Nelson Rodrigues e Artur Azevedo não foram contemporâneos, mas ambos enxertaram vida nova ao teatro nacional quando a dramaturgia brasileira passava por uma fase desanimadora. Neste sentido, a combinação Azevedo/Rodrigues se dá também na vasta criação de contos. Estes surgidos na intensa atividade jornalística exercida pelos autores. Seguindo esta vertente, temos identificado com o movimento naturalista, Artur Azevedo que oferece como perspectiva retratar a sua época, ou seja, expor o Rio de Janeiro, a Capital Federal e seus problemas de ordem social, política e cultural nas últimas décadas do século XIX. Por outro lado, temos Nelson Rodrigues que, em seus primeiros espetáculos esboça um perfil bastante folhetinesco e recompõe para o palco as ansiedades e os conflitos da sociedade carioca na última década da primeira metade do século XX, através de seus personagens caricatos.

Coincidência ou não, os autores em questão são responsáveis pela renovação de nossos palcos: Artur Azevedo com a peça O Mambembe e Capital Federal, entre outras e, Nelson Rodrigues com Vestido de Noiva, principalmente. Quanto aos contos, é interessante frisar que a produção destes autores é caracterizada pela simultaneidade, pois surgem como extensão de suas diretrizes teatrais. A relação entre as peças e os contos, em termos de enredo, é flagrante. Nesta freqüência, infere-se que as duas honrosas atividades têm caráter cíclico, como por exemplo: O conto refere-se ao dia e o teatro, à noite. É como se o conto absorvesse os pontos dispersos de cada peça sem, no entanto, conseguir explicitá-las. Por outro lado, cabe ao teatro a possibilidade de coesão destes pontos, buscando dar-lhes fundamento na fala e na imagem vista e não apenas imaginada. Acima de tudo, Nelson Rodrigues e Artur Azevedo revelam-se persistentes batalhadores do teatro. A dedicação de ambos vai acentuar a profissionalização de autores, diretores, atores e técnicos.

A título de curiosidade, é bastante oportuno destacar algumas peculiaridades relacionadas a estas duas figuras do teatro. Isto é, o forte de Artur Azevedo era os flagrantes naturalistas, que lhe proporcionavam uma fotografia colorida dos ambientes; a inclinação pelo conto ou pelo teatro apareceu quase que simultaneamente; o autor foi companheiro de repartição de Machado de Assis, que foi seu mais severo crítico. As obras escritas por Artur Azevedo entre 1878 e 1906, nos dão a oportunidade de realizar uma viagem em direção ao Rio de Janeiro, na época das epidemias fatais, dos ecos da Guerra do Paraguai; da abolição da escravatura, da Proclamação da República, da Campanha de Canudos, etc. Já Nelson Rodrigues, iniciou a vida literária em 1939 com a peça Mulher sem Pecado; Em 1951, começou a escrever crônicas para o Jornal Última Hora, numa coluna intitulada “A Vida Como Ela É” e foi uma personalidade bastante polêmica.

Outro aspecto a ser destacado se refere às afinidades entre Azevedo e Rodrigues: 1. No caso de ambos autores o teatro e o conto são gêneros afins; 2. A produção literária de Nelson e Artur foi muito expressiva a ponto de multiplicar-se em intensa atividade jornalística. Jornal e criação dramática passaram a não ter fronteiras, sendo um prolongamento do outro; 3. Seus contos eram publicados com periodicidade determinada. Tanto Nelson Rodrigues, como Artur Azevedo escreviam a partir da observação diária e com conhecimento dos dramas cotidianos da capital. Os casos amorosos, infidelidades conjugais, relações de família, etc, forneceram assunto para histórias em que os protagonistas eram marcadamente cariocas. 4. Ambos fizeram da pena ou da máquina de escrever instrumento de trabalho cotidiano e declararam a necessidade pessoal de escrever para sobreviver: -Nelson Rodrigues: “Nunca assumi como Romancista, não tenho tempo. Preciso escrever para comer”; -Artur Azevedo:”…Em resumo todas as vezes que tentei fazer teatro sério, em paga só recebi censuras; …ao passo que enveredado pela bambochata, não me faltaram nunca elogios, festas, aplausos e proventos. Relevem-me citar esta última fórmula de glória, mas que diabo! Ela é essencial para um pai de família que vive de sua pena”.

Artur Azevedo e Nelson Rodrigues mantinham uma relação muito estreita com a imprensa e foi a partir deste aspecto que surgiram os contos. Assim, apesar de que foram escritas em épocas distintas, as linhas temáticas são bastante semelhantes entre os autores.

É interessante buscar aleatoriamente qualquer conto de A Vida Como Ela É… de Nelson Rodrigues e comparar com aqueles escritos por Artur Azevedo, como por exemplo: A Ama Seca e Fatalidades entre outros, para conferir o processo de criação que nos dois casos serviam de estrutura, mesmo que de forma fragmentada, para a criação das peças.

Maria Helena de Moura Arias

é jornalista e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Estadual de
Londrina.helenarias@uel.br