Uma vida dedicada ao futebol paranaense. Anotações, recortes, fotografias, entrevistas, páginas e mais páginas escritas, nos mínimos detalhes que os atentos olhos azuis observaram em 91 anos de vida, sobretudo nos campinhos de futebol amador em Curitiba. Levi Mulford Chrestenzen nos deixou no dia 29 de agosto de 2020, mas seu legado será eterno.

O jornalista, que durante 63 anos trabalhou na Tribuna do Paraná, inclusive participando do impresso desde sua primeira edição, em 17 de outubro de 1956, tinha em casa uma biblioteca particular, concebida por ele mesmo com um rico acervo sobre o futebol do estado – e que de fato é uma das mais ricas e impressionantes sobre o tema.

Escritor de diversas obras que contam a transformação do ludopédio no Paraná, entre elas, “Futebol do Paraná – 100 anos de história”, que redigiu ao lado de Heriberto Ivan Machado, “seu” Levi inspirou gerações de profissionais, que até hoje o consideram referência.

+ Cristian Toledo: Adeus, seu Levi Mulford. Leva com o senhor o nosso muito obrigado

Levi Mulford: uma inspiração para diferentes gerações

Foto: Brunno Covello/Arquivo/Gazeta do Povo

Entre os jornalistas que puderam aprender com Levi na Tribuna está o colunista Cristian Toledo.

“Seu Levi nos ensinava todo dia a amar a nossa profissão. A paixão dele pelo jornalismo e pela Tribuna era comovente. E esse é o presente que ele nos deixa”, enfatiza.

Ex-companheiros de redação recordam como Levi não media esforços para estar presente nos jogos e como era único no que fazia.

“Levi foi um dos maiores nomes da imprensa paranaense. Um cara que escreveu matérias desde a edição de número um da Tribuna. Um repórter que ia de bicicleta cobrir os jogos da Suburbana. Que levou o futebol amador a um nível incomparável. E dedicou toda sua vida a isto. Vai fazer muita falta. Acho que o futebol amador perdeu seu maior divulgador e incentivador”, fala Carlos Bório, jornalista, ex-editor da Tribuna do Paraná.

O jornalista Armindo Berri passou a acompanhar de perto os números do futebol por causa de Levi.

“Virei estatístico do futebol do Paraná depois de conhecer a biblioteca do Levi Mulford. Quando trabalhava na Revista Placar, assim como outros colegas de muitos jornais e veículos renomados nacionalmente, ia até ele para conferir as informações. O grande mérito dele foi fazer estatística de um segmento relegado pela sociedade que é a suburbana, um futebol de vilas, comunidades. Ele foi precursor”, destaca o ex-chefe de redação da Tribuna do Paraná.

Admiração por Levi ultrapassou a redação da Tribuna do Paraná

Levi observa as páginas de cobertura do futebol amador. Foto: Gerson Klaina/Tribuna do Paraná

Colegas de profissão de outros veículos detalham os feitos do precursor e enfatizam o quanto o conhecimento que possuía era fundamental na história do futebol. Levi se dedicava a registrar os acontecimentos dos campeonatos amadores desde a década de 1940.

“A trajetória de Levi Mulford confunde-se com a do futebol paranaense. Foram mais de 60 anos de cobertura, período em que o jornalista documentou o esporte pelos gramados do estado, destaca André Pugliesi, editor de esportes da Gazeta do Povo.

“Circulou, com assiduidade inigualável, dos estádios, em combates de nível profissional, aos campos de pelada, nos duelos amadores, em especial da Suburbana. Por causa dele, feitos de clubes e jogadores viraram história. Obrigado, Mulford!”, reforça Pugliesi.

Aprendizes do jornalista, que até hoje atuam nas rádios, também não medem palavras para falar da admiração a ele.

“Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente um dos maiores, senão o maior historiador do futebol paranaense, Sr. Levi Mulford. Em uma agradável visita à sua residência, no bairro Pilarzinho, pude conhecer um pouco mais sobre quem escreve a história do nosso futebol”, diz Anselmo Guedes, repórter da Rádio Capital Sul FM.

“Fui muito bem recebido naquela oportunidade e, confesso, tamanha era a alegria dele em compartilhar as suas informações. Uma lastimável perda para a sociedade paranaense”, reforçou Guedes.

A opinião é compartilhada por Arildo Costa.“Levi Mulford fez nos ver a importância na divulgação do esporte, trabalho feito com amor, respeito, carinho”, disse o repórter e apresentador das Rádios Capital Sul e Vale.

Legado de Levi Mulford ultrapassa o tempo e inspira jovens jornalistas

Biblioteca de Mulford é um dos mais impressionantes e completos acervos sobre o futebol amador local. Foto: Arquivo/Tribuna do Paraná

Colegas muito mais novos da imprensa, de uma geração quase recém-formada, ainda se inspiram no primoroso e dedicado de trabalho de Levi. Rafael Buiar, editor e fundador do portal Do Rico ao Pobre (DRAP), contou o quanto o escritor o inspirou.

“No início deste ano tive a oportunidade de conhecer e conversar com o senhor Levi Mulford. Falamos por cerca de uma hora, o suficiente para perceber que tínhamos tantas coisas em comum, além de ser jornalista”, fala.

“Dentre elas, talvez a principal, a vontade em querer dar voz para o futebol amador. Essa conversa foi fundamental para que o projeto do portal DRAP continuasse com essa missão, a de fomentar ainda mais o futebol amador de Curitiba e Região. Sem o rico material dele, e o apoio, não teríamos conseguido”, prossegue Buiar.

Torcedor do Coritiba, Mulford desempenhou importante trabalho nos Helênicos

Levi Mulford no Alto da Glória: nome do jornalista ajudou a resgatar a história do Coxa. Foto: Divulgação/Coritiba

Levi Mulford fazia parte do grupo Helênicos, que resgata a história do Coxa, desde a fundação, em 2004. O Coxa emitiu nota de pesar no último sábado (29), pelo falecimento do icônico torcedor e pesquisador.

“As pessoas especiais partem da nossa vida… ‘Seu’ Levi partiu, mas nos deixou sua história, sua doçura e seu conhecimento por aquilo que amava”, destaca Flavio Henrique Soethe, do Grupo Helênicos

“Foi uma honra ter convivido com ele, ter escutado suas histórias e ter visto de perto a sua excelente memória, quando trabalhamos juntos na identificação de centenas de fotos históricas do acervo do Coritiba. Obrigado pelos valiosos ensinamentos, seu Levi”, prossegue Soethe.

Representantes dos times do futebol “sem divisão” também exaltam a importância de Mulford

“Ícone do Jornalismo e amante do futebol amador. Incansável na cobertura e divulgação das competições amadoras. O Capão Raso é infinitamente grato por todo trabalho por ele realizado”, comenta Juarez Mocelin, presidente do União Capão Raso.

A Diretoria do Trieste, assim como um grupo de ex-atletas do bicampeonato da Taça Paraná dos anos de 1984 e 1985, estava organizando uma homenagem a ele e aguardava o fim da pandemia para realizar o evento.

“Seu Levi acompanhou muitas conquistas do Trieste, e possuía em seu acervo um rico material de todos esses títulos. Ele foi um dos autores do livro ‘Trieste – O campeoníssimo suburbano’ e seus relatos e matérias foram muito importantes para contar a história do nosso clube. Obrigado por tudo seu Levi!”, agradeceram.

Saiba mais sobre o jornalista Levi Mulford

+ Levi Mulford: o jornalista que chegou a recusar uma entrevista com Pelé: “Só falo do amador”, enfatizou. Leia o perfil completo de Levi Mulford.
+ Após 63 anos de Tribuna do Paraná, Levi Mulford se despediu em 2019. Leia a reportagem completa.


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