O rock sempre soube antes da gente, ou pelo menos fingiu saber melhor. E é por isso que voltamos a ele quando não entendemos nada ou quando tudo parece suspenso naquele instante estranho entre o que foi e o que ainda não é. Ouvindo “Learning to Live”, contei cada virada de tempo numa tentativa de me encontrar.
“The way your heart sounds makes all the difference, it’s what decides if you’ll endure the pain that we all fell… the way your heart beats makes all the difference in learning to live”, faz sentido, e, ainda assim, o músculo insiste em sentir tudo ao mesmo tempo. O não saber pulsa como um tempo longo demais – sem entendimento de onde começa ou termina: sinto. A música ajuda a sentir.
O não saber também tem ritmo. Às vezes é um riff sincopado ou tríade, como Van Halen em “Jump”: “You got it tough, I’ve seen the toughest around and I know baby, just how you feel. You got to roll with the punches and get to what’s real”… Can’t you see me standin’ here?”. Dá vontade de gritar “Might as well jump”, não pela certeza, mas justamente por não ter. Investida alguma pede garantias, mas audácia (essa matéria-prima meio instável que só nasce quando se quer voar!).
Aquela tensão crescente, um brado que rasga o silêncio… Como se dissesse que há algo prestes a acontecer, mesmo que ainda não consiga se ver. E talvez nunca, de fato, veja por completo. Não um murmúrio denso como “Child in Time” ou a suposta soledade de “Here I Go Again” que conta mais do movimento do desejo, numa desobediência ao status quo. Um incômodo que empurra mesmo sem mapa (cravei até na pele que não sabia para onde estava indo, mas sabia muito bem onde estive)…
De repente recordo de um olhar bem específico. Por vezes tudo muda num átimo (e num único olhar) que pode ser o início de uma história inteira ou o fim silencioso de outra – a centelha que incendeia ou uma brisa que apaga. “Do you like good music? Do you like to dance? It’s nearly morning.. Do you wanna risk a chance?” – passa na mente, Billy Idol. Como pode algo tão palpitante carregar uma dramaticidade que parece entender o limiar entre o controle e o abismo? A mensagem é simples: continuar. Seguir sem clareza (mas… e se o próximo passo for só uma aposta?).
Em Kotzen, de repente algo desliga. Não é ausência, é presença, existe até no vácuo. Suspende o tempo, como se alguns minutos fossem suficientes para conter aquilo que passaria anos procurando sem saber. A vida, às vezes, tem esse gesto inesperado: entrega o que parecia distante demais. E a gente sem defesa, naquele bendito olhar que demora um segundo a mais, num toque que não se explica, num cheiro que fica, se vê também. Inícios que não prometem permanência, mas mesmo assim permitem uma vontade silenciosa de estar como num solo de guitarra: intenso e inevitável. E que poderá repetir quantas vezes for para não perder a sensação até que ela se torne real de novo. Basta tocar novamente. P.S.: “Solos de guitarra não vão me conquistar”.
O rock n’ roll não é sobre respostas. Desde sempre é sobre esse estado efervescente do aceitar que nosso dia a dia não vem com refrão fácil, que os solos são longos e imprevisíveis, que a música pode mudar de tom sem aviso prévio. E ainda assim (ou por causa disso) a gente continua a querer o som: entre o medo e a vontade, entre um olhar e a esperança de rever o do outro, entre o intervalo mínimo e imperceptível onde tudo pode mudar. E muda (como as faixas da minha playlist nessas horas de viagem). Que sejam faixas que trazem boas batidas e paz para o coração.
