meu pai parou de falar comigo. Para ele, abandonar o doutorado era abrir mão da estabilidade. Ele sempre acreditou que esse era o caminho mais seguro.”
Talento para vendas mudou completamente a carreira
De volta à capital paranaense, Thaís começou a trabalhar em uma pequena consultoria especializada em projetos para a indústria química. Pouco tempo depois, a empresa perdeu praticamente todos os clientes. Foi então que ela pediu uma oportunidade para tentar reverter a situação. “Eu disse que, se me dessem dois meses, conseguiria trazer novos clientes.”
Segundo ela, o resultado surpreendeu até os próprios sócios. A consultoria conquistou tantos contratos que precisou contratar novos profissionais para atender à demanda. Foi nesse momento que percebeu que tinha facilidade para vendas. “Uma amiga olhou para mim e perguntou: ‘Se outras pessoas muito menos habilidosas que você conseguem abrir empresas, por que você não consegue?’. Aquilo ficou na minha cabeça.”
Pouco tempo depois, conheceu o atual marido, Daniel, que trabalhava havia cerca de dez anos com precatórios no Tribunal de Justiça do Paraná. Juntos, analisaram diversos cenários e decidiram criar a Precs.
A empresa compra direitos de precatórios de pessoas que preferem receber imediatamente, em vez de esperar anos pelo pagamento na fila da Justiça. Hoje, segundo Thaís, a empresa se tornou uma das principais do segmento no Sul do país e está expandindo a atuação para outras regiões do Brasil.
“Recebo muito mais ‘não’ do que ‘sim'”
Embora hoje tenha conquistado independência financeira e trabalhe parte do ano nos Estados Unidos, onde um dos filhos estuda, Thaís afirma que a trajetória esteve longe de ser simples. Ela conta que, em vendas, ainda recebe muito mais negativas do que respostas positivas.
“O pior ‘não’ que recebi foi da diretora de uma empresa que fui apresentar uma proposta. Ela foi muito grosseira. Disse que eu não entendia nada de precatórios, que eu não sabia vender, que a minha proposta era mal feita e que deveria procurar outra profissão. Desliguei o telefone e chorei.”
Porém, mesmo naquele momento de choro, Thais parou e olhou para o seu passado recente. Já havia fechado inúmeros contratos. Se ela realmente não soubesse nada do assunto, ou o que estava fazendo, a empresa não estaria milionária.
“Depois disso também fechei outros vários contratos milionários. Não sei porque há pessoas que gostam de tratar outras dessa forma. Mas aprendi que um ‘não’ não define quem você é.”
Livro busca inspirar quem pensa em mudar de profissão
Ao longo de cerca de 180 páginas, Fugindo da Manada reúne episódios da vida acadêmica, da maternidade e do empreendedorismo. A proposta, segundo a autora, é incentivar pessoas que vivem um momento de dúvida profissional. “Meu desejo é que quem esteja em uma encruzilhada encontre confiança para entender que nunca é tarde para recomeçar.”
A autora também defende que o empreendedorismo pode representar uma alternativa para quem busca mais autonomia, embora reconheça que o caminho exige resiliência. “Empreender não é fácil. Mas acredito que construir algo próprio me deu uma liberdade financeira e geográfica que eu nunca encontraria seguindo o caminho que estava trilhando.”
Lançado nesta semana em Curitiba, a versão física do livro custa R$ 35. De acordo com Thaís, toda a renda obtida com a venda da edição impressa será destinada à Acridas, instituição curitibana que atende crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
