Se há alguma coisa que eu não espero mais de Mário Celso Petraglia é o improvável. Pensei que os 50 dias de recesso hospitalar em razão do risco de perder a vida iriam lhe dar a consciência de compreender as pessoas para, então, ter provocado os sentimentos de compreensão e gratidão.

Ao comunicar em nota a saída do treinador Tiago Nunes, o Athletico conclui: “A memória é curta no futebol. Tiago Nunes esqueceu muito rápido que poucos meses atrás treinava o time sub-19 do Furacão. Gratidão é a voz do coração”.

Na frase, está presente uma das mais conhecidas digitais de Petraglia: o rancor que projeta para o mundo exterior quando é submetido à independência e à vontade de outro.

É verdade: “poucos meses atrás”, Tiago treinava o sub-19.

Mas, há poucos meses atrás, com o mesmo time que Diniz estava rebaixando, o “ingrato” Tiago levou o Furacão ao sexto lugar do Brasileiro.

Há poucos meses atrás, esse “ingrato” Tiago conduziu o Athlético ao título mais importante da sua história, o da Sul-Americana. Ainda, esse “ingrato” comandou duas vitórias que se cujo valor imaterial é impagável pelo seu simbolismo: pela Libertadores, 3×0 no Boca Juniors, e pela Recopa, 1×0 no River Plate.

E para mostrar que a “ingratidão” não tem limites, há poucos dias, depois do Athletico eliminar Grêmio e Flamengo, ofertou aos atleticanos, mais um título inédito na sua história, o da Copa do Brasil. Só de prêmios em razão dessas conquistas, o Furacão ganhou mais de R$ 70 milhões.

Foi a execução dos ensinamentos de jogo de Tiago que fez de Renan Lodi o melhor lateral-esquerdo do Brasil, rendendo ao Athletico 90 milhões de reais. E também por isso Bruno Guimarães está sendo negociado por 40 milhões de euros.

Gratidão é um sentimento sério. Se Athletico e Tiago tiverem que prestar contas um ou outro, em razão da gratidão, o Furacão ficará devendo. E não poderá pagar. É que a gratidão não tem preço.

Em tempo

A nota oficial do Athletico diz “a gratidão é a voz do coração”. Houve um equívoco. O correto é “a gratidão é a memória do coração”. Locução bíblica, popularizada pelos franceses como um provérbio.