As mães nunca se vão inteiras: a casa permanece em nós mesmo depois que elas partem

Há um tipo de saudade que não amadurece nunca, ela apenas aprende a se sentar em silêncio dentro da gente. Perder a mãe quando se foi muito amada por ela é descobrir, da maneira mais cruel e desumana, que a vida continua mesmo depois do fim do lugar para onde se voltava. Porque mãe, quando é abrigo, não é apenas alguém que ama: é quem sustenta invisivelmente o mundo. E ninguém te ensina o que fazer quando esse mundo desaba sem fazer barulho.

Não está em manual, na terapia e nem nas falas dos maiores gurus. Mas as mães nunca se vão inteiras, a casa permanece em nós mesmo depois que deixamos de ser filhas.

Dizem que o tempo ajuda, e realmente ajuda, de certo modo. A dor deixa de ser um incêndio diário, mas ninguém conta que, junto com a mãe, também vai embora uma parte da nossa identidade mais íntima: a de filha. É estranho continuar existindo sem ter mais para quem ligar depois de um dia difícil. Sem ouvir a voz que imediatamente diminuía o tamanho das pequenas e das enormes tragédias. É estranho estar sem alguém que perguntava se você chegou bem em casa e realmente precisava saber a resposta.

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O dia continua cheio de pessoas, mas nenhuma ocupa o lugar da única pessoa que torcia por você como se cada uma de suas vitórias fosse dela também. E a saudade é ridícula! Mora nas coisas mínimas: nas fotos que quase não se consegue olhar sem sentir um aperto físico, num impulso automático de pegar o telefone para contar uma notícia (antes de lembrar que não há mais número que alcance o lugar onde ela está!). Mora nas receitas feitas idênticas, num cheiro, numa música, numa roupa dobrada do jeitinho dela. E até nas alegrias, porque há felicidades que doem por não poderem mais ser compartilhadas.

E existe um cansaço específico em ser mãe depois disso. Há dias em que os filhos precisam de colo justamente quando você também precisaria de um. Dias em que tudo pesa tanto – e o que você mais queria era poder encostar a cabeça em alguém e deixar de ser forte por algumas horas.

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Mas não há mais para onde voltar! Então você respira fundo, enxuga as lágrimas escondida no banheiro, volta para a sala e continua sendo a mãe de alguém, mesmo sentindo uma falta tremenda de ainda ser filha de alguém que teus filhos também gostariam que ainda estivesse aqui.

Talvez uma das tarefas mais difíceis da vida seja justamente essa: continuar oferecendo amor enquanto se aprende a sobreviver à ausência da pessoa que mais nos ensinou sobre ele. No começo, parece impossível. Existe culpa em voltar a sorrir. Existe culpa em seguir vivendo. Como se reconstruir a vida fosse uma espécie de traição à dor. Mas, aos poucos, você vai entender que o amor verdadeiro não pede ruínas. Ele permanece. E permanece de maneiras misteriosas.

Na forma como você penteia o cabelo do seu filho. Como seca o cabelo da mais velha num dia que ela chega apressada e pede ajuda, no jeito de preocupar-se demais, na mania de perguntar se todos comeram. Na capacidade de perceber as tristezas silenciosas e nas frases que escapam da boca exatamente como escapavam da dela. Você poderá se assustar ao reconhecer sua mãe vivendo em gestos que julgava serem completamente seus.

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E então entenderá: ela não foi embora inteira. Ela ainda existe naquela coragem que você achava que não tinha no momento inicial do luto. Existe no amor quase feroz com que protege seus filhos. Existe na mulher que você precisou se tornar depois da perda. Porque a morte muda tudo, inclusive a maternidade. Seus filhos conheceram a mulher que você era antes da ausência e conhecem agora outra versão: uma mãe reconstruída. Mais funda e mais frágil em alguns lugares. Mais humana. Uma mulher que aprendeu que o amor não impede perdas, mas enfrenta todas elas.

No fim, é o amor que faz o impossível de continuar respirando. Porque a dor, sozinha, paralisa. Mas o amor cria continuidade. O amor recebido de uma mãe não morre com ela. Se desloca e passa a existir nas escolhas, nos gestos, na maneira como seguimos oferecendo ao mundo aquilo que um dia nos salvou. E continuamos porque sentimos e fomos profundamente amados. Quem recebeu amor verdadeiro carrega dentro de si uma espécie de herança afetiva que sustenta a vida mesmo depois das mais difíceis perdas e a reconstrói de maneira ímpar, quantas forem as vezes.

E talvez seja essa a força mais impressionante dessa mesma vida durante e depois do luto: perceber que, embora você tenha deixado de ser filha no mundo visível, continua sendo filha dentro de tudo aquilo que carrega adiante. Sua mãe permanece não mais como a presença que espera você voltar para casa e avisar que chegou bem. Mas como casa dentro de você.

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