Quando ninguém está olhando

Tem quem passe pela vida como quem atravessa uma sala sem olhar os quadros. Tem quem pare. Os que sentem e demoram. Almas que não cabem no raso, que se inquietam no morno, que não sabem viver no “daqui a pouco”. Há nessas pessoas uma fome vinda do ventre (não de ter, mas de viver!). De experienciar o mundo com as mãos nuas, as feridas abertas, com o tato, o gosto, o faro e deixar que ele invada a artéria sem pedir licença.

Se encantam dos afetos que não pedem tradução, dos silêncios compartilhados que dizem mais do que qualquer discurso ensaiado, de quem fica mesmo sem ter muito a oferecer além de presença (e como isso, às vezes, é realmente tudo!). Repetem as músicas até que elas virem parte do corpo, dançam sem motivo, riem quando tudo parece dar errado. Resistem bravamente nessa recusa maluca em endurecer.

Carregam muitas incertezas nesse processo. Muitas, que visitam sem aviso prévio. Sentam ao lado e, por vezes, tentam convencer a diminuir a intensidade. Mas quem é inteiro não as expulsa de dentro. Caminham em um não saber com a naturalidade da criança que ainda vive – e segue apesar de… E do que também! Pois é no espaço do incerto que a vida se refaz e respira mais larga, menos vigiada, mais verdadeira.

Existe nesse vão o que ninguém vê. O café de domingo passado para dois, mesmo quando só um bebe. O carinho no cachorro que não entende o significado de certas palavras, mas reconhece amor. O sorriso entregue ao sol da manhã como quem agradece por ainda estar aqui. O hábito de olhar o céu à noite e se permitir pequeno diante da imensidão das estrelas. A paixão pela chuva, não pela pressa de se abrigar, mas pelo convite de viver o sentir e os sentidos. A vida simples e simplificada é mais honesta!

Ser quem se é quando ninguém está vendo. O gesto mais radical de liberdade! Porque ali não há performance, não há expectativa, não há necessidade de caber. Há só a verdade crua e pungente.

O gosto das coisas simples, mas nunca das pequenas ou simplórias… O simples, vivido com presença. Imenso e vasto como o mar, profundo como o tempo, intenso como o que não se explica. Até um gesto mínimo, se houver entrega, pode conter um universo inteiro.

Quem nasceu assim, não veio ao mundo para ser metade. Nem para viver no quase, no talvez, no depois. Há urgência, não de pressa, mas de intensidade. Preferem a inteireza dos momentos, mesmo que às vezes doa. Querem o profundo, mesmo que se percam. Querem o agora, mesmo que seja incerto.

Buscam aquilo que permanece na pele como tatuagem mesmo quando o resto passa. Aquilo que não se mostra. Aquilo que é, simplesmente, sem retoques. Na crueza do ser – com qualidades e defeitos porque a beleza mora também nas cicatrizes do outro quando as admiramos e respeitamos. Pessoas inteiras são encantadoras. Inteiras mesmo nas dúvidas. Mesmo nos dias cinza. Mesmo quando ninguém está olhando. Principalmente quando ninguém está olhando.

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