Depois de quase 22 anos de história, o Bardo Tatára (ou Bar do Tatára) vai fechar as portas em Curitiba. O anúncio provocou uma onda de comoção entre músicos e frequentadores que ajudaram a transformar o espaço em um dos principais redutos da música autoral da cidade.
Mais do que um bar, a casa ficou conhecida por abrir espaço para artistas ainda desconhecidos. Além disso, durante 17 anos promoveu o projeto Segunda Autoral, que revelou centenas de compositores, bandas e intérpretes paranaenses.
A despedida acontece poucos anos após a morte do artista Tatára, fundador do bar e um dos nomes mais conhecidos da cena cultural curitibana.
Bar do Tatára enfrentou pandemia e a morte do fundador
Segundo Cleusa, sócia e fundadora da casa ao lado de Tatára, a decisão de encerrar as atividades não aconteceu por um único motivo. “A pandemia nos quebrou em muitos pedaços. Inclusive, o Tatára morreu logo no começo daquele período. Eu tentei manter todo o legado, porque também sou parte dessa história. Mas ficou muito mais difícil.”
Ela lembra que, além das dificuldades financeiras, o cenário mudou bastante nos últimos anos. “Os bares cresceram, receberam investimentos maiores e promover cultura em Curitiba sempre foi difícil. Antes eu tinha um pilar muito forte, que era o Tatára.”
Mesmo assim, Cleusa manteve a casa funcionando por mais de cinco anos após a morte do companheiro de trajetória. “No último ano lutei feito uma leoa. Só fui me endividando e chegou um momento em que não consegui mais continuar”, diz a fundadora.
Segunda Autoral revelou músicos durante 17 anos
Se existe um legado que marcou a história do Bardo Tatára, ele atende pelo nome de Segunda Autoral.
Durante 17 anos, todas as segundas-feiras o palco ficava aberto para músicos apresentarem suas próprias composições. Muitos chegavam com apenas duas ou três músicas. Depois, voltavam com discos gravados, centenas de canções e carreira consolidada.
“Muita gente se formou aqui. Muitos artistas começaram nesse palco, gravaram trabalhos e montaram bandas depois de se conhecerem na Segunda Autoral.”
Além disso, Cleusa criou uma tradição que virou marca da casa. Um pequeno jantar que ela preparava e servia para as primeiras 90 a 100 pessoas que chegavam nas segundas-feiras. Ela fez isso durante todos os 17 anos do Segunda Autoral.
Despedida do Bar do Tatára mobiliza clientes
Desde que o fechamento foi anunciado, o movimento aumentou. Conforme Cleusa, clientes antigos passaram a fazer reservas e retornar ao bar para uma última visita. “Está todo mundo muito triste. Muita gente liga dizendo que o bar não pode fechar. As pessoas querem vir para se despedir.”
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Ela afirma que não existe possibilidade de voltar atrás. “Infelizmente não tenho mais condições de manter a casa aberta.” O imóvel é alugado e será devolvido ao proprietário. Por enquanto, não há definição sobre o que funcionará no endereço depois do encerramento das atividades. A casa funcionará até o dia 13 de julho.
O legado pode continuar
Embora o Bardo Tatára esteja chegando ao fim, o projeto Segunda Autoral poderá ganhar uma nova fase. Segundo Cleusa, um grupo de músicos já conversa sobre levar a iniciativa para outro espaço da cidade.
“Eles querem manter vivo o projeto da música autoral. Ainda estão desenhando essa ideia. Se eu puder participar em algum momento, certamente estarei junto”, diz Cleusa, que se prepara para deixar Curitiba levando a sensação de missão cumprida.
“É uma tristeza muito grande fechar esse lugar. Ao mesmo tempo, sinto que participei, junto com o Tatára, de uma coisa grandiosa. Talvez eu nem tenha dimensão do quanto isso foi importante para a música autoral de Curitiba.”
