Para 4% da população brasileira, ou seja, cerca de 6 milhões e 800 mil pessoas, vítimas de obesidade mórbida, emagrecer não depende apenas de reeducação alimentar e exercícios físicos. Por mais que elas consigam se livrar de alguns quilinhos com dietas comuns, em curto período de tempo recuperam tudo o que perderam e, em muitos casos, ainda ganham peso extra. “Quem tem obesidade mórbida perde, por exemplo, 10 Kg e, na seqüência, ganha 20 ou 25”, comenta o cirurgião responsável pelo Núcleo de Obesidade Mórbida de Curitiba, Alcydes José Branco Filho.

Para estas pessoas, uma das alternativas consideradas mais eficientes é a cirurgia de redução de estômago, a gastroplastia. Ela pode ser realizada de duas maneiras: através de um corte de aproximadamente 10 cm no abdômen (cirurgia aberta) ou por videolaparoscopia. No segundo caso, uma câmera de vídeo é colocada dentro do estômago do paciente através de um aparelho em formato de caneta, que faz com que a imagem aumente e o médico possa realizar o procedimento apenas por quatro furinhos, onde são inseridas pinças. “Atualmente, qualquer obeso mórbido pode se submeter à cirurgia por videolaparoscopia. Quando o paciente chega ao consultório, as duas opções de procedimento lhe são apresentadas. Damos orientações, mas cabe a ele escolher”, explica o médico.

As vantagens da videolaparoscopia são: menor tempo de internamento, retorno às atividades normais mais rapidamente, menos sangramento, menor risco de infecções e resultados estéticos mais positivos. “A recuperação é muito mais rápida”, diz Alcydes. A cirurgia por vídeo também não é muito mais cara que a aberta. Custa entre R$12 mil e R$13 mil, enquanto a com corte custa R$10 mil. Ambas duram cerca de uma hora e meia.

A porcentagem de redução do estômago varia de paciente para paciente. Porém, segundo o cirurgião, alguns meses após a cirurgia os pacientes conseguem perder até 40 Kg. “Geralmente, quem busca pela cirurgia já tentou diversas alternativas para emagrecer”, explica. “Quem opta pela gastroplastia recebe auxílio de uma equipe multidisciplinar, da qual fazem parte cirurgiões, nutricionistas, psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas, pneumologistas, anestesistas, cardiologistas, ortopedistas, intensivistas, enfermeiros e assistentes sociais”.

Alimentação

Depois da cirurgia, o paciente ainda leva um tempo para poder voltar a se alimentar normalmente. Na primeira semana, só pode ingerir líquidos. A cada refeição, ele ingere entre 30 e 50 ml de alimento, o que eqüivale a uma xícara de café. A nutricionista Magda Rosa Ramos da Cruz, que também faz parte do Núcleo, garante que o recém-operado não sente fome. “Os pacientes se sentem saciados com esta quantidade, pois a dieta é balanceada e o organismo acaba não sentindo necessidade de mais alimentos”, afirma.

Na segunda semana, o pós-operado passa a ingerir substância pastosas, na quantidade de 70 a 100 ml por refeição. A partir da terceira semana, pode ingerir alimentos sólidos. “Esta é a fase mais difícil. Muita gente apresenta intolerância por certos tipos de alimentos, como doces, frituras, carne vermelha, alimentos gordurosos e bebidas alcoólicas ou gasosas, tendo vômitos”, revela. ” Quem já é acostumado a mastigar bem, tem uma recuperação melhor nesta terceira semana e enfrenta menos problemas”.

De acordo com Magda, um ano após a cirurgia, o paciente já pode comer de tudo. “Não há nada que seja proibido comer. Porém, ele vai passar a comer em menores quantidades”. Geralmente, a dieta e o processo de mudança de hábitos pelo qual o paciente passa não fazem com que ele perca massa muscular, fique desnutrido ou com a saúde frágil. Normalmente, a dieta é individualizada.

Psicologia

Durante todo o processo, o paciente recebe apoio psicológico. “Fazemos uma avaliação psicológica para saber se o paciente está preparado para passar pelo procedimento cirúrgico. Também o orientamos sobre tudo que diz respeito ao pós-operatório e avaliamos se ele está disposto a enfrentar as dificuldades. Só depois de seguro, o paciente é encaminhado para cirurgia”, declara a psicóloga do Núcleo, Adriane Wood Reis.

Trinta dias após ser operada, a pessoa volta a receber apoio psicológico. “É nesta fase que o paciente entra em contato com a perda da comida e pode passar a ter depressão. Outros, são compulsivos e acabam comendo sem necessidade. Nestes casos, contamos com ajuda de psiquiatras”.

Em Curitiba, a cirurgia de redução do estômago é feita pelos hospitais Vita, Santa Casa, Cajuru e Cruz Vermelha.

Cálculo do índice de massa corpórea

A obesidade mórbida é medida pelo Índice de Massa Corpórea (IMC). Para identificá-lo necessário dividir o peso pela altura ao quadrado. Se for encontrado um valor entre 20 e 25, pessoa é considerada saudável. Entre 30 e 35, há sobrepeso. Porém, se a pessoa tiver algum tipo de problema de saúde, cardíacos, endocrinológicos ou respiratórios, já é considerada obesa mórbida. Acima de 35, mesmo sem problema de saúde, esse índice é caracterizado como obsidade mórbida. (CV)

Quem já fez aprova os resultados

Os pacientes que tiveram coragem de encarar a cirurgia de redução do estômago parecem não ter se arrependido. Na maioria das vezes, quem busca pelo procedimento não espera resolver apenas problemas de saúde, mas também melhorar a auto-estima e conquistar qualidade de vida.

O servidor público Ricardo Sarlo Keppen, de 35 anos e 1,70 de altura, realizou a cirurgia recentemente, no último dia 26 de abril. Ele conta que, no começo, achava a operação um ato absurdo. “Acreditava que se submeter a uma cirurgia de redução de estômago era uma agressão ao próprio corpo. Pensava que a gastroplastia mutilava o estômago e que os pacientes não poderiam nunca mais comer normalmente”.

Conversando com amigos que já haviam se submetido ao procedimento e, posteriormente, com médicos integrantes do Núcleo de Obesidade Mórbida de Curitiba, Ricardo descobriu que estava cheio de preconceitos. “Vi que os meus amigos não tinham qualquer restrição alimentar e que a cirurgia não era tão agressiva quanto parecia”. Dias após a operação, o servidor público revela que está bem e que não se arrepende da iniciativa. Ele se submeteu à videolaparoscopia. “Não senti dor alguma, nem durante a cirurgia, nem agora, no pós-operatório. Ainda não consigo levantar peso ou dirigir, mas já estou levando uma vida praticamente normal”. Ricardo pesava 130 Kg e já emagreceu 10 Kg.

Também otimista, a gerente administrativa Iara Maria Gonçalves, de 41 anos e 1,72m de altura, realizou a cirurgia aberta em julho de 2000. Ela emagreceu 36 Kg, atualmente pesando 82 Kg. “Fiquei sabendo da cirurgia pela minha sobrinha, que trabalha no Núcleo de Obesidade Mórbida. Me informei sobre o método e não tive dúvidas, pois estava bastante consciente de que queria emagrecer”, afirma. “A recuperação foi boa e eu não tive dificuldades para me adaptar à nova vida”. Hoje, Iara diz que se sente uma nova pessoa. Sua auto-estima melhorou bastante e ela diz se sentir bem mais leve e ágil. “Hoje, tenho algumas limitações, como não poder comer frutas muito ácidas e carne vermelha, sendo que o meu estômago rejeita estes alimentos. Porém, nada disso é problema para mim. Estou muito mais feliz e de bem com a vida”.

Otimismo

A mesma empolgação mostra a dona-de-casa Beatriz Fenill, que tem 32 anos e 1,61m de altura. Atualmente, ela pesa 80Kg. Porém, quando realizou a gastroplastia, em novembro de 1999, pesava 132Kg. “Eu já havia tentado de tudo para perder peso. Não obtinha sucesso em nada. Cheguei até a ter uma forte depressão, causada pelos medicamentos para emagrecer. Só a cirurgia resolveu meus problemas, pois fui obrigada a mudar meus hábitos de vida. Não me arrependo nenhum pouco do que fiz, pois não senti nenhuma dor e nem passei fome”, revela.

Há pouco tempo, Beatriz se submeteu a uma plástica no abdôme para corrigir problemas estéticos. Ela ainda pretende realizar plásticas nas coxas e braços. “Comecei a engordar aos quinze anos e nunca mais parei. Os médicos descobriram que meu problema era genético. Agora, vou fazer tudo o que for possível para me sentir bem”, diz. “Sempre contei com o apoio de minha família e com a ajuda da equipe médica que realizou a gastroplastia. A recuperação não foi difícil. Me sinto uma nova pessoa”. (Cintia Végas)

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