Violência

O que Araucária está fazendo para sair do ranking nacional de maiores taxas de estupro?

Porta de entrada para atendimento é o serviço de saúde. Foto: Arquivo/Construtora Guetter.

Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, está entre as dez cidades brasileiras com as maiores taxas de estupro. O município ocupa a 7ª posição do ranking, com 84,4 casos a cada 100 mil habitantes, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Para enfrentar a violência e reduzir a subnotificação, o município mantém uma rede de atendimento que envolve o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM).

Criado em fevereiro de 2018, o CRAM começou a funcionar de forma compartilhada em salas do Centro Dia Idoso, com o objetivo de oferecer acolhimento, suporte e atendimento especializado a mulheres vítimas de violência doméstica e de gênero. Em 2023, o serviço ganhou sede própria e ampliou sua atuação.

Atualmente, o trabalho é realizado em parceria com unidades de saúde, assistência social, Conselho Tutelar, hospitais de referência e órgãos de segurança. O enfrentamento à violência sexual começa antes de uma denúncia formal à polícia. A rede busca identificar situações de violência, garantir atendimento médico e encaminhar cada caso aos serviços responsáveis pelo acompanhamento.

A porta de entrada mais comum para uma vítima de violência sexual no município é o serviço de saúde. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), a equipe avalia as condições clínicas e verifica, por exemplo, se a vítima está dentro da janela de até 72 horas para receber a profilaxia pós-exposição (PEP), usada para reduzir o risco de infecções. Quando necessário, adolescentes, adultos e outras vítimas são encaminhados a hospitais de referência em Curitiba para atendimento especializado. 

Identificação de riscos

Segundo Nouey Staldiff Lourenço Vieira, assistente social da UPA, a equipe também procura identificar situações de violência doméstica que podem estar naturalizadas na rotina da vítima.

“Tem casos que as mulheres relatam, mas nem se percebem dentro do contexto de violência. Elas não percebem que o marido não deixa ela trabalhar por uma situação de posse, destrói as roupas, destrói os seus bens, não permite o crescimento. Isso é tão natural na vida dela que ela não percebe que está vivendo uma violência, inclusive”, explica.

A identificação dos casos não depende apenas de uma denúncia explícita. A médica Bianca Caron Schüller conta que enfermeiros e médicos são orientados a observar situações em que o relato apresentado pela paciente não parece compatível com os sinais encontrados durante o atendimento.

“Às vezes, a mulher vem falando que se machucou, que caiu ou que teve algum acidente. E a pessoa, quando está atendendo, seja o enfermeiro já no momento da classificação de risco, ou o médico, já questiona: acha que é uma história que não é tão coerente assim, não está tão condizente com o que está aparecendo no exame físico”, afirma.

A partir desses relatos, o CRAM pode atuar na orientação sobre segurança, no acolhimento e no encaminhamento para outras estruturas de atendimento. Entre os recursos disponíveis estão o acolhimento institucional provisório, o encaminhamento à Defensoria Pública e a orientação para instalação do botão do pânico.

Atendimento identifica violência contra crianças

Em Araucária, crianças de até 12 anos são atendidas no pronto atendimento infantil vinculado ao Hospital Municipal de Araucária. Conforme a situação, podem ser encaminhadas a hospitais de referência, como o Pequeno Príncipe e o Evangélico, para avaliação especializada. Quando há suspeita de violência contra um menor, o Conselho Tutelar pode ser acionado para participar da definição das medidas de proteção.

“Por se caracterizar de um atendimento de urgência e emergência, quando o adolescente chega sozinho, por exemplo, não negamos o atendimento. Às vezes, não é possível que os pais venham até a UPA imediatamente, então, designamos uma pessoa da equipe para que fique acompanhando esse paciente”, explica Nouey.

Se necessário, a equipe busca contato com o Conselho Tutelar. Dependendo do risco identificado, o adolescente pode permanecer em observação na unidade sob os cuidados de um profissional enquanto a rede define os próximos encaminhamentos. Em determinadas situações, também pode ser avaliada a necessidade de acolhimento emergencial ou de permanência com outro responsável.

Rede busca evitar subnotificação

Segundo as profissionais, um dos efeitos da estrutura da rede aparece justamente nas estatísticas. Obrigatoriamente, uma ficha de notificação de violência é preenchida pelos profissionais de saúde quando há casos de violência sexual. 

Ao ampliar a identificação e a notificação de casos que antes poderiam não chegar aos serviços públicos, a rede pode elevar o número de ocorrências oficialmente registradas. Isso, porém, não significa necessariamente que a violência tenha aumentado na mesma proporção.

Em Araucária, a estratégia apresentada pelas profissionais é evitar que a violência permaneça escondida. “Nós procuramos atender a paciente, mas, assim, evitar para que esses números fiquem subnotificados. Nós trabalhamos muito articulados com a rede e procuramos que esses dados aí não fiquem subnotificados”, completa Bianca Caron.

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