Advogada e ex-agente da Polícia Federal (PF), Flávia Francischini quer que a vida pública a ajude na missão de servir as pessoas. Eleita vereadora de Curitiba pelo PSL, ela diz que a ideia de se candidatar é recente – dizia que jamais seria política –, mas que o caminho que trilhou ao longo da vida a conduziu para essa empreitada. Na disputa pelo cargo, contou com um cabo eleitoral de peso: o deputado estadual Fernando Francischini (PSL), que foi candidato à prefeitura da cidade e com quem completa 20 anos de casada no próximo dia 16.

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Nascida em Brasília, em 1978, apresenta-se como candanga. O termo é usado para se referir às famílias que se mudaram para a atual capital federal para trabalhar na construção da cidade. Sua avó foi cozinheira do ex-presidente Juscelino Kubitschek, e seu avô era mestre de obras – ele morreu ao cair de um andaime na construção do prédio de um dos ministérios.

Sua mãe foi professora e diretora da primeira escola particular de Brasília, fundada pela avó. “Meu primeiro emprego, aos 13 anos, foi na escola, ajudando no plantão de dúvidas na parte de matemática. Era uma época muito gostosa, eu vivia o tempo todo lá, em período integral”, conta Flávia.

Já na faculdade – cursou direito na Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (atual Centro Universitário UDF) –, trabalhou na coordenação de assuntos judiciais do Ministério dos Transportes e, em seguida, foi estagiária da Defensoria Pública do Distrito Federal, atuando na Vara de Delitos de Trânsito. “Foi a primeira vez que conheci a ação social, porque a gente atendia as pessoas carentes, famílias de presos. Fazíamos as audiências, tentando realmente ajudar com essa assistência judiciária.”

Foi durante o curso superior que conheceu Fernando Francischini. Casaram-se no ano 2000, ainda em Brasília, e mudaram-se para Curitiba em 2004, quando Francischini foi lotado na Superintendência Regional da PF no Paraná, no bairro Santa Cândida. Na época, Flávia já havia passado em concurso público da PF, mas ainda não tinha feito o curso de formação de agentes.

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Por cerca de um ano trabalhou na Secretaria de Estado da Segurança Pública, na gestão de Roberto Requião (MDB), como assessora jurídica da pasta, naquele momento sob a titularidade de Luiz Fernando Delazari. Atuou ainda como advogada em causas trabalhistas e penais.

Já como policial federal, em 2009, sua primeira lotação foi no Oiapoque, município amapaense no extremo norte do país, na fronteira com a Guiana Francesa. “Os cinco meses que eu fiquei lá foram muito importantes, porque eu era a única mulher na delegacia que havia na cidade, um lugar em que o tráfico de mulheres e a exploração sexual eram muito intensos.”

Por ser casada com servidor público – na época Francischini era secretário municipal antidrogas de Curitiba, na gestão de Beto Richa (PSDB) –, pediu remoção para a capital paranaense para ficar mais próxima da família. O primeiro filho do casal, Fernando, tinha cinco anos de idade naquele momento.

Trabalhou por cerca de um ano no setor de imigração da PF no Paraná até se afastar em razão de uma gravidez de risco. “Tive dois abortos espontâneos, um atrás do outro, antes de engravidar do Bernardo, meu filho especial”, conta. Em 2011, ao fim do período de licença maternidade, foi cedida ao município de Curitiba para atuar como superintendente da Secretaria Municipal Antidrogas, à época sob o comando de Hamilton Klein.

“Foi a segunda vez que tive a oportunidade de me engajar na ação social, porque tínhamos vários projetos na Antidrogas, como o Bola Cheia e o Papo Legal, que eram feitos em escolas, com as crianças de comunidades carentes. A intenção era tirá-las das ruas para que deixassem de servir de ‘mulas’ dos traficantes nas sextas à noite, sábados e domingos”, relata. “Eram mais de 1,5 mil por final de semana nas 10 regionais de Curitiba. Foi um momento muito importante para mim. Eu sabia que o que eu buscava estava relacionado com essas famílias que precisam de mais apoio, de mais assistência, que infelizmente não chega até elas.”

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Após deixar a secretaria, ao fim da gestão de Richa, Flávia passou algum tempo afastada das atividades profissionais para se dedicar ao Bernardo, que já tinha o diagnóstico de autismo. Em meados de 2013, criou o Instituto Fazer o Bem Sem Olhar a Quem, por meio do qual arrecada alimentos, roupas e brinquedos para comunidades da periferia.

Em 2014, foi convidada para ser diretora de Gestão de Pessoas e Desenvolvimento Profissional do Departamento de Trânsito do Paraná (Detran-PR). “Foi meu terceiro passo em um caminho que eu já estava trilhando para chegar até aqui. Porque eu atuava com recursos humanos, ligada às causas das pessoas”, diz. Na época, os servidores do órgão estavam insatisfeitos com a criação do quadro próprio. “Tínhamos funcionários com quase 10 anos, que já podiam se aposentar, mas que estavam aguardando a reclassificação deles no plano de cargos e salários.”

A briga do sindicato com a direção do Detran, à época sob o comando de Marcos Traad, já vinha de anos. “Fui bem recebida pelos servidores e conseguimos montar uma comissão, composta de representantes da categoria, do governo do estado e da Assembleia Legislativa, que, durante seis meses, fez um estudo sobre a viabilidade do plano de cargos e salários”, lembra. “Em um ano fizemos o plano, que era uma demanda antiga e que fazia muita diferença para aqueles servidores.”

Flávia coordenou ainda as campanhas eleitorais do marido e do enteado, Felipe Francischini (PSL), atualmente deputado federal e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados. “Nunca quis carregar o título de ‘política’. Meu sonho lá atrás era ser defensora pública”, afirma. “Mas, diferente de um deputado estadual ou federal, o vereador tem esse contato com as pessoas, que eu gosto”, diz, sobre ter lançado candidatura este ano.

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Entre os projetos que pretende apresentar em seu primeiro mandato está a criação de um auxílio-emergencial municipal, voltado às famílias que perderam emprego durante a pandemia do novo coronavírus. “Funcionaria por meio de um cartão que teria como condição ser usado apenas dentro do bairro, favorecendo a economia local.” Outra pauta que considera importante é a contratação de agentes de saúde que estejam nas comunidades. “Se tivéssemos as equipes que foram demitidas no início da atual gestão, com certeza a orientação que as pessoas teriam tido durante a pandemia seria outra.” Já em relação às creches, quer propor o funcionamento das instituições durante o período de férias escolares, a ampliação no horário de atendimento e a implantação de unidades 24 horas.

A disputa que Francischini travou com o prefeito reeleito Rafael Greca (DEM) não deve colocá-la na bancada de oposição – diz que vai atuar como uma vereadora independente. “Acho que essa coisa de oposição e situação termina com a eleição. Aí vem a questão de ser maior do que isso, de unir forças para fazer o melhor para as pessoas”.