Brasília (AG) ? Desde 13 de fevereiro, quando vieram à tona as denúncias contra o ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil Waldomiro Diniz, as atenções do mundo da política se voltam para o Senado. Todos os dias, o plenário forrado de tapetes azuis se transforma num palco para a oposição expor as mazelas do governo. Apesar de reduzido, o grupo não deixa que a crise política viva um momento de trégua. Nessa arena ruidosa, de 180 anos, produz-se um espetáculo diário de disputa pelo poder, exibido ao vivo, pela rádio e pela TV Senado.

Machado de Assis, numa crônica, descreve o Senado de 1860: “Nenhum tumulto nas sessões. A atenção era grande e constante. Geralmente, as galerias não eram mui freqüentadas, e, para o fim da hora, poucos espectadores ficavam, alguns dormiam.(…) O Senado contava raras sessões ardentes; muitas, porém, eram animadas”. Em 2004, o plenário continua atento, mas não faltam discursos ardentes e animação. Às vezes, sobra emoção. Foi das galerias que um desempregado ameaçou pular, diante de senadores atônitos e de câmeras de TV.

Os senadores de oposição são, em tese, 37 dos 81 integrantes da Casa. são as bancadas de PFL, PSDB e PDT mais Heloísa Helena (AL), sem partido. A conta inclui dissidentes do PMDB, como Mão Santa (PI), Pedro Simon (RS) e Sérgio Cabral (RJ). É pouco para derrotar o governo, mas suficiente para forçar mudanças de rota, exigir atenção e instituir, durante esses 44 dias de crise política, a chamada “hora do Waldomiro”, sucessão de discursos inflamados.

“Todos os dias acordo e me pergunto: o que vai ser hoje?” lamenta-se a líder do PT, Ideli Salvati (SC), senadora de primeira viagem.

A experiência da oposição driblou a condição de minoria. Contra o governo, as vozes mais atuantes são os líderes Arthur Virgílio (PSDB-AM) e José Agripino (PFL-RN). Eles têm estilos diferentes. O primeiro, mais agressivo, é ex-ministro, foi líder do governo Fernando Henrique e prefeito de Manaus. O segundo, uma voz ponderada, governador duas vezes e está no segundo mandato de senador.

O currículo da maioria, por sinal, é uma das explicações para o Senado ter se tornado o centro da política. Lá estão um ex-presidente (José Sarney) e um ex-vice-presidente (Marco Maciel). Há 24 ex-governadores. Muitos foram ministros e prefeitos. Mas a onda que acompanhou a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou ao Senado gente nova, especialmente na bancada petista. São senadores como Sibá Machado (AC), Serys Slhessarenko (MT) e Fátima Cleide (RO), que saíram de experiências regionais, sem conhecer as sinuosidades do jogo político em Brasília.

“A oposição é muito qualificada, enquanto o perfil da base é de senadores de primeiro mandato, sem experiência de confronto político. Gera timidez e retração” observa Tião Viana (PT-AC), que vem medindo o tamanho da crise pelo rádio.

“De cada seis discursos, quatro são da oposição.”

Com quase 50 anos de vida pública, Sarney (PMDB-AP) é o maior apoio do governo na Casa. Sua importância para o Planalto só fez crescer desde o escândalo Waldomiro. Tanto que uma das prioridades da agenda governista é aprovar uma emenda constitucional que permita sua reeleição para o cargo.

Sarney foi eficiente para mudar o rumo da artilharia governista e suas balas perdidas, como a proposta de revidar uma CPI com outras. Foi ele quem pediu serenidade e contrariou o líder do governo, Aloizio Mercadante (PT-SP), defensor das investigações paralelas. Mas se a astúcia do presidente do Senado é eficiente nos bastidores, não pode impedir o festival diário de ataques ao governo.

Diferentemente da Câmara, em que apenas os líderes têm chance de aparecer, no Senado não há voz de comando que iniba manifestações individuais. Não existe engarrafamento de deputados de pé em torno dos microfones. Os senadores podem falar de suas mesas.

Calouro na Casa, Heráclito Fortes (PFL-PI), ex-prefeito de Teresina e ex-deputado federal, nota que o tom dos discursos é pontuado por dois estreantes, Mercadante e Virgílio.

“Há respeito pessoal, mas eu e Mercadante vínhamos com uma rixa da Câmara e continuamos com ela” diz Virgílio.