Depois de fazer uma ‘tour’ em grandes festivais internacionais, O Clube dos Canibais, filme de terror cearense, finalmente chega ao Brasil e estreia na próxima quinta-feira (3) nos cinemas. O longa conta história de Otávio e Gilda, casal da alta classe que participa de um clube secreto, onde a prática é matar e comer os empregados.

Para entender ainda mais sobre este filme, que tem pré-estreia marcada nesta sexta-feira (27), na Sessão da Meia-Noite do Cine Passeio, o blog Não é Spoiler conversou com o diretor, Guto Parente. O cineasta revelou sobre o processo criativo, percalços no set e seus projetos futuros.

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Parente conta que a ideia surgiu em 2013 quando ele estava na França, produzindo o longa A Misteriosa Morte de Pérola. “Eu estava numa pesquisa sobre filmes de terror e teve uma noite que acordei no meio da madrugada com a ideia sobre um casal que cometia ato de canibalismo. Na hora chamei minha parceira para conta-la. Ela se assustou um pouco, mas depois começamos a falar sobre a história”, explicou rindo.

Depois disso, Guto conta que trabalhou em pesquisas envolvendo o canibalismo até encontrar a notícia de um casal gaúcho, famoso no século XIX, conhecido como: Crime da Rua do Arvoredo, onde a esposa e o marido faziam linguiça com carne humana. “Descobri através do livro sobre o caso chamado, O Maior Crime da Terra, de Décio Freitas, e me inspirei nele”, contou.

Guto Parente, diretor de O Clube dos Canibais. Foto: Divulgação

O filme começou a ser produzido em 2015 e o cineasta conta que a crise política da época trouxe o teor social ao longa. “Eu me senti muito atravessado na crise política da época e algumas questões foram ganhando notoriedade no roteiro”, explica. “No O Clube dos Canibais eu retrato o que eu sinto sobre a elite brasileira. Era uma vontade que eu tinha de contar já fazia há algum tempo. Falar da elite é também falar sobre a desigualdade”, conclui.

Parente conta que a elite cearense é formada por coronelistas. O cineasta explica que a ideia sempre foi retratar os problemas sociais em uma história fantástica, de forma satírica, absurda. “É esta a característica da nossa elite. Só para você ter uma ideia, no Ceará há mais carros importados e blindados que nos outros estados do Brasil, e há um impacto muito grande com relação a população de baixa renda”.

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Inclusive a escolha do elenco revela muito estes problemas sociais. Guto explica que o tom satírico trouxe, de forma distorcida mas com o espelhamento da realidade, a desigualdade de classes sociais e raciais.

Outro fato retratado no filme é a banalização da violência. O cineasta reflete que o filme tem como premissa trazer a elite que não tem noção dos seus atos, que vive em outra realidade. “São pessoas que não consegue enxergar o outro. Esta postura que eles têm de não ver o outro como ser humano fez com que teve, como por exemplo, séculos de escravidão, que houvesse o nazismo, o genocídio do modo geral. São pessoas que acreditam que há grupos não dignos de viver, que não são considerados humanos”, sintetizou.

Cena do filme O Clube dos Canibais. Foto: Divulgação

Entretanto, o cineasta ressalta que o cinema brasileiro sempre tenta trazer os problemas sociais nos seus filmes. Guto acredita que o gênero não é apenas o único a falar sobre essas questões. “É um tema que dificilmente se consegue fugir. A cinematografia brasileira lida com a questão de classe. O Cinema Novo, as produções dos anos 60, já discutiam estes assuntos. São questões muitos presentes na cultura do nosso país”, explicou.

Guto ainda diz que este gênero ajuda a moldar a percepção do espectador sobre o medo, a aflição, a angústia e a experiência que eles transmitem é de fazer com que o público consiga lidar com estes sentimentos.

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Sobre o aumento de números de filmes brasileiros no gênero terror, Parente acredita numa teoria. “Veio uma geração de realizadores que estão conseguindo produzir longas-metragens e que cresceram influenciadas pela televisão, pelo cinema de gênero e teve mais acesso a produções de horror. Eu cresci assistindo a Sessão da Tarde, Telecine, Corujão, que passavam filmes de comédia, romance, terror. Então eu lido com essas influências nos meus momentos criativos e desenvolvimentos da trama”, finaliza.

O Clube dos Canibais emplaca o primeiro trabalho de Guto Parente no subgênero gore. O cineasta cearense já é conhecido por longas do gênero terror. “Eu assisti muito filmes de terror na época da minha adolescência, sempre fui fascinado pelo gênero”, revela.

Parente conta que suas inspirações para o longa veio das obras de David Cronenberg, Wes Craven e John Carpenter. Com isso, ele conseguiu chamar Rodrigo Aragão, cineasta capixaba especializado no subgênero. “Eu convidei o Rodrigo para fazer os efeitos especiais do filme e foi incrível. E nesse trabalho cresceu a ideia de fazer um filme gore”.

Cena do filme O Clube dos Canibais. Foto: Divulgação

Mas ressalta que mesmo com todas as questões apresentadas no filme, O Clube dos Canibais não tem como proposta procurar resposta sobre o assunto, mas sim causar reflexões.

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O filme tem a pré-estreia nesta sexta-feira (27), no Cine Passeio, com a presença do diretor Guto Parente e do ator Tavinho Teixeira. Os ingressos estão à venda na bilheteria do cinema e também na internet.

Sinopse

A maneira correta de temperar um churrasco a partir da carne dos empregados é uma das poucas preocupações na vida luxuosa do casal Otávio e Gilda. Até que Gilda acidentalmente descobre um segredo de Borges, líder do Clube e poderoso deputado, e a vida dela e de seu marido passam a correr perigo.

Serviços:
Cine Passeio
Rua Riachuelo, 410 – Centro
Quando: sexta-feira (27), às 23h59
Ingressos: R$ 8 (meia-entrada) e R$ 16