Caminhabilidade

Qual é o bairro mais fácil para viver sem carro em Curitiba? Ranking aponta líder

Qual é o bairro mais fácil para viver sem carro em Curitiba?
Índice de caminhabilidade apontou o Bigorrilho como melhor bairro para "se virar" sem carro. Foto: Divulgação GT Building

Imagine morar em um lugar onde padaria, restaurante, academia, pet shop, transporte público e outros serviços do dia a dia estão a poucos minutos de casa. Em vez de entrar no carro para resolver cada tarefa, basta caminhar algumas quadras. Em Curitiba, um novo ranking mostra quais bairros mais se aproximam dessa realidade. O resultado coloca o Bigorrilho no primeiro lugar entre os bairros mais caminháveis da cidade.

O bairro mais fácil para viver sem carro em Curitiba alcançou 97,1 pontos, em uma escala de 0 a 100, no Índice CWB de Caminhabilidade, levantamento que avaliou os 75 bairros da capital. Na sequência aparecem Mercês (96,9), Alto da Rua XV (96,6), Hugo Lange e Juvevê (95,3 cada).

A média de Curitiba ficou em 71 pontos. O estudo considera quatro aspectos: proximidade de serviços, cobertura de transporte público, densidade comercial e tamanho das quadras. Na prática, a pesquisa tenta medir algo que muita gente já percebe no cotidiano: quanto é possível resolver a vida sem depender do carro.

O que faz um bairro ser caminhável?

Não basta ter uma calçada bonita ou uma ciclovia. O índice considera, principalmente, o que existe ao redor de onde as pessoas moram.

A proximidade de serviços representa 60 dos 100 pontos do Índice CWB. São considerados restaurantes, padarias, cafeterias, lanchonetes, academias e pet shops próximos. O transporte público responde por outros 25 pontos; a densidade comercial, por 10; e a configuração das quadras, por 5.

O resultado é uma fotografia de como a estrutura urbana interfere na rotina. Por isso, bairros como Bigorrilho, Mercês, Alto da Rua XV, Juvevê, Cabral e Centro aparecem entre os bairros mais fáceis para viver sem carro em Curitiba. Já regiões com menor oferta de serviços e comércio próximos tendem a apresentar maior dependência do automóvel. E há bairros “chiques” da capital que não estão bem colocados nesse ranking por conta do uso do carro.

O próprio índice classifica notas entre 80 e 100 como “excelentes” para caminhabilidade. Entre 65 e 79, os bairros são considerados caminháveis; abaixo disso, aumentam os níveis de dependência do carro.

Poder viver a pé tem preço

A caminhabilidade deixou de ser apenas uma questão de urbanismo e qualidade de vida. Ela também começa a entrar na conta do mercado imobiliário.

Um levantamento da Valor CWB cruzou os dados de caminhabilidade com os preços dos apartamentos anunciados em Curitiba e encontrou uma relação entre bairros com maior oferta de comércio, transporte e circulação de pedestres e valores mais altos do metro quadrado.

No Batel, por exemplo, o preço médio dos apartamentos anunciados era de R$ 16.476 por m², 20% acima da média de Curitiba, de R$ 13.776. Bigorrilho e Mercês também aparecem entre os bairros mais valorizados.

Isso não significa que a caminhabilidade, sozinha, determine o preço de um imóvel. Mas mostra que a proximidade de serviços e a facilidade de deslocamento já fazem parte do valor percebido de determinadas regiões. As próprias incorporadoras começaram a prestar atenção nisso.

Qual é o bairro mais fácil para viver sem carro em Curitiba?
Índice de “Caminhabilidade” avalia critérios como acesso a comércio, serviços e transporte público e a forma como as pessoas conseguem acessar estes serviços a pé, sem depender do carro. Foto: Mercado & Incorporação / Divulgação / AGL Incorporadora

O bairro “rico” que nem sempre é bom para caminhar

Um dos exemplos mais interessantes do estudo é o Ecoville. Apesar da concentração de imóveis de alto padrão, o bairro apresenta uma limitação de caminhabilidade relacionada à falta de comércio em determinados trechos. Segundo a análise da Valor CWB, as ruas podem ficar esvaziadas fora dos horários de maior movimento.

É justamente aí que aparece um dos conceitos importantes do novo urbanismo: fachada ativa. Quando o térreo dos edifícios tem lojas, restaurantes, serviços, áreas de permanência e conexão visual com a rua, mais pessoas circulam pelo espaço público. Em vez de grandes muros e áreas fechadas, a cidade ganha movimento.

“Um bairro vivo é mais seguro”, resume o diretor-executivo da AGL Incorporadora, Luiz Antoniutti, na análise sobre o tema.

A lógica também ajuda a explicar por que a caminhabilidade não é simplesmente uma questão de “andar mais”. Um bairro pode ter calçadas largas, mas ser pouco caminhável se não houver para onde ir.

Construtoras usam a caminhabilidade nos projetos

Na AGL Incorporadora, por exemplo, a caminhabilidade passou a ser considerada na escolha de terrenos e no desenvolvimento dos empreendimentos. Segundo Antoniutti, a localização e a oferta de serviços que possam ser acessados a pé estão entre os fatores observados antes de um projeto sair do papel.

A empresa também utiliza métricas como o Walk Score, que avalia a facilidade de realizar atividades cotidianas caminhando a partir de determinado endereço.

Um exemplo é o Moní 830, no Alto da Glória, empreendimento que aposta na relação entre o prédio e a rua. O projeto prevê um boulevard integrado à fachada ativa (quando o térreo do empreendimento é de acesso ao público em geral, com comércios e serviços, e não só para moradores), espaços de permanência, áreas sombreadas, comércio no térreo e bicicletário público.

A proposta é fazer com que o térreo não seja apenas uma barreira entre o edifício e a calçada, mas uma extensão da vida urbana.

A GT Building também segue essa lógica em empreendimentos no Bigorrilho. O OÁS, o Casa Milano e o Amáz foram concebidos considerando a relação com o entorno, a mobilidade ativa e a possibilidade de uma rotina mais próxima dos serviços.

Entre as soluções adotadas estão bicicletários, coworking, centrais para recebimento de encomendas e espaços que estimulam a integração do edifício com a cidade.

A ideia por trás dos projetos é uma mudança no comportamento de quem compra um imóvel: não se trata apenas dos metros quadrados dentro do apartamento, mas também do que existe a poucos minutos de caminhada da porta de casa.

Qual é o bairro mais fácil para viver sem carro em Curitiba?
Índice de “Caminhabilidade” avalia critérios como acesso a comércio, serviços e transporte público e a forma como as pessoas conseguem acessar esses serviços a pé, sem depender do carro. Foto: Divulgação GT Building

Curitiba tinha essa ideia antes de virar tendência

A discussão também tem uma relação direta com a história do planejamento urbano de Curitiba. Desde os anos 1980, a cidade trabalha com a ideia de concentrar transporte, comércio e moradia ao longo dos eixos estruturais. O chamado Plano Massa, associado ao urbanismo de Jaime Lerner, criou galerias comerciais nos térreos dos edifícios desses eixos, favorecendo a circulação de pedestres.

A lógica permanece presente em novos projetos. Para o mercado imobiliário, portanto, a caminhabilidade pode representar mais do que uma tendência passageira. Ela passa a ser uma forma de medir o quanto a localização de um imóvel permite economizar tempo, combustível e deslocamentos.

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