Um cachorro atropelado aparece nas redes sociais. Em poucos minutos começam os comentários: “Chamem uma ONG.” “Marquem uma protetora.” “Alguém precisa resgatar!” Sempre alguém, nunca a própria pessoa. O curioso é que quase ninguém escreve: “Eu vou ajudar.”

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Quando o animal é resgatado, vêm os aplausos, os corações e os compartilhamentos. Só que o resgate dura algumas horas. A conta pode durar anos. Tem consulta, exames, cirurgia, medicamentos, ração, castração, vacinas e um lugar para esse animal ficar. E, se ninguém adotar, alguém terá que sustentá-lo talvez pelos próximos 10 ou 15 anos.

É nessa hora que boa parte da torcida das redes sociais desaparece.

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O cachorro machucado gera comoção. O pedido de ração três meses depois, nem tanto. O sofrimento dá engajamento. A manutenção dá despesa.

E assim fomos criando uma lógica perversa: alguém abandona, outro fotografa, dezenas marcam uma ONG e a responsabilidade acaba no colo de quem já cuida de dezenas ou centenas de animais. Depois, se a ONG disser que está lotada, ainda é criticada. Como se protetores e as ONG´s tivessem obrigação de resolver individualmente aquilo que a sociedade e o poder público não conseguem resolver coletivamente.

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Precisamos falar de resgate responsável.

Antes de cobrar que alguém recolha um animal, é preciso perguntar: quem paga a clínica? Quem oferece lar temporário? Quem compra a ração? Quem procura adotante? Quem ficará com ele se a adoção nunca chegar?

ONGs e protetores podem fazer parte da solução.

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Não podem continuar sendo o depósito da irresponsabilidade dos outros.
Então, da próxima vez que encontrar um animal precisando de ajuda, talvez seja melhor trocar o tradicional: “Alguém precisa fazer alguma coisa.” por uma pergunta um pouco mais incômoda:

“E eu, o que vou fazer?”