Quando a água invade ruas, casas e comércios em Curitiba, como tem acontecido nas últimas semanas, não tem sido apenas um fenômeno natural. Por trás dos alagamentos existe uma história urbana que mistura crescimento desordenado, impermeabilização do solo e ocupação de áreas que, originalmente, pertenciam aos rios.
Ana Claudia Stangarlin Fróes, arquiteta e urbanista com mestrado em Planejamento Urbano, MBA em Gestão de Projetos e professora do UniCuritiba, explica que muitas cidades brasileiras cresceram sobre cursos d’água e várzeas.
“Em diversos pontos, as construções avançaram sobre áreas que naturalmente funcionavam como espaços de escoamento da água. Com a impermeabilização causada pelo asfalto e pelo concreto, a água tende a retornar para esses locais em períodos de chuva intensa”, explica.
Há também a ocupação de encostas e fundos de vale, frequentemente sem infraestrutura adequada, potencializa os riscos de enchentes e deslizamentos. A especialista faz um alerta importante: esse processo muitas vezes não ocorre por escolha dos moradores.
“Em muitas cidades brasileiras, é comum a população de baixa renda se deslocar para áreas ambientalmente frágeis. É um problema urbano, ambiental e também social”, afirma.
Quando árvores viram infraestrutura contra alagamentos
Parece simples, mas é eficiente: árvores e áreas verdes funcionam como verdadeiras aliadas contra enchentes. A professora destaca que a vegetação absorve parte da água da chuva e deixa o solo mais permeável, reduzindo a pressão sobre os sistemas de drenagem.
“As áreas verdes funcionam como esponjas naturais. Parques, praças e jardins de chuva conseguem reter e infiltrar a água, reduzindo a pressão sobre galerias pluviais e bueiros, que muitas vezes não dão conta do volume das chuvas intensas”, afirma.
Além de combater alagamentos, as árvores melhoram o conforto térmico nas cidades. “As árvores reduzem o calor e ajudam a equilibrar o microclima urbano. A arborização não é só estética, é uma infraestrutura ambiental importantíssima.”
Resiliência urbana: mais que obras de engenharia
Para Ana Claudia, construir uma cidade resiliente vai além de grandes obras. “Resiliência é preparar a cidade para enfrentar eventos extremos sem que isso vire tragédia social”, acrescenta.
Isso inclui sistemas eficientes de drenagem, contenção de encostas, alertas antecipados e planos de contingência, além de políticas públicas de habitação e regularização fundiária. “Quem mora em área de risco sofre muito mais com os impactos das mudanças climáticas. Uma cidade resiliente é aquela que garante o direito à moradia segura”.
A especialista esclarece que o objetivo não é eliminar completamente os impactos, mas minimizar danos e acelerar a recuperação após eventos extremos. “Uma cidade resiliente não é aquela que nunca sofre impacto, mas aquela que protege vidas e volta à normalidade com mais rapidez e menos prejuízo”, contextualiza.
Planejamento em diferentes tempos
Adaptar cidades para enfrentar chuvas intensas exige ações contínuas em diferentes horizontes temporais. No curto prazo, a prioridade deve ser manutenção preventiva: limpeza de bueiros, desassoreamento de rios, sistemas de alerta e mapeamento de áreas vulneráveis.
Em médio prazo, é necessário ampliar a infraestrutura de drenagem, revisar planos diretores, criar mais áreas verdes e bacias de contenção, além de fortalecer políticas habitacionais que evitem novas ocupações em áreas de risco.
No longo prazo, a mudança precisa ser estrutural. “É repensar o modelo de desenvolvimento urbano, incentivar o adensamento em áreas com infraestrutura, reduzir a expansão desordenada e integrar o planejamento urbano às políticas ambiental e habitacional”, explica.
Quando a natureza vira aliada da cidade
Entre as estratégias mais promissoras estão as soluções baseadas na natureza, que utilizam processos naturais para resolver problemas urbanos.
Alguns exemplos incluem parques lineares ao longo dos rios, jardins de chuva, pavimentos que permitem a infiltração da água, preservação de várzeas e recuperação de nascentes urbanas. “Os arquitetos e urbanistas podem prever essas soluções nos projetos e planos diretores, e os gestores públicos precisam transformar isso em política permanente, com investimento, legislação e fiscalização”, afirma.
A professora finaliza com um lembrete fundamental: nada disso funciona sem engajamento social. “Uma cidade resiliente se constrói com participação social. Se as pessoas não entenderem a importância dessas soluções, não há planejamento que resolva”, conclui.



