Apesar de disputar pela primeira vez uma eleição, Caroline Arns, candidata do Podemos à prefeitura de Curitiba, traz a política no sangue. Seu pai, o senador Flávio Arns (Rede), está completando três décadas dedicadas à vida pública, tendo ocupado também os cargos de deputado federal e vice-governador. Além da vivência política ao lado do pai, Caroline também aposta na experiência como gestora para tentar se tornar a primeira mulher a governar a capital.

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“Posso dizer que hoje eu tenho uma carreira estabelecida na área de gestão e na área acadêmica, quero agora assumir um desafio na gestão pública”, afirma a candidata em entrevista à Gazeta do Povo. Caroline aponta como prioridade a geração de emprego e renda, como forma de estimular o desenvolvimento da cidade. “Curitiba está numa encruzilhada, ou se volta para questões sociais e econômicas, ou vai perder o rumo. Precisamos de novos rumos, novas prioridades”, defende.

Acompanhe a entrevista de Caroline Arns.

Essa é a primeira vez que a senhora vai disputar um cargo político eletivo. Qual a influência e a participação do seu pai (o senador Flávio Arns), que tem uma longa história na política, nessa decisão?

Eu acompanho meu pai na política desde os 14 anos. O fato de ter vivenciado a política de perto com ele fez com que despertasse o interesse em fazer meu papel na sociedade por meio da política. Quando você vive mais próximo da política, percebe que é uma ferramenta importante que pode apoiar na transformação da vida das pessoas. O fato de conviver com a política durante muitos anos influenciou positivamente para que eu buscasse assumir esse desafio. Não é demérito ser filha de bons políticos como meu pai, ele me trouxe a visão da boa política. Por isso resolvi me colocar à disposição, acredito demais na força do Poder Executivo, já que dediquei minha vida à área de gestão. Essa proximidade me fez também compreender virtudes e defeitos na política. O fato de conviver com meu pai me fez entender que não se pode desconstruir relacionamentos, temos que manter as portas abertas, ter uma atitude de respeito, pois se não mantivermos, isso acaba prejudicando a população como um todo. A política tem que ser um meio de construção e eu aprendi isso com meu pai. Se você quer que a cidade evolua, precisa ter um grau de respeito com as pessoas que trabalham bem, independentemente do grupo do qual elas fazem parte.

Sua experiência profissional é na área da educação, como professora e administradora. Como essa experiência pode ser aproveitada na gestão pública?

Eu sou advogada, formada em administração, fiz mestrado em engenharia e gestão de negócios. Há 17 anos sou professora de Direito Empresarial. Fui diretora de planejamento da FAS (Fundação de Ação Social) por dois anos, na gestão Luciano Ducci (2010-12). Essa oportunidade foi muito interessante para conhecer os desafios e dilemas da nossa cidade, especialmente na área social, e foi significativa para que decidisse pleitear um cargo executivo. Percebi que quando você está na gestão pública, tem muitas alternativas para melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas. Além disso, coordenei a área de projetos sociais e parcerias do Sistema Fiep. Posso dizer que hoje eu tenho uma carreira estabelecida na área de gestão e na área acadêmica, quero agora assumir um desafio na gestão pública. Minha formação, experiência e vivência familiar me dão condições para assumir esse desafio.

Curitiba nunca teve uma prefeita mulher em sua história. O que representaria uma mudança nesse sentido?

O eleitor vota em pessoas que tenham boas propostas, que demonstrem confiança e respeito. Entendo que tanto homens quanto mulheres querem votar em quem tem competência para governar a cidade. Mas eu entendo também que no período pós-pandemia as mulheres têm uma vantagem no perfil que é a sensibilidade e o acolhimento na área social. Temos 52% da população de Curitiba formada por mulheres e, entre os eleitores, somos 53%. Temos que buscar a representatividade política, a representatividade daquilo que a gente vive na sociedade. Eu defendo as candidaturas de mulheres, até porque existe um fator histórico que acabou deixando as mulheres para trás: não faz 100 anos que a gente vota e isso precisa ser compensado. Mas, acima de tudo isso, está a capacidade para assumir a gestão de uma cidade como Curitiba com um olhar voltado para a questão econômica e social.

Se fosse prefeita, o que teria feito diferente no enfrentamento à covid-19?

Primeiramente, precisamos torcer para que dê tudo certo na gestão de nossa cidade. Estamos em lados diferentes, mas acima de tudo precisamos estar solidários às famílias que estão perdendo entes queridos, às pessoas que estão perdendo seus empregos, aos empresários que estão fazendo um esforço sobre-humano para manter seus quadros. No tocante à gestão municipal, acredito que foi correto a prefeitura não ter aberto de imediato hospitais de campanha, se utilizando de estruturas que já existiam. Houve a preocupação na tomada de decisões em relação aos investimentos que seriam realizados. Mas tivemos um problema sério quando a gestão se tornou confusa na exposição de dados. Eu tomaria mais cuidado nessa exposição. A secretária de saúde foi muito firme quando disse que tinham 345 leitos de UTI para covid e não teriam mais. Depois, a prefeitura diz que tem mil leitos, isso confunde as pessoas e gera uma falsa sensação de segurança. Precisava ter sido mais assertiva na informação e tomar mais cautela na exposição das palavras. Houve uma discussão se a prefeitura recomendava ou obrigava a fechar o comércio, são coisas muito diferentes. Isso é ruim porque não transmite segurança para que o empresário tome a decisão que precisa tomar. Também é preciso ter mais cautela na definição das regras em um período tão drástico. Precisa ter um diálogo prévio, chama as entidades, os empresários, define a regra em conjunto e bate o martelo. Uma vez definida a regra, tem que ser seguida. O que a gente percebeu é que a prefeitura estabeleceu uma regra que não foi seguida. Faltou diálogo e faltou ter mais firmeza, pois aí você para de se preocupar com a regra e se preocupa com o que interessa, que é tocar a gestão da cidade. Outro ponto: a prefeitura lançou um programa de apoio para micro e pequenos empresários, entendo que é importante, mas ela pode ir além. Tem que conversar mais com o governo do Estado para que amplie a abertura de crédito. Hoje a Fomento Paraná tem uma demanda extremamente alta, uma demora enorme na avaliação, a prefeitura pode ter uma atitude mais ativa em relação ao pequeno empresário.

Sobrando ainda alguma capacidade de investimento pós-pandemia, onde a senhora concentrará os recursos da cidade nos próximos anos e por quê?

O orçamento é um desafio e precisamos estar atentos. Entendo que os recursos precisam estar voltados à geração de emprego e renda. Por exemplo: hoje nós temos em Curitiba 413 áreas de ocupação irregular. Existem pesquisas em todo o país sobre a importância da construção civil, é uma área que pode gerar retorno de empregos interessante por meio da regularização dessas áreas. É muito importante ter atenção a essas áreas para desenvolver, gerar emprego, renda, fomentar pequenos comércios que possam intervir nessas regiões com empreendedorismo. Independentemente do orçamento, tem várias ações que precisamos fazer para gerar renda. É preciso ampliar a desburocratização; não pode ter um empreendedor que quer ampliar seu espaço de trabalho e demorar dez meses para liberar o alvará. Precisamos criar uma relação de menos burocracia e mais respeito. É uma ação importante que não gera necessidade de tirar recursos do caixa. Nós também precisamos fazer uma reflexão sobre o desenvolvimento de projetos e a busca de recursos externos. Precisamos ter um escritório em Curitiba que desenvolva projetos para buscar fundos na área de meio ambiente, nos ministérios, convênios com outros países. Outra situação que precisamos pensar é a atração de investimentos. Temos a reciclagem automotiva, aproveitando uma indústria forte que existe na região de Curitiba, precisamos pensar a reciclagem de resíduos sólidos, da qual vivem 15 mil pessoas, precisamos organizar tudo isso para gerar renda. É algo que não gera só emprego, gera o desenvolvimento de uma região e continua um ciclo. É diferente do asfalto, que é algo pontual, resolve uma situação e não continua um ciclo de desenvolvimento. O grande foco da nossa gestão é geração de renda. O investimento precisa estar focado para gerar esse ciclo de desenvolvimento. A gente tem percebido que as pequenas comunidades têm crescido cada vez mais e estamos enfrentando um dilema. Curitiba está numa encruzilhada, ou se volta para questões sociais e econômicas, ou vai perder o rumo. Precisamos de novos rumos, novas prioridades. Temos que colocar o foco na potencialização de renda futura, para que as pessoas tenham mais recursos e fiquem naquele espaço com dignidade.